sábado, 2 de agosto de 2014

Tempo Bom, Tempo Ruim - Resenha




Jean Wyllys ficou conhecido após participar e ganhar o BBB 2005, programa no qual foi exposto 24h por dia na televisão. Essa imagem de “ex-bbb” muitas vezes acaba atraindo um caráter negativo ao indivíduo. Entretanto, Jean é um homem de inteligência autoral ímpar. Formado em jornalismo e mestre em literatura e linguística pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2001, muito antes do programa, Jean foi contemplado com o prêmio Copene de Cultura e Arte pelo seu livro de contos Aflitos. Atualmente, Jean cursa doutorado na área de Antropologia.
         Tempo Bom, Tempo Ruim, tem como subtítulo “Identidades, Políticas e Afetos”, sendo um livro biográfico dividido em crônicas. Nele, Jean conta situações de sua infância pobre em Alagoinhas, interior da Bahia, sua relação com sua mãe e com a religião; e defende seus pontos de vistas e projetos na Câmara. Escreve parte de sua biografia como uma maneira de, posteriormente, quando falar de política, levar o leitor a entender o porquê dele defender determinados projetos.
 Quem conhece o autor, ou pelo menos o segue em sua conta no Twitter, sabe que ele é um ávido fã de novelas. Quando criança havia uma única tv em sua  cidade, sendo que toda população de Alagoinhas se reunia para assistir a novela. Jean se coloca como uma exceção, pois sobreviveu à miséria. Mesmo tendo que trabalhar cedo, vendendo algodão doce, nunca desistiu de estudar, conseguindo uma bolsa no melhor colégio de Salvador. De lá para a UFBA foi só um passo.
            
“A antiga região rural em que cresci transformou-se em um grande subúrbio, no qual, infelizmente, quando uma criança não é corrompida pelas violências, fica aprisionada na reprodução da miséria: ocupa um subemprego, porque não estudou, teve de abandonar a escola para trabalhar, e seu destino é permanecer ali. Eu escapei disso.”

          Jean é coordenador da Frente Parlamentar Mista Pela Cidadania LGBT e no livro explica exatamente seus projetos na área de defesa e inclusão LGBT. Consequentemente, no começo do livro, há um espaço separado em que ele conta como se descobriu homossexual, o surto de AIDS que atingia a população LGBT na época de sua descoberta, os cuidados tomados e o preconceito que sofreu desde a infância, quando as demais crianças notavam que ele era “diferente”.
            Também defende lindamente a questão de gênero, ou seja, a dicotomia existente entre o homem e a mulher na sociedade brasileira. Ele questiona, por exemplo, por que meninos estão acostumados com brinquedos que incentivam o raciocínio lógico e meninas, desde cedo, são treinadas para serem donas de casa exemplares. Ao mesmo tempo, coloca a questão de sua opção sexual na jogada, afirmando que sempre preferiu as brincadeiras e companhia das meninas, nunca tendo gostado de jogar futebol.
           
“Bem mais tarde, entendi por que as brincadeiras de que mais gostava eram reservadas às meninas. O pendor à delicadeza e à criatividade e a possibilidade de toque e de expressão das emoções não são próprios ou naturais das meninas: essas coisas foram aproximadas da cultura vigente, são uma construção. Da mesma forma, aos meninos reservam-se brincadeiras que valorizam a competição, o poder e a propriedade dos bens (carros e armas de brinquedo, soldados de plástico, lutas violentas)”

            O livro também me foi MUITO útil em um aspecto: ele explica o projeto de reforma eleitoral, reforma política e os tipos de votações (maioria absoluta, maioria mínima, voto por lista aberta, voto distrital). Confesso que eu usei o livro para estudar para minha prova de Sistemas Eleitorais –gente, essa matéria é o terror -porque Jean explicou em 10 páginas o que Nye, autor clássico, não me fez entender em um livro inteiro. É claro que essa explicação não é só útil pra mim, estudante de ciência política, mas pra toda sociedade. O brasileiro não se interessa por política e, o primeiro passo para mudar o país, como todos desejam, é entender o sistema eleitoral que o rege.
            Eu fui ao pré-lançamento do livro que ocorreu em São Paulo, no dia 3 de maio, na livraria Cultura (post aqui). Jean foi extremamente simpático comigo –e ele é cheiroso, muito cheiroso. Ele é uma pessoa que passa confiança e que usou a oportunidade que teve para tentar mudar o país e lutar pelo que acredita. Tempo Bom, Tempo Ruim é um livro importantíssimo para o brasileiro de 2014, pois coloca em pauta os principais projetos políticos da esquerda brasileira e, como eu afirmei no post de lançamento, mesmo quem não concorda com essa postura deveria ler o livro e se informar sobre o que acontece na câmara, ainda que seja para rebater os argumentos utilizados.



*Momento TV Fama: Jean disse que entrou no BBB para estudar antropologia. O que faz muito sentido, antropólogos têm que viver e participar ativamente da sociedade que estão estudando, um método denominado de “observação participante”, pois acredita-se que você só consegue entender o outro, diferente de você, quando você é inserido nas mesmas condições que ele. Só que, nesse estudo, Jean ganhou o prêmio de vencedor e ficou nacionalmente reconhecido.







Nós



"Natália, tempos tão bons quanto sua beleza"

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