quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Peter Pan - Resenha

Durante muito tempo da minha vida mantive uma grande curiosidade sobre Peter Pan e suas aventuras, as quais já criaram um aspecto de lenda no meu imaginário. Porém, fiquei um tanto quanto confusa com a leitura. Apesar de apresentar algumas frases super fofas, dessas que as crianças soltam e, quando paramos para pensar, traduzem grande parte das verdades universais (como em Pequeno Príncipe ou O Mágico de Oz, por exemplo), o livro como um todo não permitiu que eu conseguisse analisar se gostei ou não.

Imagino que todos algum dia já entraram em contato com Peter, o menino que vive na Terra do Nunca, cercado de meninos perdidos e que, de vez em quando, resolve voar por Londres em busca de diversão. Em uma dessas andanças (ou voos noturnos, melhor dizendo), Peter perde sua sombra dentro da cômoda do quarto de Wendy, João e Miguel. Quando volta para recuperar seu pertence e sem saber o que fazer direito para colar a própria sombra ao corpo, a amizade entre ele e as crianças, principalmente Wendy, foi imediata, permitindo com que todos decidissem voar juntos para a Terra do Nunca. 

No geral, o filme da Disney é bem fiel ao texto original e como sei que muitos realmente sabem do que se trata Peter Pan, destacarei as partes que me encantaram e que provavelmente não são visíveis em uma leitura superficial. Apesar das impressões serem minhas, acredito que grande parte dos leitores também se sintam tocados pelos mesmos pontos (ou talvez seja tudo uma grande viagem minha, nunca se sabe haha). 

A Terra do Nunca é o que mais me chama atenção dentre tudo o que é descrito. O lugar mágico onde índios, meninos perdidos, fadas, sereias e piratas moram, existe no imaginário de todas as crianças, principalmente quando dormem. Como em muitas outras histórias, há quase que a personificação da Terra do Nunca, aproximando-a de sentimentos humanos que lhe dão autonomia. Por exemplo, quando alguém está em perigo, sempre aparece outro para ajudar e ficar tudo bem. 

Por outro lado, o enigma da Terra do Nunca vai muito além de sua humanidade. Como ela compõe os sonhos e pensamentos de todas as crianças, nunca se sabe o que é narrado aconteceu de verdade ou apenas faz parte de uma grande brincadeira, na qual crocodilos perseguem piratas maus e as fadas protegem os meninos bons. A narrativa gira completamente em torno da inocência, possibilitando com que a dualidade adultos x crianças flua perfeitamente. 

Quando assisti Once Upon a Time (eu amo essa série!) fiquei intrigada com a maneira com que Peter Pan era retratado como vilão e o Capitão Gancho (meu personagem favorito disparado), como quase que um bom moço, cheio de dualidades e dramas existenciais. Hoje, após ler Peter Pan, percebo que essa interpretação é completamente plausível! Peter é extremamente violento e suas aventuras preferidas envolvem matar piratas. Não suficiente, é teimoso e muito arrogante, desejando que tudo gire em torno dele o tempo todo (o que é bem engraçado tendo em vista que ele não tem nenhum adulto para mimá-lo). 

Fiquei muito tempo da leitura pensando que se tivesse um filho não leria Peter Pan para ele, afinal, não quero mostrar que apoio a ideia de crianças quererem ver sangue e matar pessoas. Na verdade, não conseguia lidar com o fato de achar Peter Pan uma criança má. Contudo, se nos lembrarmos dos tempos de escola, teremos certeza que crianças podem/são muito malvadas. E é justamente por isso que não gosto de Peter Pan: ele me lembra aquele pestinha chato que senta na última carteira da classe e se acha o "líder da matilha", precisando acabar com quem considera mais fraco para esconder seus defeitos, ganhar confiança e se estabelecer como soberano. 

