domingo, 27 de maio de 2018

Essa coisa de Internet

Oi, sumida! Faz mais de um ano que eu desapareci daqui e, sendo bem sincera, a última resenha que eu postei, só postei porque tinha que escrever de qualquer jeito pra USP e resolvi otimizar meu trabalho. MUITA COISA aconteceu no meio desse caminho e eu não sabia como voltar pra cá, o que dizer e não enxergava um sentido lógico em nada disso (não sei se agora vejo, mas nas últimas semanas tenho sentido saudades de escrever).

Eu queria muito que o meu processo de redescoberta da vida e de reencontro comigo mesma tivesse sido uma coisa bem bonita como em "Comer, Rezar e Amar", quando a Julia Roberts sai pela Itália experimentando tudo que existe de gostoso no mundo e encontrando homens tão maravilhosos quanto. Mas, não foi bem assim. Na realidade eu fiz um ano de terapia, oito tatuagens, ganhei alguns quilinhos, afoguei todas as minhas frustrações trabalhando muito mais do que deveria, tive trocentas crises de ansiedade, quis desistir de tudo, deitei em forma de ovo e senti pena de mim mesma inúmeras vezes... E no outro dia tava tudo bem!

Olha, apesar de não ter ido pra Itália e nem pra Índia, eu conheci uns lugares bem bacanas nisso tudo. Tudo começou quando eu tava em Paraty, vi uma placa "Caminho da Estrada Real" e decidi que já havia passado da hora de realizar meu sonho de conhecer as cidades históricas de Minas Gerais. Pelo Instagram fiz amizade com uma companheira de viagem incrível e fomos pra Ouro Preto, Mariana, Congonhas, São João Del Rei e Tiradentes. Lembro que quando cruzamos a Estrada de Real lágrimas surgiram no meu rosto por entender que aquele era um passo que dava sozinha, pela primeira vez (vocês não têm ideia do quanto eu sou chorona!). 

É muito doida essa coisa de ser adulto. As pessoas no geral sempre me passaram a impressão que quando você atinge uma determinada idade, começa a ter todas as respostas, sabe exatamente aonde ir, com quem falar, como se comportar. Na boa, essa é a pior das mentiras possíveis! Quando meu relacionamento acabou em 2017, eu nunca tinha me visto tão adulta e, justamente por isso, tão perdida! De todas as dificuldades, saber que se está sozinho no mundo, e que só você pode mudar significativamente sua vida, é o mais difícil.

Depois de Ouro Preto tive um bate e volta incrível pro Rock In Rio, também voei pra Bahia, passei meu aniversário no Rio de Janeiro, assisti ao show da minha banda preferida no LollaPalooza, fui em todas as baladas possíveis, tomei vários porres, conheci pessoas incríveis e outras não tão incríveis assim... Enfim, aos 23 anos eu fui aprender a viver do modo mais clichê possível.

E viver dói, né? Tenho certeza absoluta que é impossível se resguardar da dor, mesmo encontrando pela frente tanta gente que parece ter envolvido seu corpo em um plástico bolha imaginário gigante. Em alguns dias estamos incríveis, no auge de tudo que pode ser mais socialmente valorizado, e, no outro, alcançamos o tão falado fundo do poço do modo mais remelento que algum ser humano pode ser. 

Eu tinha muita coisa pra fazer e aprender e, no meio disso tudo, ler não foi minha prioridade. Na verdade, eu passei meses tentando afastar pensamentos ruins e, em consequência disso, não conseguia deixar meu corpo parado por um minuto. Então, sentar em uma cadeira e me concentrar na leitura não era, de forma alguma, uma opção. Aliás, também tive muitos problemas na faculdade por não conseguir frequentar as aulas. Pra vocês terem uma noção, eu sempre coloco música pra espantar esses pensamentos e, segundo o Spotify, em 2017 eu ouvi o equivalente a 20 dias de música diretos, o que é bem assustador!

Entretanto, mais de um ano depois, sinto que tudo começou, finalmente, a se aquietar. Boa parte disso vai ficar, porque eu mudei e passei a gostar de uma infinidade de coisas que nem sabia que existiam, mas um outro pedaço já não é mais tão atrativo. Estou voltando pros meus eixos e a literatura sempre foi parte integrante deles. Voltei a ler e escrever. Quero voltar a compartilhar. 

