quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Misery - Stephen King (Resenha)

Misery foi minha segunda leitura planejada para o "Mês do Horror" (as outras leituras programadas para esse ano estão aqui). Como sou toda ao contrário, estou me sentindo mais no clima de Halloween nessa semana do que no resto de outubro inteiro, hehe! Comecei lendo essa obra prima no início do mês, acabei deixando de lado e pegando novamente nos últimos dias. Terminei as quase 200 páginas que faltavam em menos de 48 horas, ou seja, ALERTA DE LIVRO INCRÍVEL!

Até agora Misery não saiu de dentro de mim. Eu, que nunca me impressiono, precisei fazer uma pausa pelo bem da minha sanidade mental. É uma história pesada e que causa aflição no leitor em diversos momentos. Porém, se tornou meu preferido do autor até agora (sim, ultrapassou O Iluminado! Nunca imaginei que isso aconteceria </3).

"Paul Sheldon é um famoso escritor que finalmente encontrou sua maior fã. Ela se chama Annie Wilkes, e é mais que uma leitora voraz: é a enfermeira de Paul, pois cuida dos ferimentos que ele sofreu em um grave acidente de carro. Mas Annie também é a carcereira de Paul, mantendo-o prisioneiro em sua casa isolada"

Como a própria sinopse diz, Paul Sheldon é um escritor reconhecido por publicar uma série best seller, Misery, cuja protagonista que dá nome aos livros é uma moça romântica do final do século XIX. Pelo que nos é informado, temos a impressão dos romances sobre Misery serem parecidos com aqueles que encontramos nas bancas de jornal aqui no Brasil, possuindo valor literário baixo, mas grande potencial de entretenimento e, por isso, conquistando milhares de fãs. Entretanto, Paul odeia Misery, comparando-se a um garoto de programa, uma vez que gostaria de se dedicar a livros melhores, mas não o faz por ser essa série que agrada ao público e mantém seu alto padrão de vida. 

Assim, após lançar vários volumes sobre Misery, Sheldon finalmente se liberta, dá um fim trágico à personagem e escreve algo que considera sua "obra prima", Carros Velozes, na qual a trama gira em torno de um ladrão de carros, um anti-herói moderno. Após a conclusão do manuscrito, o autor pega seu carro e decide viajar em encontro ao editor, mesmo estando bêbado, mesmo sem conseguir dirigir direito, mesmo com uma tempestade prevista. O resultado é fácil de imaginar: acidente gravíssimo, Agora, o que ninguém nunca chegaria a cogitar é que a Fã Número Um do escritor, Annie Wilkes, o encontraria e o manteria em cárcere privado. 


Annie é uma enfermeira aposentada, com um passado macabro e completamente alucinada pelas histórias de Misery. Ao voltar da cidade encontra o carro de Paul acidentado e logo reconhece seu ídolo. Decide, então, levá-lo até em casa e, assim, prestar o socorro mais adequado. Como uma tempestade estava chegando e o escritor estava muito debilitado, o ato de Annie seria completamente aceitável, não fosse por um detalhe: ela decide mantê-lo prisioneiro e nunca mais libertá-lo. 

Seu plano começa em torná-lo completamente dependente de um medicamento, o Novril (ela possui dezenas de caixas de remédios controlados em casa e não se sabe como, instigando ainda mais o mistério). Porém, tudo piora quando Annie chega ao final do último volume de Misery e percebe que sua protagonista amada está morta. Ela faz Sheldon queimar seu manuscrito de Carros Velozes, algo que causa uma dor imensa no escritor,e decide obrigá-lo a ressuscitar Misery,. Contudo, não se contenta com qualquer escrito, quer que Paul Sheldon escreva sua obra prima. Para demonstrar que não está de brincadeiras, muitas vezes convence Sheldon deixando-o sem Novril, sem comida ou até mesmo recorrendo ao auxílio de um machado. 

Os gifs que estão postados para ilustrar essa publicação são do filme "Louca Obsessão" (1990), baseado no livro e no qual Kathy Bates interpreta Annie de maneira tão incrível que ganha o Oscar de melhor atriz. Assisti o filme quando era bem pequena e lembro que fiquei transtornada por muito tempo. Além da atuação brilhante, King realmente escreve uma personagem de profundidade psicológica única. Nós conseguimos sentir a tensão de Sheldon nos momento em que ela mergulha em si mesma e apaga por alguns instantes. Parece que será em nós que ela vai descontar quando "acordar".

É a possibilidade de se colocar no lugar de Paul Sheldon que nos impede de largar o livro. Ele, com as pernas quebradas, preso a uma cama em uma casa desconhecida e isolada da cidade é tão incapaz de se defender de Annie quanto nós, leitores. E dentro dessa psicopata há tantas metáforas e lições duras e difíceis de acreditar. A prova disso é que em determinado ponto da história o prisioneiro resolve adiar sua fuga por concordar que precisa terminar essa última obra sobre Misery, pois ela se tornara infinitamente superior a Carros Velozes. 

Por fim, algo muito bacana é que King acaba escrevendo sobre escrever, ou seja, ensinando o leitor como é o trabalho de um escritor, pois muitas vezes temos a impressão que para ser um autor basta uma boa ideia e meia dúzia de adjetivos. Muito além disso, notamos que as estórias acabam trilhando seu próprio rumo e dependem de muito comprometimento, rotina e dedicação. Stephen King também conta bastidores de livros e personagens famosos, como a relação entre Sherlock Holmes e Arthur Conan Doyle, muito semelhante à de Misery e Paul Sheldon, na qual a criatura torna-se mais importante que o criador. 

Leiam Misery. Na minha singela opinião, livros e filmes de terror só são verdadeiramente assustadores quando se tratam de humanos. Humanos sem poderes sobrenaturais, humanos que são assombrados apenas por outros humanos. E Annie Wilkes é tenebrosamente humana. Ela é capaz de tirar nosso ar e nosso sono. Ir descobrindo seu passado junto com Sheldon significa temer pelo que está por vir. Posso dizer que até hoje foi a personagem fictícia que mais me assustou, porque acredito que todos nós temos um pouquinho de Annie em nosso anterior. Duvido que exista alguém que ao ler a última página não se questione se ela não tinha razão em determinadas indignações, apenas usou os métodos mais extremos e absurdos que possuía. Duvido que em algum momento ninguém teve vontade de agir um pouquinho como Annie Wilkes e botar fogo naquilo que nos causa dor, independentemente do que isso signifique para o outro. Annie Wilkes representa nossos desejos mais sombrios, aqueles que escondemos de todos por medo de deixarmos de ser amados, escancarados.



*Depois de ler Misery fiquei me sentindo muito mal e com a energia totalmente sugada. Por isso, decidi ler outros livros antes de Doutor Sono, não ficaria confortável em mergulhar em mais uma história com clima assustador. Parece que absorvi muito do que foi escrito, sabe? Não sei se aguentaria mais, haha. Porém, em breve lerei e com certeza postarei aqui a resenha, fiquem super tranquilos quanto a isso!

