terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Estação Carandiru, de Drauzio Varella - Resenha





Minha última leitura de 2014 foi Estação Carandiru, livro primorosamente escrito pelo médico Dr. Drauzio Varella, o qual trabalhou a partir de 1989 com a prevenção da AIDS e tratamento dos doentes no, então, maior presídio da América Latina. Eu nasci e cresci na zona norte de São Paulo, sendo minha casa, a dos meus parentes e do meu namorado bem próximas ao local em que se localizava a Casa de Detenção. Apesar de ainda ser criança quando a penitenciária foi implodida, guardo algumas vagas lembranças e uma curiosidade latente sobre o que acontecia lá. Talvez seja minha alma de cientista social falando, mas o Carandiru chegou a abrigar mais de 7000 presos e não saber absolutamente nada sobre o universo, rotina e regras que norteavam a vida desses meus vizinhos me corroía por dentro. Consegui comprar meu livro em uma banquinha de usados da USP por apenas R$10 e logo comecei a leitura.





                Apesar de já ter assistido algumas vezes versões cortadas do filme na tevê, não recordava nada da história e até estranhava o fato de ser um médico o narrador. A estranheza foi boa porque me trouxe surpresas maravilhosas. Se eu fosse definir o livro em uma palavra, seria violento. Muitos trechos chegam a ser repugnantes, deixando-me de boca aberta.
                Varella inicia sua escrita descrevendo o ambiente do presídio e suas sensações ao também se ver privado da liberdade durante o trabalho. As condições sanitárias são o primeiro momento de choque. Torna-se quase impossível imaginar como um local que deveria educar um indivíduo para que ele pudesse viver em sociedade pode ser tão insalubre. Uso a palavra educar porque no decorrer das páginas percebemos que aqueles protagonistas nunca foram inseridos na sociedade, uma vez que já nasceram e foram criados em locais cuja realidade é completamente diferente do que costumamos nomear como a nossa. Aquela velha história que sempre ouvi nas músicas da RAP se confirma: quem não entra, sai da cadeia bandido.
                O presídio que deveria comportar menos de 4000 indivíduos era superlotado, tendo celas com mais de 20 pessoas que dormiam amontoadas. Tuberculosos não tinham assistência e transmitiam a doença para os demais, além de que, antes da chegada do médico com seu projeto, não havia nenhum programa de prevenção à AIDS, uma epidemia que se alastrava entre os detentos. As primeiras páginas despertam uma sensação de desespero e compaixão muito grandes, a qual, com o desenrolar da história, acaba se tornando um pouco contraditória.
                Varella percebeu que apenas palestras sobre AIDS não ajudariam na situação dos presos que morriam aos montes sem receber nenhum cuidado. Seria necessário uma equipe ambulatorial disposta e bem paga para aceitar trabalhar naquelas condições, o que era impossível, devido à ausência de verba do governo. Assim, o médico escolheu se voluntariar e exercer seu ofício sozinho, apenas com ajuda de seus assistentes detentos, correndo risco de contrair inúmeras doenças ou ter sua segurança e integridade física arriscadas.
“O impasse tinha duas soluções: parar de ir à cadeia ou encontrar um horário para atender os doentes, organizadamente. Prevaleceu a segunda alternativa. Aquele mundo havia entrado em mim, era tarde para fugir dele.” (P. 80)
                Em seu consultório, Dr. Drauzio se tornou amigo de muitos presos, curando inúmeros e ouvindo suas histórias de vida, cada uma transcrita em um capítulo,  os quais eram, muitas vezes, ditados pelos próprios detentos. A vida dos presos antes da Detenção e o estilo de vida fora das grades é outro motivo de choque para o leitor.
                Fiquei boquiaberta em observar como para muitos o crime é apenas um trabalho como qualquer outro e as armas um meio de produção. Enquanto são maridos e pais exemplares, alguns não hesitam em matar se acharem necessário, uma vez que essa é a maneira que encontraram para garantir uma vida “digna” para suas famílias. Tão estarrecedor quanto adentrar essa visão banal da vida é perceber que muitos jovens que cometiam furtos, pequenos assaltos ou tráfico de maconha eram jogados ( e ainda são nos presídios espalhados pelo Brasil) com indivíduos que cometeram crimes graves. É óbvio que essa convivência nunca seria benéfica, corrompendo aqueles que entraram com penas leves.
                As drogas se tornaram outro problema forte do Carandiru. A maior parcela dos presos era viciada e a cocaína injetável se tornou o maior fator transmissor de AIDS entre os detentos. Com as massivas campanhas de Varella contra o vírus da doença, os presos concluíram que era melhor deixar de aplicar cocaína na veia e substituí-la pelo crack. Obviamente, apesar de não ser essa a intenção do médico, o número de doentes decaiu drasticamente após a cocaína perder espaço.
                Um dos fatos que mais chamam atenção no livro é a exposição das regras criadas e obedecidas pelos próprios detentos dentro da Casa. Em resumo, o preso nunca poderia perder o respeito perante o resto da comunidade e, sendo assim, se alguém o desrespeitasse, era sua obrigação matá-lo. Essa pena arbitrária de morte é tão assustadora quanto os motivos que as originavam. Na maioria dos casos, dívidas de droga que dificilmente passavam dos R$30 era a principal razão dos crimes e essa lógica de respeito acabava complicando a ficha que quem havia cometido delitos leves, uma vez que a política de matar o morrer acabava aumentando o tempo de pena.
