domingo, 31 de maio de 2015

Olha pro céu - Luiz Gonzaga

Imagem retirada do WeHeartIt.com


Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xóte, baião no salão
E no terreiro

O teu olhar, que incendiou
Meu coração!


Luiz Gonzaga





*Junho + São João + Forró + Felicidade chegaram! <3

terça-feira, 26 de maio de 2015

Carcereiros - Drauzio Varella (Resenha)

Terminei 2014 com a leitura incrível de Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, e comecei 2015 fazendo uma resenha detalhada do livro e de todas as conexões que consegui fazer através dele. Não é exagero dizer que os relatos mexeram verdadeiramente comigo. Imagino que com vocês também seja um pouco assim, mas,quando leio uma história que gosto, demoro um tempo a mais do que a última página para desapegar. São diversos os motivos que me atraem: a proximidade da antiga Casa de Detenção com a minha própria casa, a curiosidade sobre vidas e caminhos tão diferentes dos meus, a discussão acerca da maioridade penal...

Dr. Drauzio inicia a narrativa de "Carcereiros" descrevendo justamente sua atração pelo mundo do crime desde pequeno. Como expõe durante o livro, apesar dos presídios, assim como o Carandiru, muitas vezes se localizarem fisicamente no centro das grandes cidades brasileiras, a distância entre o que acontece dentro de suas muralhas, seus "moradores" e leis, é imensa em relação ao resto da sociedade. Ninguém sabe ao certo o que acontece dentro de uma penitenciária...  As pessoas não se interessam,os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e o não se interessa, os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e outro preso? Comparando as duas obras, pude perceber que fator condicionante é a família durante a juventude. Boa parte dos carcereiros entraram nessa profissão justamente como uma medida última de pais desiludidos e presentes. Raramente se lê em "Carandiru" a presença ativa dos pais na educação dos infratores (por diversos motivos, como por exemplo o abandono dos pais que obrigava as mães desses indivíduos a trabalharem o dobro do que normalmente trabalhariam).

Muito do que é descrito em "Carcereiros" já foi exposto no volume anterior, o que permite ver os "dois lados da mesma história" -como o bandido vê determinado acontecimento desastroso e como o carcereiro observa o mesmo fato. A possibilidade desse viés diverso é um dos fatores que torna o livro incrível e a leitura extremamente agradável.

Além disso, "Carcereiros" coloca em reflexão uma questão atual. Nos últimos capítulos, Drauzio Varella faz uma conta básica para demonstrar como o sistema carcerário brasileiro é, antes de tudo, falido. Hoje discutimos se diminuímos a maioridade penal para os 16 anos, colocando jovens infratores nas mesmas prisões que adultos criminosos. Porém, em um momento anterior à esse debate, em 2012, quando o livro foi escrito, o autor provou que seria impossível construir presídios suficientes apenas para os adultos que já viviam em penitenciárias naquele ano.

O médico deixa claro que a questão discutida não deveria girar em torno de prender mais pessoas, mas, sim, prender melhor e garantir educação para que cada vez menos sejam necessárias penitenciárias e Casas de Detenção. Hoje quem comete um crime é enjaulado em celas insalubres, não aprende de modo algum um ofício dentro das detenções e vive dentro de uma escola do crime. Amanhã, ao final da pena, esse indivíduo será solto e retornará ao convívio social, com as mesmas carências de quando entrou, mais dificuldades para encontrar um emprego (por ser ex presidiário) e pós doutor em tudo o que é ilegal. O nosso erro (meu, seu, da sociedade, dos empresários, da economia) está em desprezar essas pessoas desde o berço e esperar que cresçam e se regenerem sozinhas. 

