terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A terrível história de Mariazinha

Cansada de dormir, levanta-se quando o sol já está farto de trabalhar e iluminar todos os cantos sujos da cidade que nunca para. Com a sua graça de menina esperta, e preguiçosa, se desfaz das roupas com a mesma facilidade que manda seus amores embora. Não se penteia, não se encara, não se atormenta. Sua comida é industrializada, seu sorriso pacato e seus olhos distantes. Na rua não cumprimenta. Atrás de seus óculos wayfarer é uma pedra intocada. Não desperta simpatia e, muito menos, alimenta esperança por alguém. Cada semana arruma um amor pra sua vida diferente e, se dois caras legais aparecerem ao mesmo tempo, sem dúvidas ficará com os dois. Apenas dois, é claro, porque ainda lhe restam princípios. Sendo assim, opta sempre por números ímpares, aprendeu duramente que na vida todos estão sozinhos, sempre alguém sobra. Mas, quando acorda, no fundo do seu desprezo e desacato a qualquer autoridade, sabe-se que se esconde uma alma. E um desejo leviano de melhorar. E se importar. Tira fotos imaginárias com a câmera que não pode comprar, leva a mão à boca e sorri, escondida, quando vê um bebê. "Miniaturas de gente que acham que têm o direito de existir por aí". Não é nenhuma mentira que os momentos de comoção costumam ter a duração de 5 segundos, nada além. Carrega consigo o mistério da mulher moderna, cresceu tentando mesclar as obrigações da sociedade que integra com os seus sonhos (ambos tão diferentes). E por ter se entregado tanto e sofrido o dobro, hoje Mariazinha não dá a mínima, literalmente. Deixa o telefone tocar, a casa por arrumar e as unhas mal feitas. Se perdeu em um universo de anos atrás, entrou por um caminho que ninguém pode encontrar. E, acredite, isso não é estar bem.



Natália Assarito

Um comentário:

  1. Apesar de todo o texto estar submerso em sentimentos, os quais facilmente afastariam um menino de exatas, segui a leitura até o fim
    Isso porque você conseguiu me prender no texto de um assunto que eu não gosto, e eu apreciei enquanto durou.

    Direto ao assunto, adorei o modo como foi escrito, e o título me chamou atenção, porque adoro crônicas, beijos, Pedrão.

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