quarta-feira, 7 de março de 2012

O jogo

Olho pra mesa estrategicamente bem posicionada, com a sua camisa encaixada na cadeira. Sorrio sabendo que o único dia que vejo minha casa arrumada é quando você passa aqui. Como se até meu cachorro soubesse das suas manias e latisse mais baixo, pra não incomodar o seu sono e tranquilidade original. E depois do beijo de despedida, deixo a louça na pia pelos próximos três ou quatro dias, esperando que o seu efeito saia de mim. Porque quando você está ao meu lado a cidade para e não há o mínimo problema em agir como uma mulher normal. E se arrumar, preparar o jantar e cuidar. Eu fico pensando em por quanto tempo você ainda será o meu ponto de paz. E durante quantos segundos eu não vou me importar em caminhar baixinho pra cozinha e organizar minha bagunça, pra você encontrar tudo certinho quando acordar. Sinto uma pontinha de necessidade de te pedir desculpas, porque sei que em um mês estarei gritando que a casa é minha e que se eu gosto do chinelo no meio da sala, ele fica. Desculpa, a minha vontade de me fazer perfeita passa e os defeitos gritam. E o meu desejo de viver o nosso conto de fadas também vai embora. E eu vou te dizer que não gosto de rosas, que o seu cabelo é feio e que o seu cheiro de perfume importado e suor é horrível. Então, não sei porque eu entro nessa de me maquiar, arrumar os móveis e esperar você chegar. Talvez, no final de tudo, tente te espantar. Talvez não, eu vou te mandar embora e implorar baixinho pra que você não me deixe. Porque eu tenho medo do escuro, de café, de fazer refeições sozinha e de matar minhas próprias baratas. Não é convincente, mas o mal do século é a solidão. Parece loucura, mas sempre fui daquelas que quando ama alguma mania em alguém, quer nela também. Mesmo sabendo que eu sempre perco.
Natália Assarito

terça-feira, 6 de março de 2012

Contramão

Eu sei, sempre percorro os caminhos contrários. E por mais que o Drummond tente me alertar sobre as pedras que neles se encontram, não aprendo. Não tento contornar, não desvio. Eu, dentro da minha confusão experimental, preciso do drama. É uma necessidade analisar e temer cada centímetro da pedra, ainda que seja um pedregulho. Porque, apesar do meu tamanho, durante todo tempo eu me sinto menor que o resto do mundo. Viver em uma cidade em que os prédios são imensos e as relações de amor entre as pessoas são minúsculas atinge estratosfericamente almas que contenham o mínimo de poesia. E eu sou poesia pura. Então passo grande parte do meu tempo aparentando ser forte e, no íntimo, torcendo pra encontrar alguém que me dê guarda e colo. As avenidas são tão vazias, lotadas com seus carros e transeuntes. E você soltou a minha mão e eu senti que a minha segurança foi pro ralo. Não ter você ao meu lado foi ter a certeza de que eu era apenas mais uma. Me assusta tanto ser banal. Sinto sua falta mesmo com o seu corpo e o seu cheiro de perfume importado e suor a trinta centímetros do meu. Entre todos os lugares horríveis que eu poderia estar, aquele no qual os seus dedos não estão entrelaçados nos meus sempre será o pior. Por favor, fica.

Natália Assarito

Jardim Botânico de São Paulo













segunda-feira, 5 de março de 2012

domingo, 4 de março de 2012

Tati Bernardi

Escrevo isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te vejo e me pergunto como é que fiquei todos esses anos sem te ver. Porque você me entedia e dai eu desvio o rosto um segundo e já não aguento de saudade. E descubro que não é tédio mas sim cansaço porque amar é uma maratona no sol e sem água.

Sobre tudo que eu preciso falar

Eu teria um texto incrível pra escrever, mas são 4:08h da manhã, preciso digitar baixinho pra não acordar meus pais e, além disso, pouco tempo atrás tomei muita caipirinha de morango. Não sei qual o motivo de tanta confusão e porque insisto em pecar tanto na intensidade. Talvez a razão de todo esse barulho seja uma tentativa desesperada de curar o silêncio dentro de mim. Ele machuca. E eu acabo sentindo falta dos amigos que eu não consegui manter e da reputação que eu nunca estabeleci. Nietzsche dizia sobre a necessidade do caos para originar a estrela dançarina. Mas nada acontece. E eu canso de viver no meio desse turbilhão de sentimentos- denominados minha alma, temperamento, qualquer outra besteira. Pode ser melhor do que nada, contudo permaneço considerando triste deitar com o pensamento que se tudo der errado, eu sobrevivo. Porque eu sobrevivo mesmo, carregando um custo pesado.

Natália Assarito