terça-feira, 15 de abril de 2014

Medianeras + Ela

Hoje eu vou falar de dois filmes que tratam de maneira distinta sobre o avanço da tecnologia e suas consequências para as relações amorosas. O primeiro filme é o não tão famoso Medianeras, de Gustavo Taretto, e o segundo é o ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original, Ela, de Spike Jonze.      

Medianeras


Medianeras é um filme que me surpreendeu bastante. Comecei a estudar espanhol esse ano, então estava no Netflix procurando filmes nessa língua, para me acostumar com o idioma, assim como fazemos com inglês. Não dei absolutamente nada por esse filme, aliás, no Netflix estava escrito algo como “relações amorosas modernas na era da internet”. Eu pensei “ok, deve ser alguma coisa parecida com Ela”.  Nada que chamasse muito minha atenção. Na verdade, o tema é bem parecido, mas Medianeras surgiu como uma dose de amor em um domingo gelado. Nunca tinha tido contato com cinema argentino e posso dizer que a minha primeira impressão foi muito boa.
            Martin e Mariana vivem em prédios vizinhos, um de frente para o outro, mas nunca se viram. Ambos têm suas fobias, manias e aversões sociais adquiridas com o fim de seus relacionamentos e com a vida corrida e assustadora que levamos. Martin trabalha construindo sites e passa 90% do seu tempo na internet, fazendo tudo o que é possível por lá. Mariana é formada em arquitetura, mas nunca construiu nenhum projeto, tornando-se vitrinista. Martin só anda a pé e carrega uma mochila de 5,7kg toda vez que sai de casa. Mariana não usa elevador. Martin tem uma cachorra com medo de contato social. Mariana gosta de “procurar Wally”. Os dois são muito parecidos, personagens complementares, que têm absolutamente tudo a ver com o outro. Suas angústias, medos, carências e problemas poderiam ser resolvidos ao se encontrarem, mas isso demora muito pra acontecer.
            O filme nos expõe, mostrando que todos temos nossas neuroses e fobias, medos bobos, que nos atingem demais. Além disso, nos dá uma aula rápida e eficiente sobre arquitetura.  A ideia que fica é a reflexão de como somos tão centrados em nós mesmos e deixamos de conhecer as pessoas que estão ao nosso lado o tempo todo. Aquela solidão que todos nós sentimos, mas estamos acostumados, como se fosse normal se sentir assim. Todas as pessoas na rua têm a sua história, seus gostos, seus desgostos, sendo que, em muitos casos, pode ser essa pessoa a solução das nossas angústias. Enxergar o outro é enxergar a si mesmo.
           
            *Antes que eu me esqueça, a trilha sonora do filme também é SENSACIONAL!  E tem o filme inteiro no youtube!!!
            *Cinema brasileiro, cadê o incentivo pra filmes e diretores de qualidade? Tô cheia de Globo Filmes e comédias que não levam a lugar nenhum. A Argentina tá quebrada, mas tá tendo um show em produção cultural, reclamamos que argentinos são insuportáveis, mas o nível cultural deles é elevadíssimo, tá na hora de reverter isso!

Ela    

  
Vou confessar, enrolei demais pra escrever sobre esse filme. Saí do cinema com aquela sensação de angústia profunda e medo do futuro. Enrolei porque têm tantos temas dentro desse filme que fica difícil saber sobre o que escrever e, principalmente, como escrever. Essa é uma obra magistral e relata o vazio das nossas relações e sentimentos.
A história é ambientada no futuro, entretanto não pode ser considerado um filme futurista (não se trata de invenções foras da realidade, como o desenvolvimento tecnológico é muito rápido, acredito que em menos de 10 anos, talvez uns 7, estaremos naquele nível). Nessa realidade, os sistemas operacionais são muito avançados. Theodore trabalha escrevendo cartas monografadas, sendo que ele elabora as declarações de amor, parabenizações, pêsames e os demais assuntos que podem ser tratados em um cartão. Basicamente, o contratante manda um e-mail com informações sobre a pessoa que receberá a carta e Theodore faz textos magníficos, em nome do contratante, é claro. Essa é a primeira reflexão do filme: como desaprendemos de dizer para pessoas que amamos aquilo que sentimos, deixando nossas relações mecânicas e monótonas.
Theodore e os demais indivíduos dessa nossa sociedade futurista passam o tempo todo conectados, fazendo todas as suas atividades pela rede e tendo completa interação com o conteúdo digital. Por exemplo, podem conversar com os personagens dos seus jogos de videogame. O protagonista é um exemplo de vazio e solidão: divorciado, remoendo lembranças do casamento e tentando esquecer a ex esposa,  quase nunca visita seus amigos, se deslocando apenas da casa para o trabalho.
Tudo muda quando Theodore conhece Samantha, seu novo sistema operacional. Samantha é programada para organizar e-mails e todo o aparato digital de Theodore, além de se tornar amiga, conselheira e NAMORADA do personagem. Sim, Theodore se apaixona pelo seu sistema operacional e, como todo apaixonado, é incrível a mudança que ocorre nele. Começa a visitar os amigos, passear em parques e fazer todas as atividades que um casal normal e feliz faz (incluindo sexo) com Samantha (é interessante que isso não é um evento isolado, muitas pessoas daquela sociedade também se apaixonam pelos seus sistemas operacionais).
Samantha foi programada para ser perfeita. Sua inteligência é impecável, se expande com o tempo e contato com as pessoas. Além disso, é sempre paciente, incentiva Theodore a mandar suas cartas para uma editora, tem a voz rouca e sexy de Scarlett Johansson (a qual dá um show de interpretação, uma vez que só a sua voz está presente, demonstrando todos os tipos de sentimentos que uma pessoa pode ter) e deseja se tornar humana. Samantha tem uma curiosidade pela vida que os humanos perderam, nesse contexto tecnológico. Entretanto, obviamente, essa perfeição de Samantha prejudica o relacionamento, pois ela está muito à frente de nós na escala evolutiva. Ao se apaixonar por Samantha, Theodore nos apresenta o segundo dilema do filme: como é difícil aceitarmos as outras pessoas do jeito que elas são, com seus defeitos e qualidades. Buscamos sempre alguém perfeito e imaginamos que nós mesmos somos a máxima da perfeição, nos afastando de qualquer relacionamento pessoal e adentrando cada vez mais nossa solidão compartilhada online. Seres humanos são seres imperfeitos e essa é a beleza da nossa espécie.

Saí da sala do cinema com aquela sensação de soco no estômago. Nele, as pessoas não se tocam mais, não interagem e têm pouquíssimo contato físico. A cena mais bonita, na minha opinião, é a que Theodore, ao achar que deu erro no sistema de Samantha e se desesperar com a possibilidade de tê-la perdido, olha ao seu redor e todas as pessoas estão sozinhas e, inclusive, falando sozinhas (mas não propriamente sozinhas e sim com os seus sistemas operacionais). Um dos filmes mais lindos e tristes dos últimos tempos, que nos leva à reflexões sérias acerca do que estamos nos tornando e do que queremos ser daqui alguns anos. Mereceu o Oscar e mereceu cada centavo que eu paguei no cinema.  

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