domingo, 11 de maio de 2014

Centenário de Carolina Maria de Jesus


                Mulher negra, favelada, semianalfabeta e catadora de lixo. A história de Carolina Maria de Jesus se confunde com a de muitas brasileiras, com uma grande exceção: Carolina escreveu um clássico de nossa literatura. Dona de uma personalidade forte e difícil de conviver, Carolina via nos papéis que recolhia a chance para externar sua realidade de vida.  Seu diário virou obra consagrada: Quarto de Despejo, traduzido para 13 idiomas e leitura obrigatória nas escolas americanas.
                Descoberta por Audálio Dantas, um jornalista que fazia reportagem na favela em que morava, o diário de Carolina virou um best seller dos anos 60, vendendo cerca de 80 mil cópias. Sua literatura é a quebra do paradigma gramatical, uma vez que a partir de sua obra foi incorporada aos livros brasileiros a escrita de acordo com a oralidade do protagonista.
                O temperamento de Carolina era extremamente peculiar. Até mesmo dentro da favela era uma espécie de estranha, chegando a incomodar seus vizinhos por ser a única naquele lugar que sabia escrever. Nunca se casou, pois tinha medo de viver subjugada ao marido. Não aceitava conselhos, brigando inclusive com o jornalista que a descobriu. Seu diário tornou-se único por expor, pela primeira vez, o ponto de vista da classe dominada, contrariando a lógica vigente até então, na qual se destacavam apenas escritores brancos e abastados. A escrita de Carolina desfez a invisibilidade da classe a qual pertencia.
                Apesar do sucesso de vendas, Carolina morreu na miséria e sozinha.  Quarto de Despejo foi esquecido pelos brasileiros, porém sua importância é atemporal. O diário serviu de denúncia do cotidiano daqueles de quem nos esquecemos diariamente. Triste observar que depois de tanto tempo o Brasil continua criando condições para que indivíduos vivam na mesma pobreza que Carolina–sem, obviamente, a glória literária.





“11 de maio Dia das Mães. O céu está azul e branco. Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos.                   ... O sol vai galgando. Hoje não vai chover. Hoje é o nosso dia.                    A D. Teresinha veio visitar-me . Ela deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera ir no circo. Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros.                    ... Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.                    Surgiu a noite. As estrelas estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos.” 




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