E tenho um tanto de receios e medos e pavores de não entenderem essas mudanças todas e desaprovarem.

Lembram quando eu comecei dizendo que procurava sentido pro que faço nessa coisa de internet? Como disse, ainda não encontrei, porém, tenho uma ligeira ideia de onde NÃO está o que busco. Nunca tive e não foi agora que desenvolvi paciência pra academicismos. Não vou escrever termos esquisitos e complexos pra que valorizem minha produção intelectual. Mais do que nunca, será assim: minha cabeça pensou, escrevi. Até porque, verdade seja dita, é muito mais fácil soar inteligente fazendo todo mundo se sentir burro -e eu não tô aqui pra isso.

Voltarei a compartilhar minhas leituras e a narrar o mundo do meu jeito, com o meu olhar e interpretações (assim como eu faço, por exemplo, no meu instagram que é uma das coisas mais incríveis de toda a internet, haha!). E meu jeito é um jeito novo, mais intenso e exagerado, cheio de pormenores e coisas que eu não entendo muito bem. No, fundo, eu sei que estar perdida é meu caminho.

E, olha, se até eu estou aprendendo a gostar desse turbilhão de novos sentimentos e aventuras, tenho certeza que vocês igualmente irão gostar. Ainda que eu só fale por aqui de literatura, toda a poesia vivida se transfigura em poesia. É impossível poesia virar qualquer matéria que não poesia. Qualquer um que se esforce pra olhar é capaz de ver.


(Só mais uma coisa, antes que me esqueça: traz os refri que a ousada chegou!)


domingo, 16 de abril de 2017

Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos - Zygmunt Bauman (Resenha)

Muitas vezes em minha graduação (ciências sociais - USP) tenho a oportunidade de cruzar elementos acadêmicos com informações e autores que vocês, leitores do blog, possuem muita curiosidade. Nesse semestre estou cursando uma disciplina nomeada Sociologia da Literatura, ministrada por Daniela Guertzenstein, sendo que uma das formas de avaliação foi a produção da resenha do livro Amor Líquido, publicado por Bauman.

Eu, Natália Assarito, particularmente, não acredito muito na sociologia do autor, devido à falta de provas no que é colocado e método adotado na produção. Não consigo identificar quais são as bases teóricas do que ali está escrito, além do empirismo de um homem genial. Defendo a produção de sociologia espontânea, porém não nos moldes de best sellers, em que o autor publica um livro por ano.

Entretanto, compreendo sim a importância da discussão dos temas tratados, principalmente fora do meio acadêmico. Bauman é um excelente escritor e suas reflexões são importantes para repensarmos nossos tempos e modelos de vida. Em muitos momentos, concordo com suas opiniões e enfoques (todavia, não entendo como isso seria sociologia). A seguir, reproduzo a resenha entregue à professora. Espero que vocês gostem e também deixem suas impressões nos comentários!


Nos primeiros meses de 2003, Bauman publicou Amor Líquido, livro que seria amplamente difundido e colocaria em discussão os relacionamentos modernos em uma sociedade dominada por interações via redes. Logo no início de sua obra, o autor ressalta características importantes da atual vida líquida, concretizada pela insegurança, ansiedade e medo (dentre outros fatores, esses sentimentos são gerados pelas instabilidades do mercado de trabalho, tema discutido em seu livro anterior, “Modernidade Líquida”). Levada às relações amorosas, o medo e a insegurança de se relacionarem empurrariam os homens a uma contradição: ao mesmo tempo em que buscam por acolhimento e segurança, almejam relacionamentos cujos vínculos sejam muito estreitos, permitindo-lhes um rápido e indolor término. Dessa maneira, as relações sociais deixam de acontecer pessoalmente, com a presença física do outro, passando a serem mediadas por tecnologias, nas quais a tecla “delete” está sempre presente.

No primeiro capítulo, “Apaixonar-se e desapaixonar-se”, Bauman faz uma série de comparações, por exemplo, entre o amor e a morte, argumentando que ambas são inerentes aos seres e ocorrem em momentos inesperados. Contudo, a relação que mais chama atenção diz respeito às semelhanças entre os relacionamentos e os investimentos econômicos feitos por meio de ações. Em ambos os casos, o indivíduo dispõe de seu tempo e esforços buscando uma resposta lucrativa, algo a ser devolvido em números ou intensidades maiores do que foi aplicado, além da possibilidade de uma fácil dissolução do negócio, caso seja possível observar que ele não encaminhará bem. A resposta esperada em relações amorosas está voltada para a companhia e ajuda em momentos de dificuldade, algo totalmente condizente com a insegurança do mundo líquido.  Entretanto, ao contrário das grandes ações, o autor defende que relacionamentos exigem uma carga de responsabilidade extra, pois as pessoas envolvidas não são capazes de ter informações privilegiadas por meio de especialistas (a não ser que os contrate) e nunca há garantias, seja sobre os sentimentos do outro ou sobre as ações tomadas.

