segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Perfume, a história de um assassino - Resenha





                Jean-Baptiste Grenouille era um recém-nascido peculiar da França do século XVIII, uma vez que não conseguia despertar o afeto de ninguém que cruzava seu caminho, sendo sempre passado para frente, deixado em outras mãos. Contudo, sempre que deixava alguém, trazia desgraça para a pessoa.
                Tudo começou com sua mãe, uma vendedora de peixes do centro de Paris (acredite, para os franceses do século XVIII, ser vendedora de peixes é a maior desonra de uma mulher, eles até usavam isso como xingamento hahaha), que deu a luz no chão imundo de sua barraca. Achando que o recém-nascido estava morto, deixou-o jogado no chão, em meio à imundície. Ao contrário do que se esperava, pois todos os outros filhos da mulher haviam realmente nascidos mortos, o bebê fez questão de gritar, entregando a mãe leviana e garantindo que ela fosse enforcada.
                O bebê, então, foi enviado a um padre que receberia uma pensão para cria-lo. O padre, porém, foi o primeiro a descobrir o problema que rondava Grenouille: o bebê não tinha cheiro. Nenhum odor de ser humano ou de animal era exalado. A única característica que dizia que a criança estava viva era a sua mania de farejar. Ele não fazia nenhum som, apenas movia seu nariz em busca de reconhecer o ambiente. O padre, horrorizado com um “genuíno filho do demônio”, dispensa prontamente Jean-Baptiste para um orfanato lotado e com péssimas condições, sustentado por uma mulher que aceitava crianças para roubar suas pensões.
                No orfanato Grenouille assustava as demais crianças e nunca fez sequer um amigo. Ficou por muito tempo sem falar, apenas farejando e reconhecendo cheiros. Sabia o cheiro de tudo e de todos que existiam no mundo e podia sentí-los há quilômetros de distância. Por incrível que pareça, não discernia entre odores bons e ruins, gostava de absorver tudo para si.

“Não agia seletivamente. Não diferenciava, ainda, entre aquilo que era um bom e um mau odor. Era ambicioso. O objetivo de suas caçadas consistia simplesmente em possuir tudo o que o mundo tinha a oferecer em matéria de odores, e a única condição era que os odores fossem novos. O cheiro de um cavalo suado valia para ele tanto quanto o suave aroma verdejante de um botão de rosa a desabrochar.”
                Aos 8 anos o menino foi vendido para trabalhar em um curtume, profissão pesada, na qual o menino provavelmente não sobreviveria por muito tempo. Contrariando, mais uma vez, todas as expectativas, o jovem não sofreu nada, apenas ganhou muitas cicatrizes.
                É nesse contexto que a história realmente se desenvolve. No dia da festa de independência, Grenouille acompanha seu patrão em uma entrega na cidade, onde fareja o melhor cheiro da sua vida: o cheiro de uma virgem. Ele persegue a moça e comente atos terríveis na tentativa de possuir seu cheiro. A partir desse dia, decide que precisa dar um sentido em sua vida e se torna obcecado em encontrar uma maneira de conservar odores.
                A primeira atitude que toma é conseguir um emprego com Baldini, um velho perfumista de Paris falido (a cena em que ele consegue o emprego é sensacional!), reerguido economicamente com o nariz apurado de Jean-Baptiste. No ateliê, Grenouille fazia todos os tipos de experiências –mórbidas –para conservar odores dos mais variados materiais –e seres-, sem obter sucesso algum. Percebendo que já havia adquirido tudo o que podia com Baldini partiu em viagem para Grasse, local em que são produzidos os famosos perfumes franceses.
                Durante a viagem acontece o reconhecimento existencial do protagonista. Ele se isola , no meio do caminho, de tudos e de todos, pois nunca entrara em contato com um local em que não havia o “fedor” de nenhum humano, apenas aromas em seus estados puros. Vive durante anos em uma caverna, onde descobre que é incapaz de ser amado e de despertar empatia, uma vez que não tem cheiro.  Ao não possuir cheiro, o protagonista não possui identidade. A busca por essa identidade o tornará o maior serial killer da literatura.
                Em Grasse, Grenouille aprende a conservar os odores e decide fazer O Perfume perfeito, aquele capaz de levar os homens para outra dimensão. Cada nota desse Perfume seria o aroma de uma virgem e o protagonista entra em um jogo de gato e rato, para tomar para si a essência de suas vítimas. Grenouille busca o amor e a atenção que nunca teve, atraindo para si os sentimentos bons do mundo, os quais nunca pode viver.


