segunda-feira, 20 de abril de 2015

A vida em espiral - Resenha

Logo depois de fechar parceria com a editora Rádio Londres estava muito ansiosa para escolher o primeiro título e resenhá-lo para vocês. Talvez seja bobeira minha, mas queria que ele fosse incrível e diferente de tudo o que eu já li, saindo da zona de conforto mesmo. A Vida Em Espiral foi a melhor escolha que poderia fazer, uma vez que une a cultura africana, tão pouco comentada entre nós, com um tema que é familiar no nosso dia-a-dia: o tráfico de drogas e, em especial, a questão da maconha. 

"No Senegal, 'A vida em espiral' é um livro lendário: em Dakar, se alguém leu um só livro na vida, é quase sempre esse. Cativante como um noir, é a história de traficantes e consumidores de maconha, totalmente desprovida de moral salvo aquela imposta pela realidade cotidiana: só o crime paga."    Hélène Lee, Libération

Amuyaakar Ndooy, o protagonista do livro, é um jovem senegalês pobre. Sua profissão, motorista de táxi, não permite que sustente de maneira confortável sua avó, irmã e filho pequeno, com quem vive em uma aldeia. No país, um decreto impede o consumo de yamba (uma variação de maconha) e torna quase impossível sua comercialização. 

Um dia, enquanto "desenvolvia" (fumava yamba) com seus amigos, Ndooy tem a ideia de passar a vender a droga. Com ajuda de um fornecedor conhecido, monta uma pequena rede de tráfico, a qual logo prospera, mudando radicalmente a vida do personagem. Clientes grandes aparecem, a casa e o carro mudam e, a cada dia, a paranoia de ser delatado e preso cresce. 

"A vida em espiral" é cativante por ser a típica história de anti-herói. O personagem principal apresenta sérios desvios de caráter, mas, mesmo assim, o leitor se identifica e torce pelo seu sucesso. Eu mesma, em diversos momentos da narrativa, me peguei com medo de que Ndooy fosse apanhado.

Grande parte da identificação com um personagem tão contraditório deriva dos absurdos da sociedade na qual o protagonista está inserido e tudo fica mais instigante quando percebemos que nossa realidade não é tão distante. Por exemplo, em certo ponto da narrativa há uma grande reunião na mesquita da aldeia convocada pelos "velhos" que estavam horrorizados com a juventude da comunidade. O encontro gerou um grande embate entre gerações porque foi demonstrado que tudo aquilo era uma grande hipocrisia. Se os jovens se viciam em álcool é mais que justificado pensar que isso ocorre devido ao exemplo que seus pais transmitem.

Outro ponto de reflexão importante é sobre a criminalização e guerra às drogas. O autor, Abasse Ndione, deixa claro que por mais que o cerco policial se intensifique, os jovens não deixam de consumir drogas, o que gera um comércio extremamente lucrativo para políticos e autoridades corruptas. Será que o erro não está em banalizar a conscientização da população,  recorrendo às lendas e achismos, em despeito de um investimento educacional?

As diferenciações e o contato com outra cultura, descrita de forma cuidadosa pelo autor, tornam a experiência de leitura muito mais rica. Aprendemos termos novos (como "impi", designação dada aos policiais), nomes totalmente diferentes, hábitos religiosos diversos (ao mesmo tempo que a cultura oficial é a muçulmana, é comum recorrer à curandeiros em busca de amuletos de proteção) e uma ideia de amor e casamento totalmente impensável para nós. Cada detalhe do livro me deixou encantada! 







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