quinta-feira, 31 de julho de 2014

Maçã

            Eva acorda. A luz forte e branca que impregna o cômodo a faz lembrar seu cárcere diário. Não sabe se está delirando ou se realmente tenta invocar espectros que não aparecem. Os esquecimentos que guiam os humanos não podem acompanha-la nesse quarto de luz.  Ela escolheu saber, então vai se lembrar. A sinestesia mistura seu olfato, paladar e tato. Nada cheira e nada sente. Está trancada e a saída foi enterrada nas escrituras divinas. Não há mais portas ou janelas.
Eva é um ser de quem não se têm lembranças. Alguns insistem em recordar seus erros, então também devem ser presos. As trevas são as chaves do paraíso e as sombras, anjos guias. Sua época é anterior ao sentido da realidade, ainda que a realidade não tenha sentido. O aceitamento torna o necessário verdadeiro.
Trancafiada. Em um quarto de luz branca. Dentro de uma máquina falha. Não há ar suficiente. E porque não há ar, Eva continua pecando. Todos se esqueceram de lembrar. A luz forte mostra o que existe no mundo além do cômodo secreto. Nada. E porque está presa com as pupilas pouco dilatadas sofre. Não há ar na penitência.

 A tortura continua todos os dias que são noites e todas as noites que são dias. Eles sabem. Saber é pecar. Ninguém quer arriscar. Aceitar é viver. Aceitar é continuar. Aceitar são noites de sono bem dormidas. Eva escolheu sentir o gosto doce.

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