terça-feira, 19 de agosto de 2014

Pague o quanto acha que vale: a máquina mágica


Aqui em São Paulo encontramos espalhadas por muitas estações do metrô máquinas de livros exatamente iguais às máquinas que vendem comida (chocolates, salgadinhos, refrigerantes). A ideia é bem simples: você escolhe um livro e paga o quanto acha que ele vale (a máquina só aceita notas, então o valor mínimo de compra é R$2). Por acreditar que a cultura deve ser acessível a todos, independentemente de classe social e condição econômica, sou completamente apaixonada por essa iniciativa -e, sim, eu compro muitos e muitos e muitos livros dessa maneira.
Eu não acho que o valor de um livro possa ser medido em moeda, aliás, sinceramente discordo totalmente dos valores exorbitantes cobrados e é justamente por isso que o brasileiro não lê -entre outros fatores, como o péssimo acesso à educação, ainda que entre aqueles que podem pagar. No nosso país não existe a cultura do leitor, porque é muito mais barato e prático ir ao cinema do que ser cliente de uma livraria. Sinceramente, com um salário mínimo de R$724, não são todos que se sentem confortáveis em gastar R$60 em um livro do Jorge Amado. Um ponto importante para ser discutido é o fato de que direitos autorais praticamente não existem aqui, eles giram em torno de menos de 5% do valor do produto. Nesse caso do livro do Jorge Amado, de R$60, seria repassado, em média, para aquele que detém os direitos autorais da obra, R$3 (eu não sei como funciona especificamente o contrato do Jorge Amado, mas a média paga por direitos autorais de livros no Brasil é 5% do valor da obra). Dessa maneira, podemos perceber como é quase uma missão impossível viver de escrever no Brasil (o próprio Jorge Amado precisou popularizar a sua obra, fazendo romances com um toque mais comercial, para poder sobreviver de maneira confortável).
Por isso, quando eu vejo iniciativas que propõem disseminar a cultura, fico muito feliz. Entretanto, muitos olham com certo preconceito para essas máquinas. Realmente, a maioria dos títulos oferecidos podem não agradar alguns leitores mais exigentes e as edições, geralmente, são bem simples -afinal, estamos falando de livros que podem ser comprados por R$2. Porém, quase sempre encontro livros que me agradam. Entre muitas opções, temos obras de filosofia, sociologia, antropologia, economia, biografias e literatura. Os mais exigentes devem se lembrar que obras mais simples estão disponíveis em maioria para iniciar aqueles que não estão acostumados com o universo da leitura.
Para conseguir títulos que te agradem é importante passar por estações diferentes. Os livros são trocados periodicamente, mas cada estação possui um lote singular. Eu gosto de comprar livros no metrô para ler durante a minha viagem, ou seja, dificilmente os leio em casa. A minha coleção possui títulos bastante heterogêneos e com ela eu espero “converter” aqueles que olham torto para essa maquininha tão simpática -já convenci muitos amigos que agora viraram "clientes" assíduos.

(clique nas fotos para vê-las bem grande)

Esses 3 livros foram os primeiros que eu comprei, há 3 anos atrás. São clássicos da literatura, sendo que O Cortiço era minha leitura obrigatória do vestibular e é o meu preferido entre eles. Essa edição é bem simples, ela se assemelha em termos de papel e capa a um gibi. Eu odiei Senhora, não costumo gostar da escola literária romântica e, definitivamente, não gosto de José de Alencar. Uma curiosidade desse livro é que Alencar podia ter iniciado o movimento realista no Brasil, se tivesse escolhido um final diferente para a obra. A escolha errada foi um alívio, porque, assim, Machado iniciou o realismo com Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma história infinitamente melhor.


Já que estamos falando em vestibular, comprei essa edição de Folha Explica Drummond devido a ótima explanação sobre a obra Sentimento do Mundo, que também cai na Fuvest. O Homem da Máscara de Ferro, em inglês, comprei na estação Consolação, onde a máquina funciona de maneira um pouco diferente, qualquer livro por R$5. Nela, as edições costumam ser mais elaboradas, mas esse foi o único volume que eu comprei.