** Como vocês notaram, minhas postagens por aqui diminuíram. Estou passando por alguns momentos difíceis, então minha criatividade acaba indo lá pro chão (pasmem, as vezes nem vontade de ler tenho, o que impede minha produção de resenhas). Por isso, peço muito que vocês, que estão sendo durante todos esses anos uns lindos, sempre comentando e dando sugestões incríveis, continuem me incentivando! Curtam a página do facebook, comentem muuito nas resenhas, me sigam no Instagram (meu usuário é @nat_assarito) e no Snapchat (lá estou como nataliaassarito). O carinho de vocês faz MUITA diferença <3


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Joyland - Stephen King (Resenha)

Demorei, mas voltei, hehe! O primeiro livro que escolhi para ler nesse Mês do Horror foi Joyland, do Stephen King e posso dizer que foi uma ótima opção para começar o desafio (você pode ver as outras obras selecionadas aqui). Como todos os outros livros, Joyland também segue o traço característico do escritor: é uma leitura que flui e prende o leitor. 

"Intenso e cativante.. A narrativa promissora e a montanha-russa emocional na vida de um jovem rapaz fazem de Joyland um prêmio que valem todas as suas fichas." - USA Today

Devin Jones é um jovem universitário com uma mente repleta de utopias e sonhos.  Tudo em sua vida parece aguardar o momento perfeito para acontecer: a primeira noite com a namorada, a ideia para finalmente se tornar um autor, o emprego ideal. Porém, como já é esperado, vê tudo desmoronar quando percebe que o mundo não é estruturado de acordo com suas vontades.

A narração começa com um Devin adulto e amargurado nos avisando sobre algo macabro que aconteceu no verão dos seus 21 anos. Após sua namorada (a quem descreve com as piores características possíveis, mas que nos parece ser uma adolescente comum) decidir terminar o namoro, o universitário decide trabalhar em um parque de diversões em uma cidade próxima. Joyland parece ser o destino perfeito para quem quer se esconder e deixar os problemas para trás.

Logo que chega ao novo emprego, o jovem recebe incentivo e apoio dos colegas de trabalho, os quais o definem como "com alma de parque". Porém, algo muito macabro também acontece em seu primeiro dia de trabalho: a cartomante do parque lhe revela uma profecia, a qual envolve duas crianças e uma sombra. Além disso, Devin descobre que há pouco tempo uma moça foi brutalmente assassinada e seu corpo abandonado no trem fantasma, levando os funcionários a jurarem que seu espírito assombra a atração em busca de socorro. Dessa maneira, apesar das condições de trabalhos e das adversidades corriqueiras, começa a realmente se interessar pelo que faz, disposto a achar o culpado pela morte de Linda Gray e acabar com o mistério.

Apesar de ser um livro sobre assassinatos, fantasmas, trens do terror e parques amaldiçoados, vi na leitura de Joyland um tema mais dramático do que de horror propriamente dito. King nos dá um grande material de reflexão acerca de encontros e desapegos, sobre a necessidade que todos já tivemos de deixar ir algo ou alguém que tanto amamos. 


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Brace yourselves: MÊS DO HORROR is coming! (Stephen King addiction)


Até que enfim o mês mais legal do ano chegou: o mês do horror! É o terceiro ano em que Tati Feltrin, nossa musa do youtube, propõe a leitura de apenas  livros com temas sombrios em outubro, uma maneira de comemorar o Halloween. Quem me segue sabe que eu tenho o costume maluco de sempre ser nacionalista, ou seja, tenho muitas críticas acerca do imperialismo norte-americano, contudo, depois que comecei a estudar antropologia, entendi que não existe cultura pura (não que isso justifique a postura dos EUA em inúmeros assuntos, mas, enfim...). Assim, desencanei um pouco e resolvi me juntar nesse grande desafio! Amo histórias de terror e adoro tirar esses dias para só me dedicar à elas. Esse é o segundo Mês do Horror aqui no Aborto Literário e tenho certeza que será tão bem sucedido quanto o primeiro! 

Vocês sabem como está mega corrido conciliar as leituras do blog com as da faculdade (faço ciências sociais na USP), além dos inúmeros trabalhos acadêmicos. Dessa forma, precisava encontrar uma maneira de escolher as leituras do mês que os atraísem e que eu tivesse certeza que daria conta de ler. Não deu outra, quando dei por mim, já tinha montado uma seleção só com os livros do Stephen King que queria ler desde o começo do ano. Além de ser meu autor de terror favorito, King tem uma escrita que prende o leitor do começo ao fim do livro... Você simplesmente não consegue largar!

Um pouquinho sobre os livros escolhidos: 

Joyland - Devin Jones é um estudante universitário em busca de um emprego de férias. Como que em um sinal, o anúncio de contratação do parque de diversões Joyland, em uma pequena cidade da Carolina do Norte, cai em suas mãos. O cenário de diversão e trabalho duro parece ser perfeito para o jovem esquecer sua ex namorada, Wendy. Contudo, 4 anos antes, um assassinato terrível aconteceu no Trem do Horror, levando os trabalhadores do parque e a população local a acreditarem que o fantasma de Linda Gray assombra o brinquedo. Dev terá que resolver esse mistério em um enredo que mistura as dificuldades de amadurecer e a dor de não poder seguir em frente. (Spoiler: já estou quase acabando a leitura e, realmente, o livro é incrível!)


Misery, louca obsessão -  Paul Sheldon é um escritor de best-sellers com milhares de fãs espalhados pelo mundo. Após escrever o último volume de sua sequência protagonizada pela personagem "Misery Chastain", Paul sai para comemorar e sofre um acidente na estrada, sendo socorrido pela gentil enfermeira "Annie Wilkes", sua fã número um. Porém, nem tudo é como parece, sendo que Annie vai se revelando, ao longo da narrativa, uma doida obsessiva, mantendo o autor em cárcere privado até que ele dê à Misery o final que a enfermeira quer. Além do enredo super chamativo, o livro tem uma adaptação maravilhosa para o cinema dos anos 90 (<3).




Doutor Sono - Mais de 30 anos após o lançamento de O Iluminado (ano passado teve resenha dele, link aqui!), King finalmente nos deu a continuação de uma das histórias mais famosas de todos os tempos. Em Doutor Sono vamos saber o que aconteceu com Danny, agora um homem adulto, após deixar o Hotel Overlook. Na verdade, não sei muito o que esperar desse livro, sempre fico "meio assim" com continuações (ainda mais de O Iluminado, um dos meus livros preferidos). A responsabilidade é grande, mas aposto que o autor não irá decepcionar! 





*Estou bastante animada para começar as resenhas (me programei para lançar uma a cada 10 dias, então fiquem de olho!). Durante o mês também vou postar dicas de filmes aterrorizantes e poemas sombrios, tentando trazer muitas novidades para vocês. Me acompanhem pelas redes sociais e para ver as postagens de outubro do ano passado é só procurar "Mês do Horror" nas categorias. Para quem ficou curioso, vou deixar o trailer de Misery aqui embaixo! Boas leituras! 