Outro ponto importante, abordado ainda no primeiro capítulo, diz respeito às “relações de bolso”, aquelas de pouco tempo de duração, porém repletas de boas lembranças, uma vez que não exigem nenhum esforço para sua manutenção, sendo instantâneas e disponíveis. O indivíduo ingressa nessas relações sem estar tomado por paixões, totalmente consciente de si, de suas ações e do outro e, desse modo, não se modifica e nem luta para promover mudanças no companheiro, mantendo a harmonia pelo tempo limitado ao que o enlace está fadado a durar.

No segundo capítulo, “Dentro e fora da caixa da sociabilidade”, discute sobre o papel do sexo na vida dos indivíduos pertencentes à modernidade líquida. Segundo ele, em uma sociedade de consumo, para que o tédio não seja gerado, ocorre o aluguel de boa parte dos bens, permitindo uma rápida mudança para os modelos de última geração. Nessa lógica, assim também seria o sexo, adaptando-se a um padrão de compras e locação, uma vez que um encontro profundo de parceiros sexuais gera ansiedade e, acima de tudo, os indivíduos prezam por segurança. Todavia, por mais que tentem alienar esse encontro, essa constante troca faz com que os indivíduos se tornem eternamente insatisfeitos e incompletos.

Ainda nesse capítulo, Bauman chega ao ponto fundamental para se analisar uma sociedade completamente integrada por redes tecnológicas: os relacionamentos humanos mediados por aparelhos celulares. Como pressuposto, entende-se que quanto mais profundo é o vínculo entre os indivíduos, maiores são as chances de sofrimento caso ocorra um rompimento. Assim, os homens buscam terem sempre muitos contatos, muitas relações para as quais pedir refúgio, caso uma investida não tenha o efeito desejado. Para o autor, a rejeição deixa até de se tornar uma grande preocupação, pois sempre haverá outro alguém para se mandar uma mensagem e buscar atenção.

 Como apostar em apenas um relacionamento é arriscado e causa sofrimento, os celulares se tornam grandes refúgios na multidão, permitindo que se esteja sempre em movimento e pronto para uma nova conexão. Forma-se um enxame de pessoas cujas redes são destacadas, gerando, também, um aceite social por parte desses indivíduos. Além disso, como dito anteriormente, os celulares são plenamente capazes de aproximarem os seres humanos e os distanciarem, uma vez que é muito fácil ignorar uma ligação ou mensagem de texto. Dessa maneira, o uso dessas tecnologias atinge o ápice das relações humanas, sendo difícil observar alguma que não tenha sua influência, ainda que parcial.

Utilizando Durkheim como referência, Bauman classifica a virtualidade como um fato social, uma vez que é coercitiva, instituída de fora para dentro, pertence à todos, não depende do julgamento individual e é impossível de ser transgredida sem julgamento.

Nos capítulos seguintes, “Sobre a dificuldade de amar o próximo” e “Convívio destruído”, o autor expõe as conseqüências globais dessa maneira líquida de amar. A principal dessas formas seria o avanço da xenofobia, com a vontade dos Estados- Nação de também deletarem/excluírem uns aos outros, permitindo o avanço dos campos de concentração mantidos por forças de atração e repulsão. Além disso, com o consumo exagerado, a produção de lixo humano atingiu limites impossíveis de serem administrados.

A principal maneira, então, de combater a fragilidade dos laços humanos seria a abertura para a criação de vínculos, entrando em contato com a teoria de Arendt, em que a “abertura para o outro” é a condição primária para a humanidade. O diálogo e o pensamento crítico devem reforçar o poder de escolha dos indivíduos para o mundo que querem viver.

Bibliografia
BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro. Zahar, 2004.