“Neste livro, procuro mostrar que a perda de liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, ao contrário do que muitos pensam. Em cativeiro, os homens, como os demais grandes primatas (orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos), criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo. Esse processo adaptativo é regido por um código penal não escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas leis são aplicadas com extremo rigor:-Entre nós um crime jamais prescreve, doutor.” (P.10)
                Com toda certeza, o ápice do livro é a narração do Massacre ocorrido no dia 2 de outubro de 1992. Na Detenção estava rolando um campeonato de futebol entre os presos, evento comum e que gerou problemas. Porém, nesse dia fatídico uma briga boba tomou proporções maiores e desencadeou uma rebelião (não se sabe ao certo qual o motivo da confusão, algumas testemunhas afirmam que começou por causa de um espaço no varal). Como boa parte dos detentos não perceberam o que ocorria por estarem no jogo, não puderam tomar posição para se defenderem de uma provável invasão policial.
                O Choque (ROTA) chegou para “conter os ânimos” no meio da tarde, desrespeitou o diretor da Casa que tinha conseguido fazer com que os detentos entregassem as armas e passou por cima das bandeiras brancas exibidas pelos próprios presos, invadindo o pavilhão 9, onde ficavam os réus primários, ou seja, que foram presos pela primeira vez, e:
“-Um polícia abriu o guichêzinho da porta, enfiou uma metralhadora e gritou: Surpresa, chegou o diabo para carregar vocês para o inferno! Deu duas rajadas pra lá e pra cá. Encheu o barraco de fumaça, maior cheirão de pólvora. Só fui perceber que estava vivo quando senti um quente pingando nas costas. Era sangue, na hora até pensei que fosse meu. Olhei para os parceiros, tudo esfumaçado, furado de bala, pondo sangue pela boca. Morreram onze, escapei só eu, com um tiro de raspão no pescoço , e um companheiro da Cohab de Itaquera, ó, ileso, maior sorte.”
                Vamos dizer que eles fizeram isso em mais da metade das celas do pavilhão inteiro. A impressão que se tem é que eles queriam realmente fazer uma “limpeza”, afinal, o presídio estava lotado. O governador da época, Fleury, foi avisado antes da invasão e enquanto todas as mortes aconteciam, almoçava na tranquilidade de Sorocaba.
                O massacre ocorreu um dia antes da eleição para governador e o número “oficial” de mortos, 111 (o autor dá a entender que o número real de mortes foi muito maior, podendo ser constatado por uma simples caminhada no pavilhão esvaziado após o ocorrido), só foi divulgado 20 minutos antes do fechamento das urnas. O episódio é extremamente polêmico, uma vez que o médico apenas ouviu a versão dos presos, a qual é muito divergente das alegações dos policiais. Um dos maiores motivos de dissidências, por exemplo, são os presos alegarem que os cachorros do Choque os atacou, fato comprovado por exame de corpo de delito e negado pelos policiais.
                Assisti à uma entrevista do Fleury em que ele baseia sua argumentação em uma suposta falta de comunicação com o dirigente da operação e a necessidade de “conter vagabundos rebeldes”. Ainda que a rebelião não estivesse controlada antes da invasão, cabe a reflexão de quais os motivos levavam os presos a agirem com tamanha violência: a falta de estrutura do sistema carcerário? Nascerem com o título de marginais e nunca terem oportunidade de quebrar com essa expectativa? Presos não terem a menor possibilidade de reincorporação social? Se a invasão não foi culpa do governador que tranquilamente fazia sua refeição acompanhado da família, todas essas indagações são.
                As perguntas geradas pela leitura são respondidas por um círculo vicioso de violência: nascer em um ambiente violento, crescer estigmatizado pela violência, ser preso e adentrar um ambiente que consegue ser ainda mais violento que o mundo a que estão acostumados. No começo eu fiquei em uma neurose muito grande e com muito medo de sair na rua devido à normalidade de situações traumáticas por parte dos “bandidos” (coloco entre aspas porque o própriogovernador que trata os presos como lixo, também foi denunciado envolvido emesquema de corrupção, ou seja, também é um bandido).  A contradição de sentimentos que citei acima se deve à esse fator: ao mesmo tempo que me sentia desesperada com a situação precária dos detentos, a grande maioria dos mesmos não pensaria duas vezes antes de me assaltar ou matar alguém da minha família se achasse necessário.
                O foco da leitura, então, não se deve concentrar entre quem é o bandido e quem é o mocinho, pois todos são os mesmos.  Consequentemente, revela-se importante, acima de tudo, compreender qual a nossa falha (sim, de todos nós brasileiros) que faz com que alguns sejam durante toda a vida mocinhos, enquanto outros nascerão e morrerão bandidos.




