quinta-feira, 5 de março de 2015

Quando eu quis ser cientista social




Como eu disse no post anterior, o Book Haul de fevereiro, voltei pra USP depois de longos dias de férias. Parece que foi ontem que eu entrei no prédio do meio pela primeira vez, sem ter a menor ideia do que me esperava, com todos meus medos e inseguranças. Voltar me fez ter mais certeza de como é gratificante estudar Ciências Sociais, apesar da dificuldade de arrumar emprego, apesar do curso ser extremamente cansativo, apesar da sociedade olhar para o nosso esforço com desprezo e normalmente ignorar tudo o que nós fazemos.

As vezes penso que alguns já nascem propícios a serem cientistas sociais e depois desenvolvem isso -ainda mais no nosso país. Tem gente que mora no Morumbi e não se incomoda de ter como vizinhos uma das maiores favelas do mundo, mas tem gente que se incomoda. Tem gente que não se incomoda com uma criança descalça pedindo dinheiro no farol, mas tem gente que se incomoda. Eu sempre me incomodei demais (mesmo não morando no Morumbi e com meu pai só comprando um carro depois dos meus treze anos). 

Eu nunca fui rica, principalmente na minha infância, quando muitas coisas faltavam em casa. Porém, muitas coisas faltavam porque minha mãe parou de trabalhar aos 24 anos, quando engravidou, para me educar. Meu pai e seu salário eram a única fonte de renda de casa. Eles sempre fizeram questão que eu estudasse em um colégio de primeira categoria. Muitos dias meu pai viveu com só um cachorro quente no estômago e deixou de pagar algumas contas para quitar a mensalidade do meu colégio.

Convivi com pessoas de uma classe social completamente diferente da minha e diversas vezes sofri com isso, como se fosse pecado não ter dinheiro. Claro que também fiz muitos amigos e encontrei pessoas e memórias que guardo para sempre. E, apesar dos muros do meu colégio serem alheios à realidade e aos jovens do Brasil, eu continuava me importando (mesmo em um ambiente em que a maioria, desculpem-me, não se incomoda).

Quando finalmente chegou a hora de escolher minha profissão, ficava inquieta tentando encontrar algo em que eu pudesse reverter os esforços dos meus pais pra sociedade. No início achei que o caminho seria o jornalismo, ideia que se mostrou errada e que me deixou em depressão profunda por um ano (pra mim é assustador não ter controle de tudo, ainda mais de qual profissão seguir aos 19 anos). 

Escolhi ciências sociais na maior incerteza. Hoje em dia ainda tenho minhas recaídas, principalmente em relação aos apesares descritos no primeiro parágrafo. Quando isso acontece, lembro de tudo o que meus pais abriram mão para que eu fosse alguém que pudesse transformar o mundo. E é incrível saber que mesmo no segundo ano de graduação, já mudei o mundo de muitas pessoas, principalmente o meu.

Já visitei um bairro que se localiza à menos de 30 minutos do centro de São Paulo (Jardim Pery) e nem rede de esgoto tem na maioria da casas. O rosto de gratidão por alguém da USP se preocupar com o bairro, sentar, conversar e anotar o que eles, moradores, pensam sobre como a cidade poderia ser melhor foi incrível. Em outra ocasião, visitei mulheres sem teto que moravam em uma ocupação irregular para compreender o que as colocou naquela situação e, consequentemente, como a cidade deve lidar com aquilo. Participei de Saraus de autores da periferia, conversei com veteranas dos porões da ditadura militar, com o prefeito, com o senador... 

O mito da educação no Brasil é totalmente inacreditável. O que me diferencia de um morador do Jardim Pery? A minha carteirinha da USP não prova nada, ela não me faz mais inteligente, aliás, estudo para ficar um pouco menos burra, apenas. É absurdo uma matrícula diferenciar quem "vence na vida" de quem é só mais um brasileiro esquecido. Educação não deveria ser um privilégio. E isso me incomoda. 

São mais de 100 páginas por aula e fichamentos e redações e cansaço e medo de nunca ter como se sustentar e comentários hostis de gente esnobe. Mas eu estudo hoje para que todo dia alguém, de qualquer classe social, em qualquer região do Brasil, possa estudar. E eu estudo e leio e escrevo no blog e luto para que, além de educação, cultura também não seja um privilégio. Moro na cidade mais cultural do Brasil, mas quantos paulistanos podem usufruir disso? 

Até o conceito de cultura é meio torto na nossa sociedade. Cultura é música clássica, são as exposições do MASP, mas cultura também é a arte da periferia, grafiti, RAP, funk. Não sei se vocês em algum momento pararam para pensar nisso, mas eu sempre penso. Eu sonho com uma São Paulo misturada, periferia e nobre, tudo junto, todos com os mesmos direitos. A cidade ocupada em todos os pedacinhos por todos os paulistanos e não uma São Paulo periférica e outra São Paulo classe média, média alta. 

Muitas vezes me perguntaram aqui ou no Instagram porque eu quis ser uma cientista social. Ficava elaborando respostas e respostas, mas nunca me dava por satisfeita. No final das contas, é algo bem simples. Eu quis ser cientista social porque eu me incomodo. E eu sei que parece algo abstrato, mas com o meu incômodo, eu mudo o mundo de muitas pessoas. E eu vou continuar todos os dias da minha vida mudando o mundo porque eu me incomodo. Então, eu quis ser cientista social porque o mundo precisa ser mudado e ponto final. 


E desde dessa foto já se passaram 1 ano e 8 kg (ganhos. 2kg eu já perdi, mas, nossa, como ser adulta dá fome!)

2 comentários:

  1. tenho vários amigos que cursam ciências sociais e sempre os vejo loucos por causa do tanto de textos que precisam ler. faço biologia e não preciso ler taaaaanto assim, tô pensando em largar o curso e começar letras, aí sim terei que ler bastante e acho que vai ser uma delícia.
    que bom que você se encontrou nesse curso, fico muito inspirada quando vejo histórias assim porque me dá mais vontade ainda de sair do curso e ir me encontrar em letras :p
    beijinho

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  2. Olha, em ciências sociais nós lemos muito muito muuuito mesmo! As vezes converso com alguns colegas da Letras e eles dizem que nós chegamos a ler até mais do que eles (não sei se é verdade). Pensa direitinho antes de deixar biologia, viu? É meio que mudar da água pro vinho. Eu, por exemplo, sempre penso que se tivesse outra vida faria biologia, porque amo mais que tudo os animais e a natureza. Porém, sei que pra mim não dá de jeito nenhum. Toma bastante cuidado e segue seu coração, ele sempre tem a resposta certa!

    Beijo

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