Foto: reprodução



domingo, 2 de abril de 2017

Os Meninos da Rua Paulo - Ferenc Molnár

Quando eu era pequena, em todas as férias de julho as professoras se despediam dos alunos entregando um singelo pacote de "lição de férias". Nele, tínhamos exercícios de matemática e interpretação de texto, decorrente de alguma leitura indicada para o período. Sabe memória afetiva? Quando você tem uma lembrança tão forte que sente o cheiro, a textura e a temperatura de um dia? No momento em que comecei a ler Os Meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, me transportei automaticamente para as minhas férias de julho, quando eu ficava deitadinha lendo, desenhando com giz de cera e sonhando sobre como deveria ser o mundo lá fora.

"Este foi o único livro que ganhei do meu pai. Em geral, quem me presenteava com livros era minha mãe, ela sim uma grande leitora. (...) Talvez por isso, Os Meninos da Rua Paulo seja tão importante pra mim, a ponto de fazer com que eu assine essa orelha, mesmo sendo contra editores aparecerem em livros de publicação própria." - Luiz Schwarcz

Publicado em 1906, como todo livro voltado para crianças, a obra conta com um enredo simples, porém repleto de poesia e sentimentos capazes de acordar qualquer adulto. Um grupo de amigos funda a Sociedade do Betume, onde se reúnem todas as tardes para brincarem e discutirem sobre seus dias. Assim como os demais clubes infantis, dentro da Sociedade há uma hierarquia muito bem definida, centralizada no líder Boka e acompanhada de tenentes, alferes, capitães e um soldado raso, Nemecsek, aparentemente o menino mais frágil da estrutura.

Entretanto, um grupo rival, formado pelos camisas vermelhas, meninos pertencentes a outra escola, decide reivindicar para si o grund (território) da Sociedade do Betume, declarando guerra. Dessa maneira, Boka e seus companheiros precisam se unir e traçar estratégias para defender aquele espaço representante de um  universo de felicidade e fuga. Nesse momento, temos contato com um sentimento de real heroísmo, um companheirismo cuja existência nos esquecemos, algo que só o infantil é capaz de nos despertar.

Particularmente, não acredito totalmente em um ideal de bondade na infância, uma vez que por se tratarem de seres em socialização, crianças são capazes de adquirirem algumas "crueldades" dos adultos muito rapidamente e, justamente por serem crianças, não possuem discernimento para expressar isso. No livro, Nemecsek é constantemente ultrajado por seus colegas, os quais fazem questão de realçar durante todo tempo sua inferioridade dentro da Sociedade. Porém, esse mesmo personagem nos mostra que apesar desse lado difícil dos nossos primeiros anos, ainda é nesse momento que somos puros o suficiente para lutarmos por aquilo que amamos, sem nos importar com valores ou consequências.

Eu gostaria de ter lido Os Meninos da Rua Paulo na minha infância porque não me lembro de ter entrado em contato com algo que contém mais sonhos em estado puro. O livro é algo para ser desbravado, deliciado aos poucos. O duro golpe do final nos lembra que somos adultos e que nossas realidades nunca mais poderão ser tão coloridas assim. Mas, como coração não é essa coisa toda exata, manterei essas páginas pertinho de O Gênio do Crime, um clássico da nossa literatura, para que meus filhos, ou os filhos de meus amigos, nunca percam essa imensa oportunidade de serem felizes.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Aprendendo inglês aos 23 - estudando na Cultura Inglesa!



Antes de mais nada: feliz ano novo, leitores! É meio surreal pensar que já estamos praticamente no carnaval e eu ainda não havia escrito absolutamente nada aqui... Além das minhas desculpas de sempre (trabalho e bla bla blá), eu faço aniversário no começo do ano, então sempre nessa época estou em crise e, portanto, fico quieta no meu canto. Mass, são águas passadas e finalmente estou com disposição para colocar nosso papo em dia!

No final de 2016 sentei e estabeleci uma série de objetivos com diretrizes muito claras para esse ano. Dentre eles, um dos principais pontos é aprender inglês. Todo conhecimento da língua que tenho obtive na escola e em 3 meses de curso de idiomas na minha faculdade, porém, meu nível ainda é bastante insatisfatório pensando na exigência de inglês avançado/fluente para efetivação do meu estágio (e eu me formo nesse ano!).

