quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sonhos calados


                "Me chamem de N. Prefiro me identificar assim, um vazio na rede, uma proteção, ainda que imaginária, eu sei, contra os censores do governo. Falando sobre o governo, eu sempre desconfiei que um dia ele chegaria. Massacrando. Proibindo. Não sei se eu tenho medo. Todos esses anos de vantagem me trouxeram alguns artifícios, me ensinaram a sumir quando necessário, desaparecer na rede. Além disso, tenho a certeza que a principal tentativa de me destruir não obteve sucesso, afinal ainda estou aqui.
                Eu tinha dezesseis anos e uma única coisa que me segurava nesse mundo: minha escrita. Diários e mais diários, que se iniciaram sem querer, quando eu tinha 3 anos e encontrei uma agenda velha da minha mãe.  Por ainda não saber escrever, desenhava e tentava esquematizar meus dias e meus desejos. Meus textos davam voz ao que a minha timidez não conseguia dizer e, diretamente, me conduziriam ao que eu sou hoje. Dezesseis anos e nenhuma experiência com garotos.
     Ele apareceu. De longe, quieto, sem falar nada.
                Apareceu e sumiu, sem deixar rastros no mundo. Eu tive outro namorado. Um desastre. Às vezes me questiono se ele também fazia parte do plano, uma vez que tudo deu errado magistralmente. Quando tudo terminou com o outro e eu não sabia se me apegava ou largava, aquela dúvida adolescente comum, ele ressurgiu. De longe, outra vez. Nas redes sociais, na verdade – acho que naquela época era o Facebook que estava na moda, não me recordo. Postou fotos de lugares bonitos, sorridente, me fez ter vontade de estar ao seu lado.
            Quando nós finalmente nos conhecemos e conversamos, totalmente por acaso, não nos desgrudamos mais. Nossa sintonia era imensa. Gostávamos das mesmas comidas, lugares, programas de tv, livros. Aquele garoto parecia programado pra mim – e quem diria, era mesmo. Quase dois anos de namoro. Mesmo sabendo que tudo não passava de uma ilusão, foram os melhores anos da minha vida. Ser livre para escolher com quem se relacionar era o melhor que existia no nosso passado. Ter a oportunidade de errar e viver cada consequência até o fim. Pode te parecer sofrível, mas liberdade é ter o direito de sofrer também.
                Nesses dois anos, sem reparar, eu nunca mais escrevi. Uma frase sequer. Ele me bastava e pensar no futuro lindo que nós teríamos era tudo o que me preocupava. Acho que não escrevia por não ter nada para questionar, eu era feliz. Fim. Nunca mais mexi nos meus diários ou procurei qualquer forma de extravasar minha inquietude natural. Na realidade, eu nem era mais inquieta.
                A reviravolta ocorreu no Natal, eu tinha 20 anos. Ele já não era mais o mesmo, dizia não me amar mais. Eu estava destruída, meus sonhos haviam ido embora, todos ao mesmo tempo, ao som da mesma palavra. “Acabou”. Acabou como se nunca tivesse acontecido. Ele simplesmente desapareceu, sem deixar pegadas. Eu ainda sentia o cheiro dele e o via em todos os lugares, mas ele não estava mais lá. Algo me dizia que mesmo tendo ido e me deixado naquele estado, mesmo eu não o vendo mais, existia entre nós um elo verdadeiro. E, no Natal, eu recebi um pacote de alguém que eu não conhecia. Aquele pacote mudou a minha vida.
                Dentro do pacote estava meu primeiro diário, aquele de quando eu tinha 3 anos. “Como alguém que eu nem conheço me enviou algo meu? Até ontem esse diário estava guardado na terceira gaveta do meu armário, junto com todos os outros, tenho certeza!”. Eu não conseguia distinguir o que estava acontecendo. Junto com o diário tinham algumas folhas de resumo de biologia, escritas por mim também. Nada daquilo fazia sentido. Minha primeira reação foi abrir a gaveta e, obviamente, todos os diários e cadernos haviam sumido. Procurei pelas folhas avulsas que também continham textos meus, feitas em algum local inesperado, às pressas. Elas também tinham desaparecido.
                Não conseguia imaginar porque minha história, meus escritos tão arcaicos, aquilo que eu nunca tinha mostrado por vergonha, podia interessar para alguém a ponto de roubá-los. “Será que foi mesmo um roubo?” ecoava na minha cabeça. Eu procurei por algum recado dentro do diário que me foi enviado, sabia que aquilo era o sinal de algo, que eu devia entender. Era impossível, não havia nada que não houvesse sido escrito ou desenhado por mim. Nenhum vestígio que me levasse a uma esperança de descobrir a verdade.
                Seis meses se passaram. Eu já havia desistido de tentar entender o que significava aquele presente de Natal. Ele nunca mais tinha aparecido. Eu seguia com a minha vida vazia. Em uma noite comum, sonhei com o meu avô que morreu quando eu tinha 15 anos. Nós conversávamos e em certa altura do nosso diálogo, ele me disse que para descobrir enigmas tínhamos que criar sentidos novos. Do momento em que abri meus olhos até o fim do dia não fiz mais nada além de remexer naquele diário velho e no meu resumo. Inventei. Depois de mais de 12 horas descobri que a primeira letra de cada palavra se encaixava com a última.
                Era uma carta dele. Um único parágrafo que me fez acreditar que ele realmente havia enlouquecido. E que também queria me enlouquecer. Ele me dizia sobre um futuro sombrio, onde nossas atitudes e pensamentos seriam vigiados. Todos seguiriam um padrão, menos o governo. Governo do qual ele fazia parte e havia sido enviado para o passado, visando conter ainda na adolescência, a mulher que se tornaria a porta voz da oposição ao governo: eu. Seu objetivo era bem simples: me fazer parar de escrever. Me calar quando fosse mais fácil. E depois roubar minha história, não deixar provas do que eu podia ter sido. Disse que o futuro seria difícil e não estava tão longe. Me pediu pra ser forte e não desistir. Precisavam de mim.
                Toda aquela história me pareceu ridícula. Ele além de me deixar, não teve consideração nenhuma. Quando temos 20 anos não acreditamos mais em histórias surreais.  Eu nunca mais escrevi, até hoje. Tive medo de me pronunciar nos primeiros anos após o golpe. Era vigiada o tempo todo, de muito perto. Precisava mostrar que eu sou confiável, uma cidadã exemplar.
Me sinto segura agora e resolvi contar a minha história. Muitos de vocês não vão acreditar, assim como eu só acreditei no dia do golpe. Lamento pelas consequências que ele pode vir a sofrer. A verdade é maior e ela precisa ser dita. Doa a quem doer. Sempre."


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