segunda-feira, 3 de março de 2014

Dona Flor, Seus Dois Maridos e o Feminismo

Há 15 dias terminei de ler Dona Flor e Seus Dois Maridos, obra de Jorge Amado, famosa por filmes e séries da Rede Globo. Existe uma corrente forte de críticos formados na USP que consideram a existência de duas fases nítidas da literatura do autor: uma de cunho social e político, na qual se encaixaria, por exemplo, Capitães da Areia, e outra, “comercial”, sugerindo que os livros que ali estão não tenham grande valor intelectual, servindo apenas para entreter o grande público –o que faz certo sentido, quando observamos que muitos desses romances ganharam adaptações para a TV e cinema, como Gabriela, Dona Flor e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água. Entretanto, observei que Dona Flor e Seus Dois Maridos, apesar de muito divertido, carrega uma mensagem muito forte sobre a necessidade da libertação feminina.
            Sob a óptica da década de 60, Dona Flor é uma mulher muito à frente do seu tempo e, consequentemente, sofre com seus dilemas internos, tendo que, a todo o momento, decidir entre o que deseja e o que a sociedade baiana formularia como correto. Casada com Vadinho, consideravam-na desafortunada por ter um marido viciado em jogos, cheio de amantes e que, ainda por cima, não sustentava a casa, obrigando-a a trabalhar arduamente em sua escola de culinária –o que ninguém sabia, e nem poderia saber, era que ela era uma mulher plenamente satisfeita sexualmente com o seu primeiro marido. Quando Vadinho morre, Dona Flor se desespera e chega a ter noites insones, pura saudade de “vadiar” –como o finado gostava de falar. Esse desespero leva nossa protagonista a procurar outro marido, Teodoro, o oposto completo do defunto. Trabalhador, respeitoso, educado, formado, sócio da farmácia mais importante da região. Para as vizinhas e amigas, não havia mais nada que uma mulher pudesse pedir a Deus. Contudo, Dona Flor queria mais: continuou trabalhando, apesar dos protestos do marido, e, mesmo amando Teodoro, se cansou do sexo água com açúcar que o segundo marido lhe oferecia e, por isso, “ressuscitou” Vadinho, terminando sua saga casada com os dois, ao mesmo tempo.
            Jorge Amado tentou mostrar para a sociedade de 1960 que mulher gosta de ter seu dinheiro, gosta de ser independente e, principalmente, gosta de sexo. O que me intriga nisso tudo é que 50 anos depois muitos ainda não conseguiram entender isso. Mulher gosta de sexo. Mulher que gosta de sexo não é vagabunda, piriguete, puta, vadia, ou qualquer variação. Mulher que gosta de sexo é só uma mulher saudável que gosta de sexo. E sim, mulher que gosta de sexo é boa mãe, amiga, namorada, esposa.
            Eu não encontrava necessidade em adotar uma postura um pouco inclinada para o feminismo, porque não entendia os detalhes sutis da nossa sociedade e não acreditava nos crimes contra mulheres. Sempre tive a impressão que as tais atrocidades cometidas em nome do machismo eram casos isolados, bem distantes, oriundas de indivíduos doentes. Até que aconteceu com uma pessoa próxima. A história foi bem comum: se conheceram, se gostaram, ele começou a ter ciúmes excessivo, queria pagar todas as contas da casa, desconfiava o tempo todo, quando, num belo dia, viu uma foto antiga que não gostou e a espancou. Na frente de sua filha, a ponto da moça precisar ir ao hospital e ficar com cicatrizes imensas.
            Quantas vezes isso já aconteceu? Quantas crianças cresceram com o dano psicológico de ver sua mãe apanhar do parceiro? Você pode até pensar que ele é louco (e é mesmo), mas temos muitos casos de pessoas “normais” que cometem essas barbaridades. No BBB mesmo, nessa edição, um participante disse que tinha uma namorada que falava demais e teve que resolver esse problema “na porrada” –e, por algum motivo, a Globo abafou a história. Acreditem, durante sua participação inteira no programa ele nunca demonstrou ser louco ou doente.
 O machismo está tão incumbido na nossa sociedade que na maioria das vezes não nos damos conta. Ninguém é obrigada a ouvir que seu namorado só te procura pra sexo, ou que sofreu qualquer tipo de abuso na rua porque sua roupa era inapropriada. A proposta de mulher moderna, que trabalha, cuida da casa, dos filhos e tem tempo para ser linda e cheirosa é machista. Ter medo de sair na rua a noite também é uma consequência direta do patriarcado.

Por ter o poder de ser considerado verdade absoluta, com seus dogmas sutilmente ensinados desde que nascemos, fica cada vez mais difícil combater o machismo. Você pode se maquiar, pode usar decote, minissaia, salto alto e deve impor que isso é vontade sua, para você mesma, sem o intuito de atrair todos os homens que passam. E, principalmente, antes de qualquer um, você mesma deve aceitar sua sexualidade. Ter coragem de Dona Flor, ir além. Rezo para que a cada dia fiquemos mais próximas de sermos livres. Donas de nós mesmas.

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