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Paris for One - Jojo Moyes (Resenha)

Antes de mais nada, sei que vocês estão estranhando ver um livro da Jojo Moyes resenhado por aqui -eu também me estranhei ao comprá-lo, hehe. Meados do mês passado estava na Saraiva procurando livros em inglês que tivessem sido escritos há pouco tempo para praticar a leitura (e, cá entre nós, meu inglês não é a melhor coisa do mundo para começar me aventurando com Jane Austen no original). Se livros em português já são uma fortuna, importados geralmente são quase impo$$íveis de serem comprados. Porém, a livraria estava com uma mega promoção, então trouxe para casa "Paris for one", "Us", do David Nicholls (em uma edição maravilhoosa <3) e "Teus Pés Toco na Sombra", do Pablo Neruda (lançamento póstumo, bilíngue, íncrível), tudo por R$60. 

Comecei com "Paris for One" porque ele faz parte da série Quick Reads da Penguin, ou seja, apesar de serem 95 páginas, em uma sentada você consegue terminar a leitura. Por mais esquisito que pareça, gostei tanto, achei tão leve e bonitinho, que resolvi indicar e contar um pouquinho para vocês (afinal, não tem nada melhor que aprender um idioma de maneira relaxante -a gente sabe como pode ser um pouco torturante às vezes haha).

Nell é uma jovem inglesa super certinha e que de vez em quando deixa a vida passar por ela sem se agarrar muito aos momentos de prazer e lazer. Uma das suas maiores vontades da vida sempre foi visitar Paris, mas ela constantemente escolhe deixar esse desejo, super cabível para alguém que mora na Inglaterra, para depois, esperando uma oportunidade melhor, um dia melhor, um tempo melhor...

Em um determinado momento, junta toda a coragem possível, compra as passagens de trem e reserva o hotel em Paris, idealizando um fim-de-semana perfeito com o seu namorado, Pete. Porém, Pete é o maior cafajeste/trambiqueiro da vida e fica "preso no trabalho", pedindo que Nell vá na frente e dizendo que eles se encontrariam lá. Obviamente, ele nunca aparece.

Depois de toda essa frustração e do pânico de viajar sozinha, uma vez que ela é uma personagem super insegura, Nell ainda passa por uma série de dificuldades em relação à sua reserva no hotel. A sua decisão imediata é ficar trancada no quarto até o dia de voltar para casa, super confortável na sua zona de conforto e satisfeita em odiar sua sorte. Contudo, ela acaba achando um par de ingressos para uma mega exposição da Frida Kahlo (<3), sendo que após uma longa reflexão e conversa com a recepcionista do hotel, resolve se destrancar e ir viver Paris.

Por ser uma história YA, ou seja, de público jovem adulto, é claro que ela acaba conhecendo um carinha super legal, tendo romance, dando aquela vingada em relação ao namorado sem vergonha e tudo mais, mas, de verdade, gostei muito da reflexão que o livro traz. Me identifiquei em vários momentos com a Nell e tenho certeza que muitos de vocês também se identificarão. Quantas vezes a gente não acreditou na imagem que os outros têm de nós e decidimos agir exatamente igual como o esperado? Entretanto, infelizmente, o tempo, a vida, a juventude e as pessoas não esperam a gente se decidir. É incrivelmente difícil deixar a zona de conforto, mas, somente quando ela vai embora, é possível viver e se conhecer de verdade. Esse tem sido meu maior desafio e minha maior alegria em 2015.

A Nell me fez pensar tanto que me despertou esse desejo de compartilhar algo fora do usual com vocês. Vejo esse espaço não apenas como um lugar para se discutir livros, mas, antes de qualquer outra coisa, para despertar sentimentos bons em quem me lê. E tenho certeza que a Nell despertará em vocês também, assim como em mim (além, é claro, de dar um belo banho que vocabulário novo no seu cérebro -o inglês da autora é britânico, tendo algumas boas diferenças com o americano). 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Tudo Sobre Arte (Resenha)

Desde que comecei a estudar História da Arte no Brasil na Pinacoteca do Estado de São Paulo tenho procurado livros que me ajudem um pouquinho a compreender melhor o tema, observando a arte como um conceito geral para poder perceber quais são as influências e referenciais de nossos artistas. No Instagram uma seguidora me sugeriu "Tudo Sobre Arte", um guia incrível da Editora Sextante. Como estou começando na área, gostei muito do livro e resolvi compartilhar um pouquinho com vocês. 

Uma das características que mais me chamaram atenção é que a publicação é um apanhado de tudo que pode ser considerado arte hoje em dia (tudo MESMO!). Ou seja, não é uma boa escolha para quem tem interesse em algo que mostre detalhes mais específicos de um ou outro movimento artístico. Por outro lado, para uma primeira experiência de apresentação, é uma ótima escolha, uma vez que expõe tudo o que já foi produzido pelo homem desde as pinturas rupestres (e em quase todas as culturas). 

O livro é dividido em sessões, desde a pré história até os dias atuais. sendo que essas divisões são recortes temporais de acordo com a quantidade de obras que se foi produzida naquele período do tempo. Por exemplo, a primeira sessão, "Da Pré-História ao século XV" envolve um espaço abrangente, contudo, como é pequeno o número de manifestações artísticas preservadas desse período, dá conta de explicar tudo. Porém, o século XX, com todas as suas vanguardas e inúmeras obras catalogadas foi dividido em duas sessões, para uma melhor compreensão didática dos artistas e de seus movimentos. 

Dentro da divisão temporal, escolheu-se pinturas (e esculturas ou demais intervenções) que melhor caracterizam o período e o movimento em questão. Cada eixo artístico, antes de ter suas obras e responsáveis explicados, conta com uma linha do tempo em que se contextualiza historicamente o que estava acontecendo, além de ter as principais características apontadas. Assim, ao se chegar as obras, o leitor possui uma bagagem maior para avaliar o que está vendo.

Os pintores mais consagrados contam com um breve perfil ao lado do quadro, sendo que as obras possuem seus detalhes isolados e comentados. A edição faz questão de chamar atenção para os pontos que definem a obra dentro do panorama histórico em que está inserida, favorecendo a compreensão por parte do leitor.


Apesar do meu curso ser focado no Brasil, o livro não atende à essa demanda, porque é uma publicação estrangeira e fora daqui a arte latino americana é agrupada como uma coisa só (vocês devem imaginar o quanto isso me irrita e chateia haha). Como disse acima, "Tudo Sobre Arte" é interessantíssimo para quem tem curiosidade em conhecer um pouco sobre história da arte e, quem sabe, no futuro se aprofundar no tema (mesmo para quem não tem pretensões de ser um grande historiador da arte também acho incrível a possibilidade de se adquirir um pouquinho de cultura geral através dessa leitura). As páginas são muito bem ilustradas e há um cuidado por parte da edição de tornar tudo o mais didático possível. Contudo, imagino que não seja tão legal para quem já tenha um conhecimento amplo sobre a área. Estou lendo aos pouquinhos, sem obrigação de terminar e amando. 


