terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"mas eu tô sempre com você"

Napoleão pra sempre em mim


Minha primeira tatuagem foi uma homenagem ao melhor amigo que eu já tive (e provavelmente vou ter) na vida. Essa foi a forma que eu encontrei de contar pros meus filhos, netos e amigos nossa história que durou tão pouco.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bixete UFSCar

Enfim, bixete. Aqui é Federal! <3

domingo, 19 de janeiro de 2014

Como Se Não Houvesse Amanhã - o livro


Quando eu vi esse livro na BSP eu fiquei louca! Na verdade eu nem sabia do que se tratava, eu estava alugando outro livro e um moço parou do meu lado pra devolver esse. E, sério, pra mim o livro podia ensinar como lavar os pés da sua avó, mas só por ter esse título deveria ser lido. Eu sou pirada por Legião Urbana desde que eu me entendo por gente, foi amor à primeira vista e não vou ser hipócrita de dizer "ah, gostei de cara porque eu me identificava com as músicas", quando se tem 8 anos você não se identifica com músicas como as do Legião, mas eu lembro que eu ouvia e falava pra minha mãe como aquele moço das músicas dizia palavras bonitas. E gostando de poesia você já nasce, não adianta. Mas, enfim, eu cresci e Legião Urbana dizia tudo o que a minha alma sentia, traduzia minhas emoções mais íntimas. Li a biografia do Renato Russo e tudo que podia ser lido sobre ele, sinto meio que uma identificação de alma com ele, sei lá, nós pensávamos muito parecido na nossa adolescência. Renato e o Legião são muito do que eu sou e do que eu penso. Eles são meus ídolos e gênios.
Enfim, voltando ao livro, a proposta era bem simples: Henrique Rodrigues convidou autores fãs da banda para escreverem crônicas inspirados nas suas músicas favoritas do Legião Urbana. Juntou as 20 melhores e publicou o livro. Eu sou MUITO exigente quando o assunto é Legião, muito mesmo. O Renato dizia que nós somos a Legião, então pra você ser parte disso e fazer uma homenagem, tem que ser à altura da banda, precisa merecer. E nesse ponto eu fiquei decepcionada, as crônicas são boas, mas tem muitos temas repetidos (são 8 contos cujo tema central é separação e divórcio, fora outros que têm isso no meio, mas não é o assunto principal). Ficou maçante.

Meus contos favoritos:


Será - A protagonista é uma menina, ainda criança, que não se adapta muito bem ao perfil que esperam que ela tenha. Na escola ela tem aula de costura, mas prefere ficar escondida na biblioteca até a hora do recreio, quando pode fugir de vez da escola. Depois de fugir da escola ela costuma visitar uma amiga alguns anos mais velha, já adolescente. Essa sua amiga tem os anseios e desejos normais da idade, mas é severamente reprimida pela mãe. A história brinca entre o papel da mulher na sociedade e a busca pela liberdade.

Tempo Perdido - Esse conto trata sobre o período da ditadura militar. A protagonista era uma militante ativa, importante e extremamente perseguida. Vivia um amor muito forte, com um homem que lutava ao seu lado. Um dia a casa que lhes servia de esconderijo foi descoberta pelos militares. Ela fugiu, ele foi pego e nunca mais apareceu. Detalhe: ela nos conta sua história nos dias atuais, relembrando o seu passado, consequentemente, durante a narrativa aparece toda a culpa que ela carrega por ter vivido todos esses anos, reconstruído sua vida, se casado, tido filhos, enquanto ele foi morto e dado por esquecido. O amor deles nunca vai acabar, porque foi interrompido da maneira mais cruel possível (esse é meu conto preferido, disparado).

Giz- Esse é um dos infinitos contos sobre separação, mas eu gostei porque ele tem um fiozinho de esperança. Também fala sobre o vazio, como todas as coisas acabam e como a gente se sente perdido com isso, mas é o único em que o protagonista quer desesperadamente a mulher de volta e faz alguma coisa pra ela voltar. Os outros são basicamente assim "tudo na vida acaba, é triste, mas é inevitável", nesse é "desgastou, a gente não soube lidar com isso, mas eu te amo e eu preciso de você na minha vida". E eu acredito nisso, em amar uma pessoa, querer ficar com ela apesar das dificuldades. Na verdade eu queria que as pessoas acreditassem também.