                A escrita do autor, Patrick Suskind, é alucinante. Faz você se sentir impregnado com cheiros de uma Paris imunda e nojenta. Durante toda a leitura fiquei abismada, tentando entender como alguém pensa em uma história tão genial e terrível ao mesmo tempo. Eu fui no meu guia de autores procurar a biografia de Suskind, para, em vão, tentar entender um pouco da construção do personagem. Jean-Baptiste é verossímil. Você sente ódio e amor por um protagonista psicopata. A cena final é sensacional!

                Para quem não quiser se aventurar na leitura, recomendo a adaptação cinematográfica de mesmo nome. Meu primeiro contato com a história foi com o filme que eu adorei. Após ler o livro, percebi que a construção do personagem e o dilema da personalidade não são tão explorados, focando nos assassinatos e na crueldade. Entretanto, não deixa de ser impecável!


Usei um dos meus perfumes preferidos de cenário: Cartier de Lune







*Me desculpem pela resenha imensa, mas O Perfume entrou pra minha lista de livros preferidos, difícil falar pouco! Espero que vocês estejam curtindo esse Mês do Horror. Deixem comentários sobre qualquer coisa do mundo que vocês quiserem: O Perfume, livros de terror, filmes legais, babados de A Fazenda hahahahahaha Uma semana linda para todos!

11 comentários:

  1. Oiee, Nat, tudo bem?

    Nossa, sua resenha foi tão empolgada que fiquei aqui doida pra ler o livro. Quando a escrita do autor é boa não tem como não se envolver, né? Gosto muito de livros que se passam em Paris, então esse é outro fator que fez com que eu ficasse interessada na leitura.

    beijos
    Kel
    www.porumaboaleitura.com.br

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    1. Leia mesmo, depois de tudo que você falou, com certeza irá amar O Perfume. Só te aconselho a não esperar aquela visão romântica que estamos acostumadas de Paris, a realidade do século XVIII é bem diferente. Se você gostar, volta aqui e me conta!

      Beijos

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  2. Oi Natália. Recomendo um filme antigo para esse mês do horror: Eu sei o que vocês fizeram no verão passado. Muito bom! Sua resenha está ótima! Você escreve muito bem! Bjs

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    1. Olá, fico feliz que você tenha gostado! Esse filme é um clássico, né? Obrigada pela indicação, vou procurar para assistir!

      Beijos

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    2. Oi! Gostei tanto de sua resenha, que assisti ao filme e falei dele lá no blog: www.mardevariedade.com. Beijos

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  3. O realismo fantástico do filme serve para ampliar a percepção de que é muito mais comum hoje, a psicopatia vivenciada pela sociedade, não se limitando à ficção, tornou-se realidade.
    O problema é que do ponto de vista jurídico a fragilidade do entendimento da questão possibilita a liberdade dos indivíduos portadores dessa anomalia mental/comportamental.

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  4. Ele não tinha 8 anos quando foi vendido, e sim 13 anos.

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  5. Vi o filme ontem e fiquei impregnada! Já vi 03 vezes em 02 dias.Meu dilema é entender o porquê não consigo odiar Jean-Baptiste Grenouille, cada vez que assisto me culpo por não odiá-lo, afinal é um psicopata odioso.O autor é de uma genialidade psicológica que assusta.Nunca vi um filme tão completo e perfeito.Vou ler o livro urgentemente, afinal esse teor de informações inebriantes é sempre objeto de mais e mais curiosidade.

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  6. Odiei! Se eu pudesse entraria na tela para arrebentar a cara deste assassino. Ridículo, sacrificou jovens mulheres. Um serial killer. Perdi minha noite de sono!

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  7. nossa só de ler sua resenha amei, irei ver o filme me interresei pela história
    beijos

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  8. amei sua resenha,me interessei,irei ver o filme...
    bjs

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