terça-feira, 8 de julho de 2014

"Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?" - Minha coleção de Dom Casmurro

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  •        Dom Casmurro

                Paixão. Todos amam muito algo e não tem vergonha disso. Eu amo Dom Casmurro. Amo demais. Amo mais que a minha vida. E como toda apaixonada, tenho minha pequena coleção de Dom Casmurro. Meus amigos no ensino médio falavam que eu tinha cara de Capitu –e os da faculdade também falaram isso, sem saber deles, o que é esquisito pra caramba. Não, eu não acho que tenho cara de Capitu. Talvez um pouco. Talvez toda mulher seja um pouco de Capitu.
                Em 2008 a folha lançou uma daquelas coleções maravilhosas de livros clássicos em capa dura baratíssimos. Eu tinha 14 anos e o primeiro volume –eu sempre compro o primeiro volume e paro nele –foi Dom Casmurro. Foi amor à primeira vista.  Ler Machado é realmente uma delícia: os capítulos são curtos e incisivos, sempre nos deixando com vontade de ler o próximo –e o próximo, e o próximo, e o próximo até você morrer. Como todas as obras realistas de Machado de Assis, o que conta em Dom Casmurro são as entrelinhas e elas são alucinantes.
Vou contar a história porque, como eu disse, ela é secundária. Bentinho era uma criança rica, vizinho e melhor amigo de Capitu, moça pobre e com nome da família arruinado.  Os dois foram criados em plena convivência e, com o tempo, descobrem se amar. Existem empecilhos para a relação se consolidar, a mãe de Bentinho, Dona Glória, prometeu que ele seria padre, acontecem idas e vindas, o amor juvenil e puritano permanece intacto. Só que a obra apresenta um detalhe primordial: Bentinho sempre foi um ciumento paranoico e completamente inseguro.
  Obviamente, o amor triunfa e eles se casam. Mas, lembrando, essa é uma história que faz parte da escola realista e não da romântica. A partir desse ponto do enredo, o ciúmes atinge níveis estratosféricos. Bentinho cisma que Capitu tem um caso com seu melhor amigo, Escobar, e que o filho deles na verdade é filho do Escobar. Bentinho passa a sentir asco da criança, chegando ao ponto de tentar envenená-lo. Em suas paranoias, a criança tinha os trejeitos, a voz e a aparência de Escobar. Mas, calma, não tome conclusões precipitadas.  Nesse momento, precisamos lembrar do detalhe mais importante do livro, aquilo que não foi deixado claramente exposto, mas que faz toda a diferença: nós não podemos acreditar no narrador da história.  Bentinho é o narrador protagonista, cuja ocupação é a de advogado renomado. Ou seja, Bentinho enxerga a traição de Capitu como uma causa e nós, os leitores, como jurados que ele precisa convencer. Além disso, tudo que ele nos conta é prerrogativa dele. Ele enxerga os atos de Capitu de uma certa maneira, mas pode ser que eles não signifiquem absolutamente nada, afinal, Bentinho é doente de ciúmes por Capitu.
                Entretanto, na minha visão, Dom Casmurro não se resume ao Bentinho e o seu ciúmes louco. Dom Casmurro é Capitu. Capitu “cigana oblíqua” e dissimulada. Capitu inteira. Capitu e seus olhos de ressaca, que puxava e tragava quem ousasse se aventurar em suas águas.  E a dúvida eterna se Capitu traiu ou não Bentinho.
Eu acho que Capitu traiu. Ou, pelo menos, duvido na veracidade do seu amor. Devemos frisar que a narrativa tem como cenário o século XIX, um tempo não muito favorável para a autonomia da mulher. Capitu agarrou, como ninguém, a chance que lhe foi oferecida. Sem deixar de ser livre e mostrar sua força.
O livro têm detalhes que passam despercebidos em uma leitura superficial, pois Bentinho não dá ênfase a eles. Será que nem Bentinho percebeu? Talvez acreditar nessa inocência de Bentinho seja subestimar sua capacidade de advogar, mas não há advogado que não falhe. E eu leio e releio esse livro em busca dessa falha.
Capitu era uma cigana sedutora e sonhadora, que amava a arte da conquista, sentir-se amada e ter Bentinho aos seus pés, fazendo suas vontades sem nem perceber. Para ela, Bentinho era a oportunidade de uma vida. Ele permitia que ela salvasse o nome da sua família, vivesse confortavelmente e frequentasse a alta sociedade carioca. Logo depois de se casar, o maior desejo de Capitu era sair na rua exibindo seu marido. Não sei se Capitu traiu Bentinho com Escobar, porque Capitu era inteligente demais pra perder o que lutou pra conquistar desde a adolescência. Mas que ela não morria de amores por Bentinho, ah, ela não morria mesmo –e quem morreria??? A única coisa que sabemos é que Escobar direta ou indiretamente foi vítima fatal de um mar de ressaca.
Encontrar um adjetivo para defender Dom Casmurro é tarefa impossível. A riqueza dos detalhes é exuberante. Muitas vezes eu me pego pensando que Machado os escreveu por acidente, porque não é possível alguém planejar aquilo. Talvez na cabeça dele a resposta da traição estivesse muito certa, mas ele não conseguiu expor isso da maneira correta –Graças à Deus. Dom Casmurro te leva para o encanto do Rio de Janeiro do século XIX e nos mostra que quando uma mulher quer algo, não tem homem que a impeça.