Os que eu não gostei:



Eduardo e Mônica - Eu criei a maior expectativa do mundo pra esse conto, obviamente, mas quando eu vou ler a história trata do DIVÓRCIO do Eduardo e Mônica. PQP, como assim? Eu odiei, odiei MESMO, odiei muito. Tudo bem todas os outros contos falarem de divórcio, eu mais do que ninguém entendo como é difícil fazer uma relação ficar viva com o passar do tempo, eu sei que se não houver muita força o divórcio é inevitável, mas é o Eduardo e a Mônica, o casal perfeito, o casal inspirador, o casal utópico. O Eduardo e a Mônica nunca se divorciariam porque eles são o exemplo de amor e companheirismo, todo mundo sonha com um amor como o do Eduardo e da Mônica. E não tem como ser assim, eu sei, por isso existem divórcios, porque nós não somos como Eduardo e Mônica. 


Monte Castelo - Vou ser o mais sincera possível: eu não gosto dessa música. Acho chata demais. Eu sei a letra de cor, eu consigo entender a intenção do Renato, mas, no fim, pra mim é tudo chato.






O livro custa em média R$35, mas ele está disponível em algumas bibliotecas - de graça é muito melhor, né? A minha conclusão é que apesar de não atender minhas expectativas, todo mundo que é fã do Legião deveria ler. Os contos estão distribuídos de acordo com as ordens das músicas nos CDs, o que é muito bonitinho e, além disso, eu acho muito bacana ver as impressões que pessoas diferentes podem ter com as mesmas músicas que nós gostamos tanto. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sonhos calados


                "Me chamem de N. Prefiro me identificar assim, um vazio na rede, uma proteção, ainda que imaginária, eu sei, contra os censores do governo. Falando sobre o governo, eu sempre desconfiei que um dia ele chegaria. Massacrando. Proibindo. Não sei se eu tenho medo. Todos esses anos de vantagem me trouxeram alguns artifícios, me ensinaram a sumir quando necessário, desaparecer na rede. Além disso, tenho a certeza que a principal tentativa de me destruir não obteve sucesso, afinal ainda estou aqui.
                Eu tinha dezesseis anos e uma única coisa que me segurava nesse mundo: minha escrita. Diários e mais diários, que se iniciaram sem querer, quando eu tinha 3 anos e encontrei uma agenda velha da minha mãe.  Por ainda não saber escrever, desenhava e tentava esquematizar meus dias e meus desejos. Meus textos davam voz ao que a minha timidez não conseguia dizer e, diretamente, me conduziriam ao que eu sou hoje. Dezesseis anos e nenhuma experiência com garotos.
     Ele apareceu. De longe, quieto, sem falar nada.
                Apareceu e sumiu, sem deixar rastros no mundo. Eu tive outro namorado. Um desastre. Às vezes me questiono se ele também fazia parte do plano, uma vez que tudo deu errado magistralmente. Quando tudo terminou com o outro e eu não sabia se me apegava ou largava, aquela dúvida adolescente comum, ele ressurgiu. De longe, outra vez. Nas redes sociais, na verdade – acho que naquela época era o Facebook que estava na moda, não me recordo. Postou fotos de lugares bonitos, sorridente, me fez ter vontade de estar ao seu lado.
            Quando nós finalmente nos conhecemos e conversamos, totalmente por acaso, não nos desgrudamos mais. Nossa sintonia era imensa. Gostávamos das mesmas comidas, lugares, programas de tv, livros. Aquele garoto parecia programado pra mim – e quem diria, era mesmo. Quase dois anos de namoro. Mesmo sabendo que tudo não passava de uma ilusão, foram os melhores anos da minha vida. Ser livre para escolher com quem se relacionar era o melhor que existia no nosso passado. Ter a oportunidade de errar e viver cada consequência até o fim. Pode te parecer sofrível, mas liberdade é ter o direito de sofrer também.
                Nesses dois anos, sem reparar, eu nunca mais escrevi. Uma frase sequer. Ele me bastava e pensar no futuro lindo que nós teríamos era tudo o que me preocupava. Acho que não escrevia por não ter nada para questionar, eu era feliz. Fim. Nunca mais mexi nos meus diários ou procurei qualquer forma de extravasar minha inquietude natural. Na realidade, eu nem era mais inquieta.
                A reviravolta ocorreu no Natal, eu tinha 20 anos. Ele já não era mais o mesmo, dizia não me amar mais. Eu estava destruída, meus sonhos haviam ido embora, todos ao mesmo tempo, ao som da mesma palavra. “Acabou”. Acabou como se nunca tivesse acontecido. Ele simplesmente desapareceu, sem deixar pegadas. Eu ainda sentia o cheiro dele e o via em todos os lugares, mas ele não estava mais lá. Algo me dizia que mesmo tendo ido e me deixado naquele estado, mesmo eu não o vendo mais, existia entre nós um elo verdadeiro. E, no Natal, eu recebi um pacote de alguém que eu não conhecia. Aquele pacote mudou a minha vida.
                Dentro do pacote estava meu primeiro diário, aquele de quando eu tinha 3 anos. “Como alguém que eu nem conheço me enviou algo meu? Até ontem esse diário estava guardado na terceira gaveta do meu armário, junto com todos os outros, tenho certeza!”. Eu não conseguia distinguir o que estava acontecendo. Junto com o diário tinham algumas folhas de resumo de biologia, escritas por mim também. Nada daquilo fazia sentido. Minha primeira reação foi abrir a gaveta e, obviamente, todos os diários e cadernos haviam sumido. Procurei pelas folhas avulsas que também continham textos meus, feitas em algum local inesperado, às pressas. Elas também tinham desaparecido.
                Não conseguia imaginar porque minha história, meus escritos tão arcaicos, aquilo que eu nunca tinha mostrado por vergonha, podia interessar para alguém a ponto de roubá-los. “Será que foi mesmo um roubo?” ecoava na minha cabeça. Eu procurei por algum recado dentro do diário que me foi enviado, sabia que aquilo era o sinal de algo, que eu devia entender. Era impossível, não havia nada que não houvesse sido escrito ou desenhado por mim. Nenhum vestígio que me levasse a uma esperança de descobrir a verdade.
                Seis meses se passaram. Eu já havia desistido de tentar entender o que significava aquele presente de Natal. Ele nunca mais tinha aparecido. Eu seguia com a minha vida vazia. Em uma noite comum, sonhei com o meu avô que morreu quando eu tinha 15 anos. Nós conversávamos e em certa altura do nosso diálogo, ele me disse que para descobrir enigmas tínhamos que criar sentidos novos. Do momento em que abri meus olhos até o fim do dia não fiz mais nada além de remexer naquele diário velho e no meu resumo. Inventei. Depois de mais de 12 horas descobri que a primeira letra de cada palavra se encaixava com a última.
                Era uma carta dele. Um único parágrafo que me fez acreditar que ele realmente havia enlouquecido. E que também queria me enlouquecer. Ele me dizia sobre um futuro sombrio, onde nossas atitudes e pensamentos seriam vigiados. Todos seguiriam um padrão, menos o governo. Governo do qual ele fazia parte e havia sido enviado para o passado, visando conter ainda na adolescência, a mulher que se tornaria a porta voz da oposição ao governo: eu. Seu objetivo era bem simples: me fazer parar de escrever. Me calar quando fosse mais fácil. E depois roubar minha história, não deixar provas do que eu podia ter sido. Disse que o futuro seria difícil e não estava tão longe. Me pediu pra ser forte e não desistir. Precisavam de mim.
                Toda aquela história me pareceu ridícula. Ele além de me deixar, não teve consideração nenhuma. Quando temos 20 anos não acreditamos mais em histórias surreais.  Eu nunca mais escrevi, até hoje. Tive medo de me pronunciar nos primeiros anos após o golpe. Era vigiada o tempo todo, de muito perto. Precisava mostrar que eu sou confiável, uma cidadã exemplar.
Me sinto segura agora e resolvi contar a minha história. Muitos de vocês não vão acreditar, assim como eu só acreditei no dia do golpe. Lamento pelas consequências que ele pode vir a sofrer. A verdade é maior e ela precisa ser dita. Doa a quem doer. Sempre."


