domingo, 20 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro

            Esse fim-de-semana foi particularmente triste para nós que amamos literatura. Foi-se João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Ambos contribuíram lindamente com a formação de nossa literatura e identidade nacional. Falarei hoje de João Ubaldo e amanhã de Rubem Alves.



           
João Ubaldo nasceu em Itaparica (BA), em 23 de janeiro de 1941, e formou-se em direito, profissão que nunca chegou a exercer, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Trabalhou como repórter, redator, colunista, chefe de reportagem, editorialista e editor-chefe em jornais no Brasil, Alemanha, Inglaterra e Portugal. Além disso, atuou como professor de Ciências Políticas na UFBA. Entretanto, teve sua carreira consagrada como jornalista, tradutor, cronista e romancista.
            Escreveu seu primeiro livro, “Setembro Não Tem Sentido” aos 20 anos e, desde então, não parou de publicar. A publicação contou com prefácio de Glauber Rocha, seu grande amigo desde 1956. O romance também foi apadrinhado por Jorge Amado, com quem manteve contato até a morte do escritor. Em 1994, João Ubaldo Ribeiro adaptou para o cinema a obra “Tieta do Agreste”, em memória ao seu amigo de outrora.
 O segundo livro de sua carreira, “Sargento Getúlio”, publicado em 1971, reúne, segundo à crítica, o melhor da literatura de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, uma vez que se mantém fiel ao regionalismo nordestino. Utilizou em Sargento Getúlio linguagem coloquial, própria do Sergipe, repleta de neologismos criados por ele mesmo. Por conta da linguagem regional, o romance tornou-se quase impossível de ser traduzido para o inglês, tarefa que precisou ser realizada pelo próprio autor. A obra lhe rendeu, em 1972, seu primeiro Prêmio Jabuti e também contou com uma adaptação para o cinema, tendo Lima Duarte como protagonista.
João Ubaldo Ribeiro publicou dezenas de livros adultos e infanto-juvenis, ganhou diversos prêmios, entre eles 2 Prêmios Jabutis e, em 2008, o Prêmio Camões, o maior da língua portuguesa. Dono de uma personalidade peculiar, casou-se 3 vezes e teve 4 filhos. Ocupava a 34ª cadeira da Academia Brasileira de Letras. Sua morte, em 18 de julho de 2014, é uma grande perda para a literatura brasileira, sobretudo a nordestina, deixando milhares de fãs órfãos de suas obras.





*Escolhi o trecho de uma crônica em que João Ubaldo Ribeiro lastima a morte de seu amigo Jorge Amado. 


Jorge Amado e Eu


Talvez pareça presunçoso eu querer falar no universo que foi e é Jorge Amado através de meu ponto de vista. Mas para falar na persona literária, política e social dele, haverá quem fale melhor do que eu. De especial no que tenho a dizer existe somente a amizade e o amor fraterno que nos uniu durante uns 40 anos e é disso que posso falar. Posso testemunhar sobre a grandeza e a generosidade de seu gênio. Pois o chamo de gênio, no sentido que esta palavra tinha antigamente, antes de enfraquecer-se pelo uso descomedido.
Quem mais, senão um gênio, teria criado toda uma nação, teria dado forma, expressão e identidade a uma terra e uma cultura como a Bahia, assim legando aos baianos e aos brasileiros em geral, pois a Bahia pertence a todos os brasileiros, um patrimônio inestimável? A Bahia não pode ser compreendida — e, por via de consequência, o Brasil não pode ser inteiramente compreendido — sem Jorge Amado e Dorival Caymmi, esse outro gênio de quem só podemos também ter orgulho. Dois fortíssimos pilares da cultura nacional residem na obra deles e, agora que eles já abriram caminho, tudo parece fácil e até óbvio. É como na história de um ignorante que foi assistir a uma apresentação de “Hamlet” e depois comentou, decepcionado, que não passava de um apanhado de lugares-comuns: ser ou não ser, eis a questão; o resto é silêncio; há algo de podre no Reino da Dinamarca; há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua filosofia; e assim por diante. A Bahia desabrochou sob as mãos de artesãos amorosos e de insuperável sensibilidade, como Jorge e Caymmi. Pela primeira vez os negros, os pobres, os humildes, os marginalizados foram trazidos maciçamente, através de uma singularíssima empatia e uma riqueza narrativa incomparável, para o proscênio das nossas artes — e nunca mais a cultura nacional foi a mesma.

Nós aprendemos a nos menosprezar e vivemos treinando isso o tempo todo. Há quem não veja, quem não consiga quase glandularmente não ver, que Jorge Amado não foi um dos mais importantes escritores do Brasil, mas um dos maiores autores do século, sob todos os títulos, a começar pelo fato de que, para o mundo culto e, de certa forma, para o grande público de muitos países, praticamente encarnava o Brasil e bem poucos escritores podem aspirar a esse tipo de galardão. Ele, com altivez e dignidade, nos representava, era como um símbolo da afirmação nacional, era o nosso escritor.

Foi ele que me acompanhou durante todo esse tempo, enchendo minha bola onde quer que chegasse ou a que veículo de imprensa falasse. Foi ele quem me chamou a atenção, sempre carinhosamente, para meus erros, minhas decisões mal pensadas, até para meu descuido com a saúde. A sabedoria e o bem-querer com que sempre me orientou não me deixarão nunca, sou um privilegiado maiúsculo, com essa convivência acima de tudo enriquecedora e enobrecedora. Não posso avaliar tudo o que devo a Jorge, direta e indiretamente. Só sei que tenho saudades dele e das muitas horas que passamos juntos e sei que vou atravessar o resto da vida com estas saudades.

Texto publicado no jornal "O Globo", de 12/08/2001


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