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade, do estilo, o que eles foram e o que me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava pra dentro, como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me”.



·         Amor de Capitu

Escrito por Fernando Sabino, importante autor da língua portuguesa, o livro se propõe a ser uma recriação literária da obra Dom Casmurro. Na verdade,  o autor copia e cola o Dom Casmurro e retira todas as digressões do Bentinho, ou seja, as partes em que ele fica falando com a gente sua opinião sobre os fatos e não conta história nenhuma. Ele tira o romance da primeira pessoa e passa para terceira, tentando distanciar Bentinho da narração.
Pra ser bem sincera, eu não enxerguei utilidade nenhuma nesse livro.  Eu não conhecia o título, meu namorado viu na livraria e me deu de presente. Fiquei animada pra caramba e depois super decepcionada. Não faz muito sentido passar o romance para a terceira pessoa, se no romance original quem conta tudo é o Bentinho. Tudo foi narrado por ele, então quando o autor passa para a terceira pessoa, ele transcreve utilizando o ponto de vista do Bentinho, o que não altera em nada a história. O livro não atinge seu objetivo de elucidar a dúvida central da trama, apenas reescreve a história.  É mais do mesmo.



·         Capitu

Imagino que eu e o resto do Brasil tenhamos críticas sérias à Rede Globo, mas verdade seja dita: quando eles querem fazer minissérie boa, eles fazem e ninguém segura. Capitu passou em 2008 também, foi uma daquelas microsséries de 5 capítulos, cada um em um dia da semana.
Com a direção de Luiz Fernando Carvalho, foi a minha série preferida na vida inteira e nada vai mudar isso. Obviamente, o foco da história foi a Capitu, seus trejeitos, detalhes, seus olhos oblíquos, a destruição que causou na vida de um homem fraco que morreu atormentado por suas memórias. A roupagem da série foi totalmente nova, misturava passado com presente, Bentinho pegava metrô, a Capitu era tatuada, uma loucura. E, detalhe: a Capitu foi interpretada por Maria Fernanda Cândido –não preciso falar mais, eita mulher maravilhosa. O cenário é lindo, um casarão carioca. Eles colocaram Beirut na trilha sonora! Aquele tipo de sucesso que tem baixa audiência na televisão e que, por isso, você sabe que é bom.

Eu ganhei o DVD da série logo que lançou, minha mãe me trouxe de surpresa e eu quase surtei de emoção. A capa é linda, os desenhos dos DVDs são lindos, os atores são lindos, os extras contam cada detalhe dos bastidores. E o melhor, tem TODOS os capítulos no Youtube, é só procurar. 



A cena da minissérie correspondente à citação que eu coloquei ali em cima <3






Poucos post its no original <3



Da esquerda pra direita: Dom Casmurro, Editora MEDIAfashion; Amor de Capitu, Editora Ática; Capitu, Globo Marcas






Montagem fofa que o meu namorado fez misturando a capa do DVD e o título do livro do Fernando Sabino



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