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

.subentendido

            De todos os meus imensos questionamentos, ultimamente tenho pensado muito se você ainda merece mais um texto meu. Eu não sei o que isso significa, mas escrever sempre me ajudou a seguir em frente. Enfrentar. De uns tempos pra cá eu nunca mais escrevi sobre você, nem sobre mim. Não era um bloqueio criativo, minha analista insiste em dizer que eu tenho medo de viver. E eu tinha mesmo, medo de sair na rua, medo de fazer amigos, medo de você me deixar sozinha afundada nas minhas inseguranças. Sozinha, sempre sozinha.
Você conseguiu construir uma vida bonita além de mim. Trabalho, faculdade, amigos. Eu me anulei na minha depressão. Dormi semanas inteiras, não fiz nada além de chorar e querer morrer. A única paz que eu podia sentir era quando eu saía de casa e te encontrava. Olhando dessa forma, eu também não ia querer alguém assim do meu lado. E você me deixou pra valer, sem saber o que fazer e nem do que eu gostava quando não estava com você. E eu confesso que eu não gosto mesmo de nada quando você não está por perto. Ainda. Porque só você nesse mundo tem a capacidade de fazer eu não me sentir tão louca e indesejável.
O que importa é que a partir do momento em que você foi embora não tive mais medo. Eu fui obrigada a levantar da cama e lutar por mim todos os dias, reaprendi meus objetivos.  Não me atormento mais se amanhã você vai resolver pegar tudo o que você deixou dentro de mim e ir embora, seguindo com as suas dúvidas infundadas. Às vezes eu acho que você tem mais medo de viver do que eu. Mas se você quer ir, pode ir.  Porque você volta. Eu te desejei olhando no muro da escola e você veio, transformando todas as ideias que um dia eu tive sobre a vida. Você, sempre tão sério, sempre tão certo, tentando me colocar de volta no chão. Eu, sempre tão louca, sempre tão irreal, tentando te ensinar a voar. Você me pedia pra ter calma e pensar antes de falar. Eu te chamava pra deitar no chão do quarto e esperar os minutos passarem. Eu, você, nossas mentes. Sempre juntos, sempre um pelo outro.

