segunda-feira, 21 de julho de 2014

Rubem Alves





            É triste pensar que algumas vezes é necessário algumas pessoas irem embora para nos darmos conta da sua grandeza. O homem que gostava de ipês amarelos se foi e eu sinto grande angústia por ter adiado tanto a leitura de “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, uma de suas grandes obras. A minha geração vive um pouco de saudades “nossos ídolos ainda são os mesmos (...) e você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”, como cantou Elis. Por isso, gosto de ter autores vivos de quem me orgulhar. Sinto grande arrependimento de não ter conhecido plenamente a obra de Rubem Alves enquanto havia tempo de admirar sua grandeza em vida.
            Rubem Alves nasceu em 15 de setembro de 1933, em uma pequena cidade, Boa Esperança, no sul de Minas Gerais. Mudou-se para o Rio de Janeiro e para São Paulo onde faria um curso de teologia e se tornaria pastor. Voltou para Minas Gerais e se casou, tendo 3 filhos.
            Durante o Regime Militar, Rubem Alves sofreu forte perseguição, o que o levou a se exilar nos EUA. Ao voltar para o Brasil foi nomeado professor universitário, profissão que lhe garantiu experiência como educador. Rubem fazia críticas severas ao sistema educacional brasileiro, incluindo o vestibular, medida que considerava absurda para o ingresso nas universidades, uma vez que, para ele, exigia capacidades dos adolescentes que nem os próprios reitores das universidades teriam. Seu jeito irreverente de tratar o vestibular aproximou suas obras dos jovens que passavam por aquele momento.
            Além de professor universitário, Rubem Alves também atuou como psicanalista e abriu um restaurante após sua aposentadoria. Entretanto, ficou reconhecido mundialmente por publicar ficções adultas, infanto-juvenis e infantis e crônicas. Suas obras também abrangeram o campo da filosofia da ciência e da educação, filosofia da religião, biografias, teologia e vídeos. O autor publicou suas obras em edições nacionais e internacionais, deixando um legado imenso aos seus leitores.
            Sua obra mais famosa, ‘Ostra Feliz Não Faz Pérola’, ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti 2009, na categoria crônicas –atrás de “Canalha! –crônicas” de Carpinejar. A publicação está dividida em 11 capítulos, nos quais o escritor discute sobre as diversas maneiras de encarar e levar a vida. O autor definiu seu próprio livro: “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.
            Como afirmei no post anterior, sobre João Ubaldo Ribeiro, esse último fim de semana foi particularmente doloroso, com a partida de muitas pessoas especiais para a literatura brasileira. Rubem Alves faleceu no sábado, dia 19, mas não antes de atingir a simpatia de brasileiros, ingleses, italianos e americanos. Deixou um marco de protestos em nosso sistema educacional e se aproximou dos jovens que almejam entender esse sistema e garantir para si um futuro melhor.  João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves serão, definitivamente, lembrados por muito tempo entre os leitores brasileiros.



“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Rubem Alves

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