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Só por hoje e para sempre - Renato Russo (Resenha)

No final de julho a Companhia das Letras e o MIS (Museu da Imagem e do Som) organizaram uma super festa de lançamento para o livro inédito de Renato Russo. Em abril eu já havia comentado por aqui o quanto estava ansiosa para poder ler a série de diários do líder da Legião Urbana, uma vez que sou muito fã de Renato. No evento, além de muita música, tivemos um bate papo com um amigo do cantor (o Paraná, primeiro guitarrista da Legião), o poeta Tarso de Melo, Vladimir Carvalho, diretor do filme "Rock Brasília - Era de Ouro" e Patrícia Lira, funcionária do MIS, cujo trabalho está focado no apartamento de Renato para montar a exposição que ocorrerá no museu em 2017. A conversa foi incrível e me preparou para leitura, focando meu olhar em detalhes que talvez pudessem passar despercebido, mas que fazem total diferença para compreensão do artista (vou basear minha resenha nesses comentários para que vocês possam participar disso um pouquinho também).
"O relato escrito por Renato Russo entre abril e maio de 1993, expondo sua luta contra a dependência química e pela vida, finalmente está à disposição de seus fãs. Um depoimento íntimo, corajoso e repleto de humanidade. Mais do que os bastidores de uma das maiores bandas da música brasileira, e mais do que a reafirmação da sensibilidade do astro do rock, o que emerge destas páginas é o grande homem por trás do mito, determinado a se erguer das sombras em busca de luz."

Uma das primeiras falas no bate papo foi relacionado com o fato de Renato Russo ser um visionário. Os comentadores prometiam que os leitores levariam um grande susto ao perceber que Renato tinha escritos muito bem planejados para serem publicados e lidos no futuro. Um plano ou uma meta para tempos dos quais ele infelizmente não participaria. Essa foi uma grande verdade, porém bem assombrosa. É impressionante o quanto o diário é atual. Poderia estar sendo escrito exatamente nesse instante. Renato e suas vontades são tão atuais que nos esquecemos que já se passaram 22 anos desde que ele encostou a caneta no papel e pensou naquelas palavras.

Algo que sempre senti em relação ao cantor e que foi confirmado no livro é que, apesar de toda sua genialidade, ele era muito "gente como a gente". São as mesmas angústias, as mesmas dores de amor, os mesmos cansaços, as mesmas frustrações com os amigos. Quem nunca se pegou decepcionado por achar que faz muito por aqueles que ama e recebe pouco em troca? A grande diferença é que como era poeta, sentia tudo isso muito a flor da pele e não conseguia encarar tão bem como a maior parte das pessoas. Renato não se conformava e não aceitava a mediocridade das relações, seja com namorados, amigos ou família -o que o torna uma pessoa incrível, afinal, ninguém aplaude gente média.

Apesar desses escritos pro futuro, em uma mesma folha de papel Renato poderia marcar letras de músicas a serem gravadas, confissões dos seus dias ou roteiros para falar nas terapias de grupo. Ou seja, ao mesmo tempo em que o livro publica exatamente aquilo que ele queria publicar, expõe aquilo que talvez ele não desejasse que todos soubessem, o que me causa grande angústia. Pode parecer uma grande contradição, mas as poucas entrevistas e aparições públicas demonstram o quanto Renato fazia de tudo para não aparecer e preservar sua identidade. Provavelmente ele se reviraria no túmulo se pudesse ver todos os seus rascunhos na lista de mais vendidos por semanas consecutivas.

Entretanto, reclamar da publicação de "Só por hoje e para sempre" seria uma grande hipocrisia minha. Amei ler todas as feridas abertas de Renato. Só quem é realmente fã pode entender o prazer e a alegria de ter certeza das suas semelhanças com seu ídolo. Eu ainda sorrio e morro de raiva quando lembro que um dos maiores sonhos de Renato Russo era dirigir um filme sobre "Capitães da Areia" (Renato Russo + Jorge Amado = Natália mortinha de tanto amor).

Uma das minhas maiores crenças é que tudo acontece por um motivo específico e sou muito grata pelo Renato Russo ter vivido. Ele muda minha vida todos os dias e a de milhares de outras pessoas, conectadas pelo amor a 3 acordes e uma boa poesia. Só por hoje e para sempre: comprem, leiam e guardem no melhor lugar da estante. Nós somos a Legião, nós merecemos <3


Na festa e nas livrarias estão disponíveis alguns carimbos para "autografar" o livro com a assinatura do Renato



PS: ultimamente tenho usado bastante o Snapchat! No dia da festa mostrei tudo o que estava acontecendo por lá. Meu usuário é: nataliaassarito. Me sigam! <3


domingo, 16 de agosto de 2015

Filosofia - Ascenso Ferreira

Theodore Frank

(A José Pereira de Araújo - "Doutorzinho de Escada")

Hora de comer - comer!
                            Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!

Hora de trabalhar?
-Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Ascenso Ferreira

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Toda Saudade do Mundo: A correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai (resenha)

Hoje é dia de Jorge. Em 10 de agosto de 1912 nascia, em Itabuna, Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e meu autor preferido da vida toda <3 Vocês sabem o quanto me faz feliz ler seus livros, ao meu ver não há quem produza linhas e palavras mais brasileiras. Ao mesmo tempo em que foi capaz de elaborar romances de denúncia, expondo as mazelas sociais dos indivíduos do seu tempo, era capaz de produzir narrativas gostosas, divertidas e repletas de personagens cômicos, os quais podiam muito bem ser nossos vizinhos ou algum conhecido de nosso cotidiano.

Como tenho muito interesse pelo seu trabalho literário, desenvolvi também gosto e curiosidade sobre sua vida (já falei um pouquinho sobre sua biografia nesse post aqui). Penso que entre todos os leitores de Jorge -ao menos entre os românticos- haja uma uma espécie de adoração pelo relacionamento dele com Zélia Gattai, sua segunda esposa e companheira até os últimos dias. Desde que se conheceram, todas as dedicatórias dos livros de Jorge Amado envolvem Zélia, sendo pequenas lembranças e pedaços de fragmentos que contam suas histórias. Por exemplo, na dedicatória de "Gabriela, Cravo e Canela" está escrita uma pequena estrofe, "Para Zélia seus ciúmes/ seus cantares, suas penas/ o luar de Gabriela/ e a cruz do meu amor"; enquanto que em "Tieta do Agreste", a dedicatória é "Para Zélia rodeada de netos", marcando a passagem do tempo e da vida do casal.

Preciso confessar que não tinha conhecimento da coletânea de correspondência do casal de escritores, elaborada pela Companhia das Letras, ou seja, quando ganhei de presente de dia dos namorados, fiquei radiante de felicidade. Essa é uma daquelas edições que sou muito grata por alguém ter pensado em fazer, uma vez que, além de proporcionar aos fãs conhecer um pouco mais sobre a vida íntima de Jorge e Zélia, possibilita acompanhar a história do mundo de 1948 à 1967 narrada por nada menos do que essas figuras incríveis. Outro componente incrível são as fotografias das cartas originais e cartões postais, selecionados com muito cuidado e carinho com os leitores.