Ao contrário do que todos pensam, eu não tenho muitas certezas na vida, aliás, eu nunca sei quase nada. Mas eu sei que quantas vezes você for, você vai voltar. Nossas linhas tortas e inseguras escrevem nossas histórias e elas sempre se entrelaçam. Eu já tive provas suficientes que eu ainda vou bagunçar muito a sua vida, te tirar do eixo muitas vezes. E eu sinto que você, por sorte ou azar, tantas e tantas vezes vai implicar comigo por comer na sua cama e encher sua casa de cabelos. Me desculpa, são nossos vícios de nos sentir sempre tão incompletos um sem o outro. Eu não dependo mais de você, eu provei pra mim mesma que consigo viver todos os dias sem você e cuidar de mim. Mas, por mais estranho que isso pareça, minha intuição ainda grita todos os dias, quando eu acordo, que vai continuar sendo você a seguir comigo, por muito tempo. 

sábado, 11 de janeiro de 2014

Quando Ia Me Esquecendo de Você



Romance de estreia de Maria Silvia Camargo, Quando Ia Me Esquecendo de Você trata dos encontros, desencontros e reencontros de duas amigas ao longo de suas vidas.
Carla e Ana dialogam seus opostos durante toda trama. Carla sempre contida e amedrontada. Ana, uma mulher forte e decidida.
A história começa quando Carla, com quase 50 anos, mãe de um menino de 10 anos e um recém nascido, vivendo uma crise no casamento, recebe quase 300 diários escritos por Ana. Em meio a esses diários, Carla relembra sua vida e repensa suas escolhas com o passar dos anos.




Esse foi meu primeiro livro do ano, terminei no dia 3, li em dois dias. Me interessei porque estava procurando autores novos e esse ficou entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura (e porque entre os finalistas que estavam na prateleira da BSP, era o único que tinha capa dura. Ok, confesso, eu sou a maníaca da capa dura, mas quem não ama capa dura, né?).
O enredo é leve, a história envolvente, escrita simples. Um romance com linearidade, o que me estranhou, depois de um ano lendo Machado de Assis e Almeida Garrett.
Indico para quem quer se distrair um pouco, sem muita profundidade. A história é gostosa, o livro perfeito pra um fim de tarde - a leitura dele é realmente muito rápida, não li em menos tempo porque tava na loucura da Fuvest.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Caio Fernando Abreu

Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva boias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho é que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.

Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

.inércia

         Tem mais ou menos um ano que eu não escrevo absolutamente nada além de dissertações sobre o altruísmo do povo brasileiro ou o papel do idoso na sociedade brasileira.  Mesmo. Mas nem por isso eu posso dizer que me dediquei totalmente a isso e que cumpri meu dever de passar na Fuvest ou em qualquer universidade, qualquer lugar que me tire dessa casa que faz a cada dia mais eu me sentir uma cômoda quebrada esquecida em um canto, que nunca vai sair daqui.
         Em menos de 20 dias eu vou fazer 20 anos. 20 anos sem nunca ter saído de São Paulo. Não, nem pra Paraty. O mais longe que eu cheguei de São Paulo foi Ilha Bela, em 2008, mas Ilha Bela continua em São Paulo, de qualquer jeito. No ano passado, o lugar mais longe que eu fui foi o Morumbi. Eu leio tudo o que eu já escrevi, vejo meus sonhos anotados e só consigo pensar em “Onde eu fui parar?”.
Dormi 2013 inteiro, não é um exagero. 85% do tempo eu não tive vontade de levantar da cama. Eu não fui ao cursinho, o que não é de todo mal, porque eu odiava aquele lugar, eu perdi os meus amigos, perdi meu namorado, não li nenhum livro que me interessava. Eu desisti de fazer jornalismo. Meu cachorro morreu. Eu olho pra trás e não consigo nem ver a sombra de quem eu fui um dia.

         Quando eu achei que tudo melhoraria, que eu finalmente tinha vencido Saturno e teria a paz de Júpiter, não posso mais ter certezas. São notícias ruins recorrentes, não sei se vida adulta é ver tudo o que você ama morrer aos poucos, não sei se eu consigo me acostumar com isso.