sábado, 3 de maio de 2014

Regras de uso da vida -ou política da boa vizinhança

            Eu acho meio bobo escrever sobre isso, porque me parece o tipo de coisa que todo mundo já devia saber, afinal nossas mães nos falam isso desde o útero. “Não faça pro seu amiguinho o que você não quer que façam com você”. O caso é que o mundo anda muito desrespeitoso. Motivados pelo anonimato da internet, sempre observo pessoas desrespeitando outras gratuitamente, como se quem estivesse do outro lado não fosse alguém que tem sentimentos e pode se magoar com o que está sendo dito.
            Não entendo muito bem qual é a motivação de pessoas que se dão ao trabalho de escrever algo apenas com o objetivo de magoar o outro. Vejo muitas meninas, principalmente do ramo da moda, que sofrem com isso. Talvez motivados por inveja, ao ver que elas têm aquilo que algumas de nós sempre sonhamos em ter, sempre aparece um babaca pra dizer “ah, sua vagabunda fútil, vai lavar louça, olha as crianças morrendo de fome na África e você usando maquiagem importada”. Esse tipo de comentário é tão maldoso quanto machista, porque sempre há associação de mulher “errada” (errada por gastar o dinheiro DELA em maquiagem) com sua sexualidade, além de pressupor que lugar de mulher é lavando louça. Mas enfim, a discussão não é essa...
            É fato que a minha visão começou a mudar quando eu entrei na universidade. Meu curso é lindo, cheio de pessoas diferentes e dotadas de ideologias próprias, que defendem o que acreditam até morte. Eu acho esse entregar-se sincero uma das poucas coisas verdadeiras da vida, tento ser assim ao máximo. Mas lá as pessoas se agridem para defender o que acreditam. Se você é a favor da greve, pressuponho que estudantes uspianos têm capacidade suficiente para argumentar em defesa da mesma, sem precisar atacar coisas em quem não defende a paralisação.
            Acho que eu abandonei 90% dos julgamentos que eu fazia depois de entrar na USP, principalmente porque eu pude sentir como NÃO é legal ser julgada. Não é porque eu saí da aula de antropologia quando passava um vídeo de esquimós matando uma foca a pauladas, que eu não mereço ocupar minha vaga na universidade. Poxa, eu estudei bastante, pego 2 metrôs e 1 ônibus pra chegar, estudo cerca de 12h por dia e só volto pra casa depois da meia noite. Também não é porque eu leio o Pequeno Príncipe e uso calça cor-de-rosa que eu sou fútil.
            Esse é o principal problema de julgamentos: não se conhece nada sobre a vida da outra pessoa. Pode parecer clichê, mas o outro é realmente um universo muito diferente e distante. O que pra um é bobo, pro outro é uma batalha muito importante. E, definitivamente, o que você gosta não significa que é a melhor coisa. As pessoas podem e devem ter gostos diferentes, isso é saudável e interessantíssimo! Se todos gostassem e votassem em só um partido político durante toda história, não haveria democracia e a máquina política seria, no mínimo, sem graça.
            Eu posso ter uma vida confortável e ser de esquerda. Isso não significa que eu sou hipócrita, apenas quer dizer que mesmo em detrimento de alguns benefícios que eu tenho na vida, prefiro me sacrificar minimamente para que os demais também possam ter uma vida confortável como a minha. E o outro pode ser de direita, mas nem por isso ele é um fascista assassino que quer comer o sangue das criancinhas do farol. E se nós discutirmos nossas ideias de maneira séria, adulta e sadia, podemos dar início a um importante debate.
            Outro ponto importante dessa discussão é: não ataquem pessoas com argumentos mentirosos, relacionados à falta de informação ou ignorância. Pessoas entram nos Instagrans de famosos pra perderem seu tempo falando “ah, seus bostas, vocês fingem que namoram pra ganhar Ibope, não namoram porcaria nenhuma”. Eu posso nem gostar do artista, mas me incomoda muito. Não é o tipo de informação que alguém pode ter, ninguém dorme no meio dos dois. E outra coisa que ninguém sabe é quanto a Gabriela Pugliesi ganha pra ser uma máquina de publicidade sobre saúde, estilo de vida saudável e fitness. Você pode não querer se transformar num aparelho da academia e nem comer batata doce todo dia -eu também não quero, tenho direito de ter uma bunda gorda e mole -mas você tem a obrigação de reconhecer que essa mulher é a maior publicitária atual, uma vez que ganha dinheiro e tem milhões de seguidores vendendo ela mesma.
            Quando você começa a ser atacado significa que o que você está dizendo e representa ameaça o outro. Quando você ataca alguém, esse ato diz mais sobre você e suas fraquezas, do que sobre o outro. É claro que muitas vezes o comentário maldoso é positivo, pois nos mostra que aquilo que publicamos está tendo alcance e repercussão –inclusive de quem discorda de nós, o que também é importante. Você tem o direito de discordar de quem você quiser, desde que tenha argumentos concretos e os use de forma educada. As chances de convencer o outro sobre o seu ponto de vista aumentam muito quando não são usadas nenhuma forma de violência. Atacar a vida pessoal de uma pessoa porque ela acha que o Bolsa Família é positivo, ou porque ela gosta de uma banda específica, não faz o menor sentido.
            Às vezes nós não gostamos mesmo de determinada pessoa, não concordamos em nada com o que ela diz e a presença dela nas nossas redes sociais chega a nos incomodar. Isso é normal. O que não é normal é perder o seu tempo se dedicando a deixar o dia do outro mais triste. Nesse caso, a solução é simples: dê unfollow, exclua do Facebook, não vá atrás de informações sobre a pessoa e não permita que publicações dela cheguem até você –até porque você não precisa ficar sofrendo lendo e vendo o que odeia.

            Acredito muito na lei do retorno. Se você está se sentindo bonita, vão te achar bonita também. Se você está infeliz com a sua vida, você vai querer deixar a vida do outro do mesmo jeito. A questão é: bondade atrai bondade, maldade atrai maldade. Você magoar alguém por um desses motivos ínfimos pode deixar essa pessoa chateada por um tempo, mas logo ela voltará às funções dela e com sucesso. A vida de ninguém se torna mais feliz ao tornar a do outro um pouco mais infeliz. No começo do século passado Franz Boas já dizia “Cada ser humano vê o mundo sob a perspectiva da cultura em que cresceu”. São nossas diferenças que nos fazem brilhantes. Quando será que vamos aprender a lidar com elas?




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