Esses 3 livros são meus amores. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado é um clássico da antropologia, escrito pelo Engels -eu uso bastante no meu curso na USP. Pé na Àfrica são "diários" de viagem de um jornalista da Folha que passou por 13 países. A edição é linda, tem muitas fotos e eu adoro saber sobre a África, porque nós temos muita pouca informação sobre o continente. A África não é apenas miséria, existe muita vida ali. O último, O Homem que Era Quinta-Feira é uma sátira teatral sobre política. 


Comprei 2 livros em espanhol e um mini dicionário de espanhol. Não sei se era um especial Copa do Mundo que tava rolando, mas eu adorei. Como eu estudo espanhol, gosto de ler livros na língua para aprender novas palavras. Essa edição dos livros da Marina Colasanti é composta por contos um tanto quanto retóricos com ilustrações da autora lindas. O dicionário, até agora, não me foi útil pra nada, porque não achei nenhuma palavra que precisava nele. 


As máquinas também têm várias opções de livros infantis. Eu não resisti e comprei um exemplar de "Receitas de Herói" da Disney -também tinha "Receitas de Princesa", mas os heróis são muito mais legais, né? Sim, eu gastei 2 reais só por fofura e não me arrependi, porque as ilustrações são muuuuito fofas mesmo e as receitas também. Eles até ensinam a fazer a pizza do Pizza Planet (enquanto eu não ganho dinheiro pra ir até a Disney me empanturrar com a verdadeira, faço em casa e fico feliz hahaha)






Fotos feitas pelo jornalista Fábio Zanini, disponíveis no livro Pé na África



Receitas fofas do Toy Story no livro "Receitas de Herói








*Vocês que moram em São Paulo também costumam comprar livros nessas máquinas? Se quiserem alguma resenha específica sobre esses livros, me avisem aqui nos comentários ou no Insta (@nat_assarito).


7 comentários:

  1. Eu comprei dois ontem na Nobel por 10 reais e estou apaixonada !!!

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    1. Quais você comprou? Não tem nada melhor do que pagar um preço justo em livros!

      Beijos

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  2. Oi, Natalia!
    Acho essas iniciativas super bacanas! Queria que tivesse uma dessa por aqui, mas né. Tudo bem. Na minha antiga universidade, há uns dois anos (quando eu ainda estudava lá) eles colocaram as "geladeirotecas", que eram geladeiras sucateadas que foram pintadas por grafiteiros e transformadas em bibliotecas. Ficam espalhadas pelos campi da universidade e qualquer um pode pegar um livro de lá, de graça. Tanto os alunos como os professores, a editora da universidade e uma livraria local doaram livros e eles sumiram rapidinho! A ideia pegou muito bem, acho essas iniciativas lindas (ainda mais porque dentro da universidade também tem um ensino médio).

    bjos,
    Bianca.
    www.blogsomaisum.blogspot.com.br

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    1. Nossa, que bacana! Na USP também tem bastante troca de livros, mas elas não são tão efetivas assim. O bom é que dentro de cada faculdade encontramos vários sebos, o que torna os livros bem mais acessíveis, além de doação de pdf. Acho muito bom que essas iniciativas tem se espalhado, vemos trocas de livros até em taxis!

      Beijos

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  3. Muito interessante isso,amei estou encantada!! Acho tão legal esses projetos que incentivam a cultura,leitura e a educação. Pena que aqui no Brasil algumas pessoas ainda são muito ignorantes para isso. Amei o post,Lua Moon.
    acidamentedocee.blogspot,com

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  4. Aqui no Brasil, infelizmente, temos parte da população com a cabeça um tanto quanto retrógrada. Ainda bem que existem esses projetos populares. Adorei seu blog, estou seguindo!

    Beijos

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  5. Essa ideia é muito legal MESMO! Queria que tivesse dessas máquinas aqui no Rio também.

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