No geral, "Carcereiros" é uma narrativa mais leve e breve do que "Carandiru". Os fatos narrados não são totalmente explorados, por se tratarem de amigos pessoais do autor, contudo, não diminui a qualidade do livro. Uma das sensações mais fantásticas da vida é poder sair um pouco de si e adentrar o olhar do outro. Minha indicação é quase um apelo: leiam Carcereiros e Carandiru. Apenas através da pesquisa, da leitura e dos estudos podemos entender o momento histórico importante que estamos vivendo. E a única coisa mais digna  que ser um homem e uma mulher do seu tempo é ser um homem e uma mulher à frente do seu tempo.



domingo, 24 de maio de 2015

Extravio - Ferreira Gullar



Onde começo, onde acabo, 
se o que está fora está dentro 
como num círculo cuja 
periferia é o centro? 

Estou disperso nas coisas, 
nas pessoas, nas gavetas: 
de repente encontro ali 
partes de mim: risos, vértebras. 

Estou desfeito nas nuvens: 
vejo do alto a cidade 
e em cada esquina um menino, 
que sou eu mesmo, a chamar-me. 

Extraviei-me no tempo. 
Onde estarão meus pedaços? 
Muito se foi com os amigos 
que já não ouvem nem falam. 

Estou disperso nos vivos, 
em seu corpo, em seu olfato, 
onde durmo feito aroma 
ou voz que também não fala. 

Ah, ser somente o presente: 
esta manhã, esta sala. 


Ferreira Gullar

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Exposição: Picasso e a Modernidade Espanhola - CCBB SP




No último domingo, 17/05, tive a oportunidade de finalmente visitar a exposição "Picasso e a Modernidade Espanhola", exibida até 8 de junho no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Sempre fui muito fã de arte e agora estudando História da Arte na Pinacoteca fico mais alucinada ainda. Encarei sem medo as quase 2 horas de fila que valeram muito a pena, apesar de vários aspectos da organização da exposição terem me desapontado (mas isso nada tem a ver com o artista!).



O pintor e a modelo - 1963 


Nos quatro andares de obras podemos observar muito da personalidade de Picasso expressa através de suas pinturas. No primeiro quadro exposto, O Pintor e a Modelo, a dicotomia de tons frios ao lado do artista e quentes com a moça demonstra claramente a relação que Pablo mantinha com suas modelos -muitas eram suas amantes.  Além disso, sempre ao retratar figuras humanas e seguindo parte das técnicas cubistas, o pintor tentava caracterizar todos os membros e partes do corpo humano de uma só vez. No caso das mulheres, as formas e cores quase sempre se aproximam de uma sensualidade natural contida no corpo feminino. Observem no quadro acima como o bumbum, os seios e os pelos pubianos da modelo estão colocados ao mesmo tempo e sugerem formas arredondadas, enquanto o homem é composto por traços retos. 


Justamente nessa junção de formas está minha primeira dica: tentem observar os quadros a uma distância razoável. É impossível observar o todo e entender o conjunto retratado se o espectador concentrar o olhar muito perto da pintura, uma vez que, assim, as partes parecem desconectadas. Tentem primeiro um olhar geral distanciado e depois vejam os detalhes de perto (isso vai exigir paciência e tempo porque as pessoas grudam nas pinturas como se fossem engoli-las hehe).


Cabeça de Mulher (Fernande) - 1910


A mostra apresenta pinturas de diversas fases de Picasso, sendo que a obra acima é o primeiro quadro literalmente modernista da história. Outro fato curioso é que apesar das figuras geométricas, as cores e as formas do retrato de Fernande, uma das principais amantes do pintor, são completamente diferentes da pintura acima. Isso porque Pablo tinha sempre a "missão" de transcrever através das pinceladas a personalidade e sentimentos das pessoas e cenas retratadas. 

Não sei se vocês observaram a data dos quadros, mas essa é uma das minhas principais críticas ao CCBB, o desrespeito à ordem cronológica das pinturas. A equipe agrupou por andares elementos que fazem parte a uma mesma "fase" do artista, o que faz todo sentido (mesmo ele pintando diversos estilos simultaneamente) , mas não colocou nada em sequência. Fiquei muito perdida nesse sentido, sem saber como seguir. Queria muito poder observar a evolução das técnicas com o passar dos anos, algo que não foi possível.


