sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Gabriela, cravo e canela - Resenha



                “Gabriela, cravo e canela” é mais um romance escrito por Jorge Amado em sua segunda fase autoral (se você está perdido, dá uma olhadinha no post da biografia do Jorge), ganhador de prêmios e diversas adaptações para a televisão. Da mesma maneiraque classifiquei Dona Flor e Seus Dois Maridos, considero Gabriela um romance de cunho feminista. Mais uma vez Jorge Amado tenta combater preconceitos, dando voz à sexualidade da mulher, em detrimento de pensamentos machistas que vigoram até hoje.
                O cenário da obra é a sociedade ilheense da década de 20. Gabriela é uma moça que atravessa o sertão baiano em busca de emprego em Ilhéus, cidade que vinha se destacando e enriquecendo com a exportação de Cacau. Chegando ao chamado mercado de escravos, conhece Nacib, o dono do bar Vesúvio que estava desesperado atrás de uma cozinheira. Nacib, sem opções, contrata Gabriela, cuja aparência a primeira vista era horrível e suja, afinal ela havia cruzado o sertão a pé. Gabriela passaria a cozinhar para Nacib e para o bar, vivendo no quartinho dos fundos do patrão, na maior tranquilidade. Dizer que Gabriela toma um banho, transforma-se em uma mulher maravilhosa, cobiçada por todos os coronéis da cidade, levando Nacib à loucura e tornando-se rapidamente patroa seria pura verdade, não fosse um detalhe...
                Gabriela gosta demais de sexo. Digamos que ela “pega e não se apega”. Na viagem pela caatinga, Gabriela tem um caso com Clemente, que se apaixona pela moça e fica completamente surpreso com o desapego da mesma ao chegar a Ilhéus, não querendo seguir com ele e deixando bem claro que tudo não passou de uma “ficada”. Logo após se despedir de Clemente, na primeira vez em que a protagonista vê Nacib, já trata de chama-lo de “moço bonito”, marca registrada da personagem, e a dormir seminua no seu quartinho, esperando que algum dia o patrão resolva fazer-lhe uma visita durante a noite (o que obviamente acontece). O romance é extremamente erótico e bonito, revelando um lado feminino que poucos ousaram tocar.
                Levando em consideração que o livro foi publicado em 1962, expor a sexualidade feminina por si só originaria um debate imenso, visto que a questão é tabu até hoje (isso se prova ao lembrarmos que a trilogia Cinquenta Tons de Cinza gerou uma polêmica enorme). Contudo, Jorge usa a sociedade de 20 para denunciar ainda mais como hábitos machistas e ultrapassados persistem e se revigoram durante o tempo. O romance se inicia não com a história de Gabriela, mas com a infeliz tragédia de Dr. Osmundo e Sinhazinha, esposa do coronel Jesuíno que traía o marido com o dentista.  Ao pegar a esposa em flagrante, o coronel não tem alternativa além de matar os dois amantes. Ninguém sabe se a vontade de Jesuíno era de realmente assassinar a mulher que amava, contudo, se não o fizesse, perderia completamente o respeito perante a sociedade.
                Apesar de todo apelo sensual de Gabriela, sua maior característica é a sua dualidade, uma vez que ela apresenta uma personalidade um tanto quanto inocente. Gabriela não gosta de criar caso, ela sempre “tá de boa”. A sua única meta na vida é se divertir. Gosta de colocar uma flor atrás da orelha, de dançar, de ir ao circo, ouvir os elogios dos “moços bonitos” e, definitivamente, odeia usar sapatos, item que considera opressor. Gabriela vive uma vida leve e tranquila, sem nenhum compromisso e responsabilidade, a não ser cozinhar para Nacib.
                Além de Gabriela e Sinhazinha, outra mulher fortíssima do livro é Malvina. Jovem, estudante do colégio de freiras e filha de um coronel riquíssimo, Malvina não aceita o fardo de se casar, formar uma família e passar toda sua vida submissa ao marido. Na primeira oportunidade que encontra, enfrenta o pai e foge, vivendo uma vida modesta de secretária e estudante universitária, seu maior sonho e maior proibição paterna. Malvina com sua coragem se torna a moça mais mal falada da cidade, enchendo seu pai de vergonha e levando-o a deserda-la.
                Um ponto importante do livro é a oposição entre homem e mulher. Enquanto as mulheres são obrigadas a ter uma postura impecável, quase sacra, para os homens tudo é liberado. A promiscuidade masculina é recorrente. Os homens estão sempre “bem servidos”, seja pelo cabaré da cidade, o famoso Bataclã, ou sustentando suas amantes fixas, que também lhes devem respeito. O maior representante dessa postura é o melhor amigo de Nacib, Tonico Bastos, o qual não mede esforços para dormir com todas as mulheres que deseja, mesmo sendo casado.
                A questão entre o pensamento ultrapassado e o novo também é trabalhada com a dificuldade que Mundinho Falcão, exportador recém-chegado em Ilhéus, encontra para modernizar a cidade. Mundinho quer abrir estradas, construir portos e ferrovia para que o cacau possa ser mandado direto de Ilhéus para Europa. Em contrapartida, o coronel ancião Ramiro Bastos, que sempre mandou na cidade, recorre a qualquer artifício para barrar a ação de Mundinho e vencer as eleições, impedindo que o progresso se aproxime.  A decisão entre qual dos dois lados apoiar é quase sempre velada entre os cidadãos (homens, é claro), correndo risco de morte.

                No começo da leitura, pensei que Jorge Amado estava sugerindo um modelo de casamento aberto nos anos 60, o que foi um erro de interpretação precoce. Jorge abre diálogo sobre limites e, principalmente, sobre pertencimento. Até que ponto um indivíduo pertence ao outro por estar em um relacionamento? Será justo que seres humanos, homem e mulher, ocupem posições diferentes na sociedade brasileira? Além disso, o quanto de expectativas nossas projetamos para nosso companheiro? Em “Gabriela, cravo e canela”, Jorge Amado defende a liberdade de ser da mulher enquanto indivíduo único, com vontades, sonhos e desejos.  Vontade não compreendida pelos homens da década de 20, 60 e do ano de 2014.

Devo ter feito cerca de 20 marcações entre citações (em azul) e capítulos inteiros para ler (em rosa). Essa minha edição é bem velhinha, caindo aos pedaços, mas, ainda assim, maravilhosa. Comprei em uma venda de usados lá na FFLCH, muito amor <3



*Eu queria comentar sobre duas coisas que não cabiam no texto e dizem respeito às adaptações para novelas. Primeiro, o Jorge Amado descreve a Gabriela, após o banho, como uma mulher maravilhosa e simples, não aquele tornado doido desmaranhado que fizeram da Juliana Paes e da Sônia Braga. Segundo, a Juliana Paes interpretou e compreendeu muito mais o espírito da Gabriela do que a Sônia Braga, atriz da primeira adaptação. Agora percebi que quero falar outra coisa: no livro não tem a famosa cena da Gabriela pegando a pipa no telhado e nem a personagem que a Giovanna Lancellotti interpretou :/

4 comentários:

  1. parabéns pelo blog, está lindo
    Te acompanho já no Ig
    bjs
    www.nomundomaravilhosodoslivros.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo carinho! Estou seguindo seu blog

      Beijos

      Excluir
  2. Que resuminho ótimo! Acabei de ler o livro e encontrei seu blog. Seu jeito de expor é exatamente o que eu pensava e nao conseguia descrever ahaha parabens!

    ResponderExcluir
  3. Acabei de ler a obra. E é magnífica! Gostei muito dá sua resenha e concordo em cada ponto.

    ResponderExcluir