Não é segredo para ninguém que Jorge Amado era comunista: seus romances possuíam grandes críticas diretas ou indiretas ao governo Vargas, o qual respondeu com represálias, obrigando o autor a ir viver na Europa. Grande parte das cartas compreendem esse período em que viveu inicialmente na França e Zélia no Brasil (porque tinha grandes dificuldades em relação ao visto de emigração e ao fato do filho mais velho do casal, João Jorge Amado, ser muito novo para uma viagem transatlântica). Nunca imaginei que o casal passou tanto tempo separado, pois, além do exílio, Jorge era muito famoso, tendo diversos compromissos literários e políticos. Contudo, as cartas revelam uma grande sintonia e companheirismo entre os dois, apesar dos ciúmes de Zélia gerados pelas prováveis escapadas do marido (em diversos trechos Jorge se explica e a tranquiliza sobre questionamentos acerca de suas secretárias, editoras, tradutoras e professoras de idiomas).

Apesar de amar o casal e ficar encantada com a narração de momentos históricos, como a morte de Gandhi, por exemplo, o que mais me encantou foi observar o processo criativo e nascimento de personagens muito importantes para a literatura e cultura nacional, como Dona Flor, Vadinho e Theodoro, do romance "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Jorge muitas vezes ficava recluso para a produção de seu trabalho, trocando cartas com a amada em que descreve a quantas andava seu processo criativo.

"Dona Flor: essa senhora vai indo. As últimas duas cenas da quarta parte saíram logo, a primeira facilmente, num dia, a segunda custando-me quatro dias: também era a chegada de Vadinho. Comecei a quinta parte, estou fazendo hoje a primeira cena, está escrita em bruto, faltando reescrever. Mas agora estou nos problemas dessa quinta parte que é fogo. Enfim, vamos ver se tenho -como é meu desideratum- o livro pronto e entregue antes de viajar." 

Imagino que entre os admiradores de Jorge Amado e Zélia Gattai não seja difícil despertar o interesse na leitura de "Toda Saudade do Mundo". A começar pelo título maravilhoso, não há maneira melhor de se conhecer uma pessoa do que uma biografia contada em detalhes corriqueiros pelo próprio indivíduo. Saber que Zélia tinha ciúmes e que Jorge tinha medo de avião me fez sentir um pouquinho próxima a eles e não há nada mais divertido do que descobrir semelhanças com seus ídolos. Jorge e Zélia tinham um amor sólido, um carinho construídos aos pouquinhos, durante todos os seus dias juntos, independentemente de que lugar do mundo estavam no momento. Dessa forma, o livro é um presente por nos permitir ser testemunhas de uma história tão bonita. 







Outras resenhas de livros do Jorge Amado:


domingo, 9 de agosto de 2015

O Poeta Come Amendoim - Mário de Andrade e o Modernismo

"Retrato de Mário de Andrade" - Tarsila do Amaral (1922)

Mastigado na gostosura quente de amendoim
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem nascidas
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
Mario de Andrade




"Retrato de Mario de Andrade" - Cândido Portinari (1935)
* Minha nossa, Nat, Mário de Andrade de novo?! Sim, porque não canso de amar esse escritor incrível que por uma benção dos céus voltou à moda por ter sido o homenageado da Flip desse ano e pelo lançamento de um livro inédito, intitulado "Café" (sempre fico imaginando editores e editoras "cavocando" tudo o que for possível até encontrar um romance inédito de alguém morto há 70 anos). Não apenas pelas palavras e escritos amo Mario, mas pela sua personalidade como um todo, ou melhor, pelo pouco que nos deixam conhecer dela.

Semana passada tive em meu curso da Pinacoteca uma aula cujo título era "Os Modernistas", nome usualmente dado para os artistas que trouxeram arte de vanguarda para o Brasil, principalmente os que participaram da Semana de 22. Dentre os modernistas mais famosos, havia o "clube dos cinco", formado por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, amigos inseparáveis que viveram a São Paulo do começo do século XX. Não tão rico como os companheiros, mas não tão pobre como a maioria dos paulistanos da época, enquanto os outros membros do "clube dos cinco" executavam a chamada arte moderna, Mario pensava e teorizava o movimento que revolucionou a expressão artística no país - meu professor chegou a brincar que nenhuma outra personalidade possui tantos retratos, pois era próximo e querido por muitos pintores, sendo que através desses retratos podemos notar o estilo de cada artista e, consequentemente, as variações modernistas.

"Retrato de Mário de Andrade" - Lasar Segall (1927)
Durante a aula muitos pontos da vida e dos ideais de Mário me chamaram atenção. O primeiro deles é como sua homossexualidade é tratada como tabu até hoje. A Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, possui todo o acervo de cartas trocadas entre o autor e Manuel Bandeira, contudo, apenas uma estava inacessível ao público: a que Mário cita de maneira discreta e elegante sua orientação sexual. Na briga judicial para liberar a carta, a Casa alegou defender a privacidade e intimidade do escritor. Porém, o que acho engraçado é ninguém se importar em defender a intimidade do mesmo ao publicar um livro que ele mesmo não quis publicado (afinal, esse é o caso de 90% das obras póstumas) ou de não tomarem todos esses cuidados ao exporem a vida de qualquer outro heterossexual, como Oswald de Andrade, por exemplo. Acredito que seja muito importante para compreensão do trabalho de todos os artistas conhecer sua biografia.

O outro aspecto que me encantou em Mário de Andrade é o fato dele nunca ter saído do Brasil, mesmo com todas as possibilidades. O autor gostava de ser brasileiro e viajou pelo país inteiro, conhecendo cada canto e cada particularidade. Sempre me entristece observar a síndrome de vira-lata constante entre nossos conterrâneos. Assim como Mário, acredito que não existe nesse mundo lugar para mim que não o Brasil. E, por amar literatura nacional, não há outro escritor mais brasileiro do que aquele que escolheu nunca sair daqui nem para dar um passeio. <3

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Poema Enterrado - Ferreira Gullar




Preciso confessar que estava com saudade de postar poesias/ poemas aqui no Aborto Literário. Essa semana estou fazendo um curso especial na Pinacoteca do Estado de São Paulo, o qual trata da construção de uma vanguarda brasileira. Essa vanguarda envolve o neoconcretismo, movimento que ocorreu entre 1959 e 1961, tendo como um dos seus principais expoentes Ferreira Gullar. 