Faixa exposta pelos detentos após o massacre


* Como vocês puderam perceber, adorei a leitura e o tema, o que acabou refletindo um pouquinho no tamanho da resenha! Tentei escrever da forma mais didática e leve possível, porque como estou acostumada com textos com uma pegada um pouco mais sociológica, tenho que me policiar sempre para explicar de maneira clara. Vou deixar alguns links de reportagens que me ajudaram a entender tudo o que aconteceu (até mesmo após a implosão do presídio). Se você não quiser/puder ler o livro, indico o filme Carandiru do diretor Hector Babenco (tem no Netflix <3) que é bem fiel a história, apenas juntando em alguns personagens vários detentos reais. Ouçam e assistam ao clipe dos Racionais gravado dentro do Carandiru em atividade, ele expõe bastante a rotina e pensamentos os detentos. Por fim, como sempre,me  deixem comentários sobre o livro ou o meu texto, adoro saber o que vocês acham! <3




2 comentários:

  1. no espaço abaixo não encontrei a opção para me identificar por isso estou colocando aqui. Meu nome é Josinete Barros de Lima. Gostei demais da sua resenha. Muito lúcida e racional. Parabéns!!! Acredito que seria interessante para você visitar o Museu Penitenciário Paulista, localizado no Carandiru.

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  2. Oi, meu nome é Anna Carolina Martins! Já li o livro e vi várias vezes o filme, fiquei comovida e pensativa assim como você com relação as histórias envolvidas ao caso do Carandiru. Somos no final e sempre, todos iguais, independente das escolhas pessoas. Direito igualitário como cidadãos perante a sociedade, porém vivemos uma realidade oposta isso. Mas parabéns pela resenha!E que um dia possamos viver em um mundo diferente...

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