Na USP fiz o curso no NELE, uma entidade bastante conhecida entre os estudantes da FFLCH por ter valores bastante acessíveis e uma variedade de idiomas oferecidos (além do inglês, eles também dão cursos de alemão, espanhol, italiano, francês, grego e latim). As aulas são ministradas por alunos da faculdade durante a semana e o material é na base do xerox comunitário. Meu professor era bastante comprometido e rígido, sendo que eu adorava as aulas, entretanto, como greves na FFLCH são frequentes, nossa rotina era muito prejudicada com os prédios trancados. Além disso, depois de um tempo meu pai não conseguiu mais pagar e eu tive que parar :/

Assim, nesse ano, graças à minha bolsa de estágio, decidi iniciar novamente essa etapa da minha formação, agora na Cultura Inglesa.






1. Por que Cultura Inglesa?
Sempre tive uma proximidade muito grande com a Cultura porque eles tinham uma unidade dentro do colégio que frequentei a vida inteira, ou seja, boa parte dos meus amigos e familiares sempre fizeram Cultura. Além disso, pesquisando, percebi que a Cultura Inglesa é extremamente metódica em comparação às outras escolas: eles não prometem que você falará inglês em "x" anos, mas, antes de tudo, investem em uma formação gramatical muito forte, o que leva tempo. Eu acredito muito em obtenção de conhecimento através de esforço e repetição, então, não quero simplesmente uma escola de inglês que me estimule a conversação, sendo que minha gramática está péssima. Por fim, o custo benefício me parece bastante competitivo (apesar de cada mensalidade custar quase metade da minha bolsa estágio! :/).

2. Qual o meu nível?
Antes de mais nada, é importante estabelecer que a Cultura Inglesa divide seus níveis de acordo com blocos de aprendizado. Meu teste foi uma redação em que eu deveria contar para uma velha amiga como estava minha nova rotina e uma prova oral, feita pela professora que estava me avaliando. Assim, meu nível é intermediário, porém, meu bloco é o "Upper-Intermediate", considerado um "pré-avançado" formado por 3 semestres. Eu fiquei bastante satisfeita com essa classificação, pois, como disse, nunca fiz inglês além daqueles 3 meses na FFLCH (a moça que fez meu teste disse que será bastante desafiante e precisarei me esforçar um pouco a mais que os outros alunos).

3. Os livros são caros?
No meu bloco são utilizados dois livros de material de aula, o Outcomes Upper Intermediate Student's Book e o Outcomes Upper Intermediate Workbook, além de uma adaptação de Moby Dick. Consegui pegar uma promoção bastante atrativa na Saraiva, mandei entregar em um shopping próximo à minha casa (evitando o frete) e consegui gastar um total de R$197,90. Não acho barato, mas em comparação ao material de outras escolas de inglês, sai bem em conta. Para complementar, comprei um caderno de 200 páginas, pois pretendo estudar bastante em casa com vídeos no youtube e utilizando o próprio site da Cultura Inglesa.



Meu curso começa na próxima semana, estou um pouco ansiosa e bastante insegura. Todos os meus amigos já falam inglês fluentemente e tenho medo de não conseguir conciliar as aulas de sábado aos meus compromissos usuais da semana (estágio e faculdade). Para manter a tranquilidade, me inspiro muito em blogueiras como a Bruna Vieira que, assim como eu, não tiveram condições financeiras de estudar a língua na infância e agora conseguem bancar esse sonho.

Fiquei refletindo bastante sobre isso ontem e, se assim como eu, caso você ainda não saiba falar inglês, não se sinta menor por isso. Essa é uma barreira extremamente importante que precisamos quebrar, contudo, cada um conhece sua história e sabe dos desafios que precisou enfrentar. Tem gente que não teve grana, que não mora em cidades com fácil acesso ou que, simplesmente, tem dificuldade de aprendizado. O mundo cobra tudo o tempo todo de nós, mas cada um tem seu ritmo e tudo na vida começa com um passo de cada vez! Eu já tenho uma lista na minha cabeça: primeiro o inglês, depois um mês no Uruguai ou Chile estudando espanhol, depois a natação... Aos pouquinhos todo mundo chega lá, cada um com o seu caminho!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Céu de Lima - Juan Gómez Bárcena (Resenha)

Sempre sonhei em escrever um livro. Gosto de passar horas imaginando como deve ser o processo de criação de cada personagem. Acho que o autor deve conhecer os detalhes de personalidade das suas criações aos poucos, da mesma maneira com que vamos conhecendo novos amigos e amores, com cada situação inesperada, cada surpresa que o desconhecido nos traz.