O esquema acima trata de uma das mais famosas intervenções do artista: o poema enterrado. A obra consiste na abertura de uma caixa vermelha, a qual em seu interior possui uma caixa verde que, por sua vez, contém uma caixa branca. Quando se abre a caixa branca, lê-se no fundo a palavra "rejuvenesça". A minha explicação é muito leiga e simplista, mas fiquei encantada com as múltiplas possibilidades que essas caixas abrem. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Estação Atocha - Ben Lerner (Resenha)

Minha segunda entrega da Rádio Londres começou incrível desde a capa até a última página. Estação Atocha era um livro que estava ansiosíssima para resenhar e ler, sendo a minha primeira solicitação da editora. O enredo gira em torno de Adam, um bolsista americano que vai para Espanha escrever poesia sobre a guerra civil, mas que durante toda narração apresenta dúvidas existenciais e desacredita na sua própria capacidade de produzir algo relevante artisticamente. 
"Um anti-herói que me entreteve e me deixou horrorizado ao mesmo tempo." David Nicholls

Adam Gordon é o protagonista e narrador do romance de estreia de Ben Lerner, autor de livros de poesia premiados (e que também viveu um tempo na Espanha como bolsista, ou seja, há possibilidades de grande parte das questões evocadas pelo personagem serem derivadas doa experiência do autor no país). A obra é dividida em 5 partes bem características; em cada uma podemos observar uma etapa da produção intelectual de Adam, a qual está intrinsecamente ligada aos acontecimentos cotidianos de sua vida e de sua incansável busca por uma transgressão que nunca chega.

O protagonista inicia a narrativa questionando se é possível que alguma forma de arte tenha relevância a ponto de modificar a vida de alguém e, além disso, se ele mesmo poderia escrever algo que honrasse a bolsa que ganhou e as expectativas da instituição que o bancava em Madri. Sempre com um ar entendiado, Adam, uma das personagens mais contraditórias de toda literatura, tenta convencer constantemente o leitor que acredita em certos aspectos que na verdade refuta. Por exemplo, em um dos primeiros pontos do romance explica que nunca escreveria prosa, contudo, em um olhar atento, o leitor percebe que ele nada faz além de tentar criar em torno de si uma lenda de "anti-herói" despatriado, sempre querendo chamar atenção e despertar sentimentos ambivalentes. 

Apesar de ser um poeta, são poucas as passagens em que comenta ter tido inspiração ou escrito algo, justamente porque defende que grandes inspirações não passam de farsa e tentativas frustradas por parte dos autores. Essa sinceridade crítica acaba em muitos aspectos prejudicando sua produção, cuja genialidade é confirmada por alguns outros personagens durante o desenrolar das páginas. 

Adam também pode ser considerado um "anti-herói" não só por tentar convencer o leitor de sua mediocridade, mas pelo seu desinteresse por questões relevantes dentro do contexto histórico em que vivemos. Além disso, durante grande parte da narrativa está drogado após ter feito uso de haxixe ou de calmantes e tem uma relação amorosa repleta de conflitos com duas mulheres simultaneamente, Isabel e Tereza.

Fiquei encantada pelo protagonista de Ben Lerner não só pelo seu esforço de prender o leitor, porém pelo fato dessa personagem tão conflituosa ser um grande retrato da juventude "intelectual" contemporânea. O não pertencimento, o deslocamento dentro de grupos sociais e a angústia por escrever algo que faça sentido e seja importante na vida do outro, quando não se consegue entender ainda o que seria relevante na própria vida, não são características solitárias desse personagem. Estação Atocha, apesar da linguagem tranquila, não é uma leitura simples, despertando indagações que muitas vezes, assim como Adam, custamos em deixar para lá. 




A capa e o marcador mais bonitos da minha estante <3


Links da Rádio Londres:

Telefone: (21)2544-3092
E-mail: info@radiolondreseditores.com
Twitter: @radiolonlivros

sexta-feira, 17 de julho de 2015

São Paulo: Anima Mundi 2015



Já virou tradição: todos os anos, desde o começo do nosso namoro em 2012, eu e o Fê vamos ao Anima Mundi! Nós, assim como a maioria de vocês, adoramos animações e, portanto, esse festival nos deixa infinitamente feliz. O Anima sempre conta com diversas atividades interativas para toda família e é um evento extremamente educativo, agradando desde crianças até idosos.

Apesar de animações, as sessões são divididas entre adultos e crianças porque os curtas sempre têm uma peada mais filosófica, com várias mensagens subentendidas e lições de vida implícitas. Como não tenho nenhuma criança na família, nunca assisti aos filmes infantis, mas confesso que tenho muita vontade de conferir o que é exibido aos pequenos (talvez esse ano faça isso!). Além disso tudo, sempre rolam concursos e premiações dos melhores curtas escolhidos pelo público, uma forma de nos conectar com o que é feito e aprenderem sobre nossos gostos. 

Algo que me deixa bastante entristecida em relação ao Anima Mundi foi a perda do patrocínio da prefeitura e do governo de São Paulo (eu até mandei um e-mail pra prefeitura perguntando o por quê disso, mas ninguém me respondeu :/) no ano passado. Lembro que o evento acontecia em vários pontos turísticos da cidade, como no Memorial da América Latina, onde aconteciam várias oficinas para as crianças. Hoje os curtas são exibidos em algumas salas de cinema específicas, o que não diminui, de forma alguma, a qualidade dos filmes. 

Parece loucura, mas a melhor forma para incentivar novos patrocinadores é deixar a preguiça de lado e prestigiar o Anima Mundi! O evento vai de hoje, dia 17, até 22 de julho na Cinemateca Brasileira e na Caixa Belas Artes. O site está bem explicadinho e a organização lançou um aplicativo com a programação completa. 




Anima Mundi 2014 <3


PS1: A Prefeitura de São Paulo voltou a patrocinar o Anima Mundi em 2015 \o/
PS2: Fui na estreia e o festival está absolutamente incrível!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Leituras de Férias: metas de julho!




Julho trouxe as férias e eu adoro esses dias livres para poder organizar tudo o que ficou bagunçado durante o ano. Sobra tempo para sair, viajar, namorar e, claro, colocar as leituras em dia e investir em estudos diferentes do que estou acostumada ao longo do semestre. Vi muitos canais mostrando as metas de leitura do mês e resolvi gravar também, ainda que exagerando bastante nos meus objetivos, hehe. 





Como vocês viram, é realmente bastante coisa. Porém, hoje é dia 15 e já concluí a leitura de 3 dos títulos selecionados (vocês só saberão quais no fim do mês, afinal, não tem graça sem mistério!). Nesse ritmo, com certeza terminarei mais da metade da lista, o que vai me deixar bastante feliz haha <3  Não se esqueçam de comentar aqui embaixo quais são suas metas de leitura dessas férias, vocês sabem que eu amo saber!

*PS: quem me segue no instagram (@nat_assarito) viu que ontem eu comprei um mega tripé para melhorar a qualidade dos vídeos, ou seja, pretendo sim continuar gravando e estou adorando as sugestões que os leitores estão me dando. Não se esqueça de se inscrever no canal do youtube para ver os vídeos antes de todo mundo <3

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Livros de junho! {Book Haul e leituras em vídeo!}



Eu nem consigo acreditar: junho não passou rápido, foi vomitado! Não sei como vocês sentiram essa passagem de mês, mas, da minha parte, tomei um susto quando olhei no calendário e vi que estou escrevendo essas linhas dia 8 de julho. Fico pensando que isso deve ter a ver comigo me sentindo cada vez mais velha, o que possibilita ao tempo que me atropele... E por isso mesmo tenho que pedir desculpas por estar tão ausente ultimamente. A vida anda dessas confusões sem fim e quando pisco, já foi. Porém, nada melhor do que férias para reorganizar meus hábitos de leitura e escrita, não é mesmo?