E em quem o Peter escolhe pisar para se estabelecer como o rei da Terra do Nunca? No Capitão Gancho, o maior menino perdido da história do universo! Nas linhas de J.M. Barrie, tudo o que as crianças querem é uma mãe, ou seja, a mãe é um ideal de felicidade, no qual haverá, acima de tudo, acolhimento e bondade. Gancho, em muitos momentos, demonstra possuir sentimentos bons e vontade de ser alguém diferente, entretanto, é um personagem tão estigmatizado por Peter que não tem a oportunidade de deixar isso se manifestar (sabe quando alguém te chama de gordo e você sente tanto ódio que precisa comer mais? É disso que eu tô falando!). Quem sabe se Gancho tivesse tido uma mãe, alguém em quem descansar e que lhe dissesse que ele não precisa se defender o tempo todo, fosse, na realidade, o mocinho de toda história. 

Há uma crítica social sobre as aparências na Londres da época (e em todo mundo atual também, porque isso nunca vai mudar), pois os adultos -pais de Wendy, João e Miguel- precisam fingir e manter seus papéis sociais durante todo o tempo. Essa crítica é o que legitimiza a falta de vontade das crianças de crescerem (nós deixamos de ser nós mesmos, abandonamos nossos sonhos e nos tornamos, por exemplo, um funcionário de banco, um número de matrícula de uma universidade, o nome em uma lista de aposentadoria...). Isso tudo não me permitiu, tampouco, ir com a cara de Wendy, personagem que está em transição da infância e que, em muitos momentos, aparenta ser uma pequena adulta chatinha. 

Imagino que quando J.M. Barrie escreveu Peter Pan não esperava que ninguém de 21 anos e estudante de ciências sociais analisasse sua obra. Talvez eu tenha crescido demais para entender aquilo que só é possível para uma criança. Peter Pan é uma obra grandiosa, porém seus personagens não representam um ideal infantil. O final, tão triste e verdadeiro, nos recorda de um futuro inevitável (e que provavelmente já chegou). Não sei se quero reler ou esquecer, mas me senti um pouco menino perdido também.



Tentei deixar a foto levemente escurecida para vocês notarem o metalizado maravilhoso da capa!


O meu Peter Pan é da edição maravilhosa Bolso de Luxo da Zahar. Eu sei que estou na contramão da maioria dos leitores, mas adoro livros pequenos, daqueles que cabem na mochila e não ocupam muito espaço para serem levados para lá e para cá. Porém, geralmente, essas edições pockets são bem pobrinhas e estragam fácil, o que não ocorre com a coleção Bolso de Luxo, uma vez que a capa é dura e não amassa. O meu Peter Pan veio no box "Clássicos que Brilham na sua Estante" e eu ainda pretendo fazer uma resenha dessa caixinha quando terminar de ler todos os livros. 

*Só pra lembrar: a Zahar não é parceira do blog (infelizmente! :/ haha), estou falando sobre a edição porque acho importante e legal trocar esse tipo de dica mesmo! 





*Vocês já leram Peter Pan? Acharam que eu viajei muito? Comentem, pessoal, sinto muito a falta de vocês, quero saber tudo, desde o que vocês estão lendo ao que vão comer no jantar! (haha, mentira. Tá bom, na verdade é sério, mas vamos fingir que não).

4 comentários:

  1. eu gosto muito da zahar, as capas e diagramação são incríveis, tudo bem feito né? gosto muito. eu já li o da Alice e achei lindinho demais! Eu tenho o do conto de fadas mas até hoje não parei pra ler.

    beijo

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    1. Eu ainda não tive vontade de ler Alice, não consigo entender direito o motivo haha Minha próxima leitura do box será Contos de Fadas, deve ser maravilhoso!

      Beijos <3

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  2. Eu acho essas edições da Zahar incríveis, mas não tenho muito interesse pelos títulos. Não costumo gostar muito dessas leituras para crianças. hehehehehe. Fiquei interessada pelas edições do "Ateneu" e " A Besta Humana", que são leituras mais adultas.
    A resenha ficou show (:

    Bjos

    http://bymiih.blogspot.com.br/

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    1. Ah, eu gosto porque a questão é justamente essa: é para crianças, mas ensinam muito sobre o mundo adulto. Fico encantada! Também queria o Ateneu, deve ser ótimo.

      Beijos

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