Juan Gómez Bárcena, o escritor, também me surpreendeu demais. A história criada, além de extremamente cativante, carrega traços de verossimilhança fortes. Como se não fosse pouco, o autor é um querido que responde todos no twitter, mostrando que genialidade não é uma grandeza oposta à humildade.

Os protagonistas,   José Gálvez e Carlos Rodríguez, são os burgueses perfeitos, fazendo com que nos esqueçamos em muitos momentos que a narrativa ocorre no começo do século XX, no Peru ( me peguei pensando inúmeras vezes que conheço muitos Rodríguez e muitos Gálvez). Cansados do tédio e das obrigações morais que a condição social os impunha, os dois amigos gostavam de manter uma vida boêmia, fugindo das aulas da faculdade de direito e fingindo serem grandes escritores.

Por serem grandes leitores e admiradores de Juan Ramón Jiménez, importante poeta espanhol, os jovens decidem inventar Georgina, uma musa perfeita, e enviam cartas ao escritor em nome dessa mulher fictícia (algo semelhante aos perfis fakes que encontramos nas redes sociais). A primeira abordagem de Georgina ao poeta foi muito simples, chegando a ser tímida, em que a jovem se identifica como leitora assídua do poeta. Ao longo das cartas, entretanto, a amizade entre Georgina e Juan Ramón Jiménez se estreita, com a jovem perdendo a formalidade e revelando segredos de sua vida.
"Mas o amor, onde está? Ainda não está, porque ninguém lhe deu palavras. O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou onde quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou o sentimento..."
Ao mesmo tempo em que Rodríguez e Gálvez escrevem seu romance com a ajuda passiva de Juan Ramón, adentramos na infância, traumas e lembranças dos protagonistas. Rodríguez, filho de um seringueiro que consegue ficar milionário com o ciclo da borracha, tem em suas primeiras lembranças imagens da violência contra os indígenas, resultando em um constante sentimento de repulsa a assumir qualquer tipo de conflito (o personagem nunca consegue impor suas vontades e sentimentos verdadeiros). Gálvez, por outro lado, nasceu em uma família tradicional peruana e durante toda narrativa espera que seus caprichos sejam atendidos por todos.

"O acampamento estava cheio de meninos que não eram meninos propriamente ditos, porque eram filhos dos trabalhadores indígenas e por isso não podia brincar com eles, nem sequer olhá-los de frente. (...) Faz de conta que são invisíveis, advertiu seu pai."

A primeira vista, o enredo parece simples, quase banal. A beleza do Céu de Lima está naquilo que é contado ao mesmo tempo em que toda confusão acontece.  Como se fossem múltiplas estórias em uma. A história do bacharel, que ao ajudar nas cartas de Georgina, ensina tanto sobre o amor. A violência e a maneira com que os indivíduos encontram para enriquecer e se tornarem "homens de bem" são retratadas. O livro também fala de distúrbios psicológicos em uma época cujos sintomas eram tratados como frescuras e ser considerado louco era o pior que podia acontecer a alguém. No meio da narrativa, o leitor também se depara com a prostituta polaca, uma criança de 13 anos e o desespero dela se torna o nosso.

Devido ao desespero de Gálvez que não estava satisfeito com a resistência de Juan Ramón em assumir seu amor, Georgina é criada por diversos homens diferentes. Rodríguez, o bacharel, Gálvez e os boêmios do clube vão moldando aos poucos a personalidade dessa mulher sem rosto. Me peguei por muito tempo refletindo sobre a construção de Georgina e o papel social da mulher. Quantas de nós sentimos que têm homens demais dando pitacos em nossa vida? Homens demais pensando que deveríamos ser mais simpáticas, mais carinhosas, mais aventureiras, mais recatadas, mas desinibidas... Homens demais achando que nossos corpos estão à disposição quando saímos nas ruas e que estamos dispostas a escutar suas opiniões sobre nossos corpos e comportamento. Quantos homens e suas opressões machistas formam uma mulher?

Por fim, O Céu de Lima é um livro sobre todos os sonhos que nunca iremos realizar e como romantizamos memórias que nunca chegaram perto do que lembramos. Senti uma tristeza muito forte ao ler as últimas frases. O mesmo que sinto todas as vezes que chego perto demais daquilo que está para se tornar um clássico de um tempo.