Mês passado, além de corrido em todos os aspectos, foi fechamento de semestre na faculdade. Aí já viu, desespero generalizado para não pegar recuperação em nada (e nesse ciclo ainda tive estatística, ou seja, perdi um tempão de vida fazendo contas --"). Acabou que eu não li tanto quanto queria, contudo, minhas duas leituras foram bem proveitosas e acabei conversando um pouquinho sobre elas no vídeo. Além disso, ganhei presentes lindos e um livro incrível da parceira do Aborto Literário, a Rádio Londres.





Leituras Finalizadas (na ordem em que foram lidas)

  • Sobre a questão judaica - Karl Marx
  • Toda Saudade do Mundo: a correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do exílio europeu à construção da casa do Rio Vermelho (1948-67) - Organização: João Jorge Amado.

Presentes

  • Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo (com tradução de Machado de Assis)
  • Coleção Os Pensadores: Adorno

Editora Parceira (Rádio Londres)

  • Estação Atocha - Ben Lerner





Esse é o Júpiter, meu novo porquinho da Índia ganhado em junho! <3



*Como disse no vídeo, queria muito atualizar o canal uma vez por semana nesse mês. Por isso, seria muito muito muito legal se vocês me dessem sugestões do que gravar e se inscrevessem por lá (e por aqui também, se tiverem um blog). Estou com muita vontade, de verdade, de conhecer booktubers e blogueiros novos, que fujam de todo esse "profissionalismo" que tá tomando conta da internet. Porque, sei lá, acho muito bonito tentativas amadoras mesmo de entrar em contato com o outro e incentivar leitura <3 Então, por favor, não deixem de me deixar comentários com dicas e o endereços dos seus canais e blogs também! Espero que todos tenham um mês lindo e descansem bastante <3

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Vinte e um





Mãe,
Sei que cê já tá cansada
De todas as coisas que tento te falar
E você não dá bola
E você me ignora

Meus amigos tão carecas
E eu achei um vaso na minha perna.
Preciso te gritar

Cê me contou tanto dos seus dezesseis
Que eu achei que os meus nunca iriam chegar
São cinco anos atrasados
Cinco desesperos bem lembrados

Emprego que não veio
Em uma profissão incerta

Mil descargas de adrenalina
Toda ansiedade que me
Prende

Um amor desiludido
E uma Vênus em escorpião

De uma vida de esperas
Pra completar toda essa merda

Mãe,
Eu preciso aprender a lidar
Mas como é bom deixar pra lá

E nunca mais pensar...
Nunca mais pensar.
Também preciso aprender a ignorar

Natália Assarito

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Wishlist: Dia dos namorados!




O tão falado e esperado 12 de junho está chegando e cá estou eu para ser cupida e te ajudar a não fazer feio no presente do namorado ou namorada, haha! Fiz a seleção de livros que já pesquisei bastante e desejo, ou já li e sei que é bom. Tentei balancear os gostos e os gêneros, tentando ao máximo ser imparcial. Espero que gostem das sugestões e que invistam em livros para agradar a pessoa amada, afinal, dar um livro a alguém é, acima de tudo, um elogio! <3


  • Cartas Extraordinárias
Confesso que essa é uma das minhas maiores querências atuais, até coloquei lá no meu perfil do SkooB. Cartas Extraordinárias é uma seleção incrível de correspondências memoráveis, tanto por serem escritas por celebridades ou políticos (como a Rainha da Inglaterra, Fidel Castro, Leonardo da Vinci, Virginia Woolf...), quanto pelo conteúdo incrível que algumas possuem. A diagramação e a edição do livro são maravilhosas, com fotos das cartas originais, a transcrição ao lado e pequenos adendos explicando o contexto em que foram escritas. Sempre que vou a alguma livraria fico um tempinho lendo algumas cartas (se bobear, já li grande parte do livro haha). Mas, sempre desisto de comprar por motivos óbvio$$$, hehe. Seria um presentão que dificilmente alguém se decepcionaria ao ganhar!


  • A Casa dos Espíritos - Isabel Allende
Recentemente assisti um vídeo-resenha da Tati Feltrin e desde então não tiro da minha cabeça a vontade de lê-lo (spoiler: vai rolar desafio aqui no Aborto Literário com ele na escalação! hehe). O enredo trata de 3 gerações de mulheres, mãe, filha e neta que vivem o golpe ditatorial chileno e suas consequências no tempo. O filme, estrelado por Meryl Streep é simplesmente brilhante e entrou para minha lista de preferidos da vida! Para quem curte história, América Latina e romance não tem erro, A Casa dos Espíritos é outro presentão!




  • Sobre a Escrita - Stephen King
Imagino que todos que são fãs de Stephen King estão curiosos com um dos últimos lançamentos da Suma de Letras, Sobre a Escrita. Além de ter uma parcela muito forte autobiográfica, na qual o autor conta grande parte de sua infância e juventude, King também dedica uma parte do livro para ensinar todos aqueles que desejam escrever melhor. Não sei vocês, mas a mim me parece muito interessante a possibilidade de aprender dicas de um escritor tão incrível e bem sucedido. Apesar desse livro ter um estilo mais biográfico e teórico, qualquer livro de Stephen King é um excelente presente! Simplesmente amo as histórias de terror e sempre que leio um livro dele, não consigo parar. Cada detalhe entra no nosso imaginário e fica lá por um bom tempo <3




  • O Sol é Para Todos - Harper Lee
O Sol é Para Todos é o presente sem erro para o namorado (a) que adora ler um clássico! Eleito um dos 100 melhores romances americanos, o livro tem a fama de se tornar favorito dos leitores. Tendo como cenário a crise de 1929, a história coloca em debate racismo, intolerância e justiça... Não fosse só esse enredo incrível, ainda descobri que é o romance preferido da Mel Ferraz, do blog Literature-se. Ou seja, não preciso falar mais nada, não vejo a hora de poder ler O Sol É Para Todos. <3

  • Stoner - John Williams
Acho até meio difícil alguém ainda não ter ouvido falar de Stoner, do autor John Williams, "contemporâneo" com ar de quem vai virar um classicão em breve! O livro narra a história de William Stoner, homem de origem camponesa e que já estava conformado em ter o mesmo destino dos pais quando resolve se tornar professor universitário de literatura. Quando a Rádio Londres me propôs parceria, fiquei muito feliz porque sabia que era a editora que publicava Stoner. A segunda edição está incrível e eu estou desejando logo solicitar a minha! <3







  • Box de Harry Potter, edição de colecionador
Escolhi Harry Potter apenas para ilustrar, mas tenho certeza que não existe presente mais arrebatador de corações do que um box da de livros,  filmes ou seriados preferidos do seu amor. Ganhar um presente desse é quase que um pedido de casamento, hehe <3











*Espero que as dicas ajudem aqueles que ainda estão desesperados sem saber o que comprar (eu imagino que vocês sejam muitos). Mas, óbvio, que além do presente, o que importa é o clichezão do amor! hahaha Que o dia 12 de vocês seja cheio de beijos e carinhos e Caetano Veloso <3

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Livros de maio! {Book Haul em vídeo incrível e maravilhoso haha}




Maio acabou e com ele chegou esse mês mais maravilhoso da vida que é junho, sinônimo de São João e fogueiras e camisas xadrezes e paçoca e pamonha e tudo o que é feliz! Nossa, fico tão alegre só de imaginar quanta coisa boa ainda está para acontecer nesses próximos dias <3  Como estou superlotada de tarefas (tive várias provas nesse mês), quase não consegui postar aqui, o que me entristece bastante. Para compensar, finalmente tirei a vergonha de mim e fiz o melhor e mais divertido vídeo que consegui! Vocês sabem que gravo com meu celular e não tenho a melhor iluminação e estrutura para as filmagens, mas sempre faço de coração e fico muito feliz com essa proximidade com meus leitores. 







Leituras Concluídas

  • O Suicído - Émile Durkheim
  • A Democracia na América - Tocqueville
  • Carcereiros - Drauzio Varella
  • Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - J. K. Rowling

Leituras em Andamento

  • Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa

Compras

  • As Formas Elementares da Vida Religiosa - Émile Durkheim
  • A Democracia na América - Tocqueville







*Amores, espero que vocês tenham gostado do vídeo e das minhas leituras! Se vocês estiverem curtindo e quiserem mais posts assim e mais movimentação no youtube, não esqueçam de curtir, se inscrever e comentar aqui e lá no canal! Tenham um mês incrível <3

domingo, 31 de maio de 2015

Olha pro céu - Luiz Gonzaga

Imagem retirada do WeHeartIt.com


Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xóte, baião no salão
E no terreiro

O teu olhar, que incendiou
Meu coração!


Luiz Gonzaga





*Junho + São João + Forró + Felicidade chegaram! <3

terça-feira, 26 de maio de 2015

Carcereiros - Drauzio Varella (Resenha)

Terminei 2014 com a leitura incrível de Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, e comecei 2015 fazendo uma resenha detalhada do livro e de todas as conexões que consegui fazer através dele. Não é exagero dizer que os relatos mexeram verdadeiramente comigo. Imagino que com vocês também seja um pouco assim, mas,quando leio uma história que gosto, demoro um tempo a mais do que a última página para desapegar. São diversos os motivos que me atraem: a proximidade da antiga Casa de Detenção com a minha própria casa, a curiosidade sobre vidas e caminhos tão diferentes dos meus, a discussão acerca da maioridade penal...

Dr. Drauzio inicia a narrativa de "Carcereiros" descrevendo justamente sua atração pelo mundo do crime desde pequeno. Como expõe durante o livro, apesar dos presídios, assim como o Carandiru, muitas vezes se localizarem fisicamente no centro das grandes cidades brasileiras, a distância entre o que acontece dentro de suas muralhas, seus "moradores" e leis, é imensa em relação ao resto da sociedade. Ninguém sabe ao certo o que acontece dentro de uma penitenciária...  As pessoas não se interessam,os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e o não se interessa, os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e outro preso? Comparando as duas obras, pude perceber que fator condicionante é a família durante a juventude. Boa parte dos carcereiros entraram nessa profissão justamente como uma medida última de pais desiludidos e presentes. Raramente se lê em "Carandiru" a presença ativa dos pais na educação dos infratores (por diversos motivos, como por exemplo o abandono dos pais que obrigava as mães desses indivíduos a trabalharem o dobro do que normalmente trabalhariam).

Muito do que é descrito em "Carcereiros" já foi exposto no volume anterior, o que permite ver os "dois lados da mesma história" -como o bandido vê determinado acontecimento desastroso e como o carcereiro observa o mesmo fato. A possibilidade desse viés diverso é um dos fatores que torna o livro incrível e a leitura extremamente agradável.

Além disso, "Carcereiros" coloca em reflexão uma questão atual. Nos últimos capítulos, Drauzio Varella faz uma conta básica para demonstrar como o sistema carcerário brasileiro é, antes de tudo, falido. Hoje discutimos se diminuímos a maioridade penal para os 16 anos, colocando jovens infratores nas mesmas prisões que adultos criminosos. Porém, em um momento anterior à esse debate, em 2012, quando o livro foi escrito, o autor provou que seria impossível construir presídios suficientes apenas para os adultos que já viviam em penitenciárias naquele ano.

O médico deixa claro que a questão discutida não deveria girar em torno de prender mais pessoas, mas, sim, prender melhor e garantir educação para que cada vez menos sejam necessárias penitenciárias e Casas de Detenção. Hoje quem comete um crime é enjaulado em celas insalubres, não aprende de modo algum um ofício dentro das detenções e vive dentro de uma escola do crime. Amanhã, ao final da pena, esse indivíduo será solto e retornará ao convívio social, com as mesmas carências de quando entrou, mais dificuldades para encontrar um emprego (por ser ex presidiário) e pós doutor em tudo o que é ilegal. O nosso erro (meu, seu, da sociedade, dos empresários, da economia) está em desprezar essas pessoas desde o berço e esperar que cresçam e se regenerem sozinhas. 

No geral, "Carcereiros" é uma narrativa mais leve e breve do que "Carandiru". Os fatos narrados não são totalmente explorados, por se tratarem de amigos pessoais do autor, contudo, não diminui a qualidade do livro. Uma das sensações mais fantásticas da vida é poder sair um pouco de si e adentrar o olhar do outro. Minha indicação é quase um apelo: leiam Carcereiros e Carandiru. Apenas através da pesquisa, da leitura e dos estudos podemos entender o momento histórico importante que estamos vivendo. E a única coisa mais digna  que ser um homem e uma mulher do seu tempo é ser um homem e uma mulher à frente do seu tempo.



domingo, 24 de maio de 2015

Extravio - Ferreira Gullar



Onde começo, onde acabo, 
se o que está fora está dentro 
como num círculo cuja 
periferia é o centro? 

Estou disperso nas coisas, 
nas pessoas, nas gavetas: 
de repente encontro ali 
partes de mim: risos, vértebras. 

Estou desfeito nas nuvens: 
vejo do alto a cidade 
e em cada esquina um menino, 
que sou eu mesmo, a chamar-me. 

Extraviei-me no tempo. 
Onde estarão meus pedaços? 
Muito se foi com os amigos 
que já não ouvem nem falam. 

Estou disperso nos vivos, 
em seu corpo, em seu olfato, 
onde durmo feito aroma 
ou voz que também não fala. 

Ah, ser somente o presente: 
esta manhã, esta sala. 


Ferreira Gullar