Cabeça de Cavalo - 1937


Algo muito incrível que está presente na exposição são os diversos desenhos, rascunhos e esboços de Picasso para Guernica. Não sei porque, mas ver o quanto ele estudou para pintar sua obra prima o tornou extremamente humano na minha percepção. É sensacional ver que até grandes gênios necessitam de muita dedicação e que mesmo eles não conseguem fazer nada sem grandes esforços.

Porém, também fiquei um pouco decepcionada com a organização nesse ponto. Por exemplo, havia dois desenhos/rascunhos de "cabeça chorando", porém um ficava na entrada da sala e outro na saída. Fico pensando o que custava colocar um ao lado do outro na sequência em que foram feitas? Sei que não tenho ainda os atributos necessários para ser crítica de arte e imagino que tenha sido feito um trabalho cuidadoso por parte do Centro Cultural do Banco do Brasil, entretanto, uma exposição precisa ser didática e, se eu saí cheia de dúvidas e insatisfações, algo está errado. 


Retrato de Dora Maar - 1939


Apesar de todos os pesares, a exposição está incrível e merece demais sua visita! Além de Picasso, muitos outros pintores espanhóis possuem obras apresentadas, como Dalí e Miró. Ou seja, os motivos para você levantar o bumbum da cadeira, se desligar da redes sociais, ficar umas horinhas na fila e visitar o Centro Cultural do Banco do Brasil são óbvios! Depois de São Paulo, a mostra chegará no Rio no dia 24 de junho para a alegria dos cariocas. 


CCBB de São Paulo
Data: De 25 de março a 8 de junho, das 9h às 21h
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Ingresso: Grátis
Mais informações: culturabancodobrasil.com.br


CCBB do Rio

Data: De 24 de junho a 7 de setembro
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Ingresso: Grátis
Mais informações: culturabancodobrasil.com.br

domingo, 17 de maio de 2015

Necrológio dos Desiludidos do Amor - Carlos Drummond de Andrade







Os desiludidos do amor 
estão desfechando tiros no peito. 
Do meu quarto ouço a fuzilaria. 
As amadas torcem-se de gozo. 
Oh quanta matéria para os jornais. 


Desiludidos mas fotografados, 
escreveram cartas explicativas, 
tomaram todas as providências 
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada. 
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos 
seja no claro céu ou turvo inferno. 



Os médicos estão fazendo a autópsia 
dos desiludidos que se mataram. 
Que grandes corações eles possuíam. 
Vísceras imensas, tripas sentimentais 
e um estômago cheio de poesia... 


Agora vamos para o cemitério 
levar os corpos dos desiludidos 
encaixotados competentemente 
(paixões de primeira e de segunda classe). 

Os desiludidos seguem iludidos, 
sem coração, sem tripas, sem amor. 
Única fortuna, os seus dentes de ouro 
não servirão de lastro financeiro 
e cobertos de terra perderão o brilho 
enquanto as amadas dançarão um samba 
bravo, violento, sobre a tumba deles. 

Carlos Drummond de Andrade







segunda-feira, 11 de maio de 2015

Livros de Abril: Book Haul!




Antes de mais nada, sei que hoje já é dia 11, o que me torna extremamente atrasada com a abertura das publicações de maio, mas, a vida deu uma desandada básica em abril e me atropelou um pouco (hahahahaha, o que significa que estou feliz demais com a chegada de maio! \o/). Nesse mês que passou aconteceu tanta tanta tanta coisa que eu nem acredito! Minhas leituras concluídas foram direcionadas para a faculdade de ciências sociais e para a parceira do blog, a Rádio Londres. Porém, o que torna o Book Haul de abril incrível é que como todo mês conturbado, comprei muitos livros - só que dessa vez gastei bem pouco! Foram 7 livros por R$34 !!!


Leituras Concluídas (na ordem em que foram finalizadas)


Apesar de não terem muitos livros lidos, abril foi incrível em termos de qualidade de leitura! Definitivamente me apaixonei por Durkheim e sua teoria de fatos sociais, principalmente sobre a divisão do trabalho, cuja função seria criar solidariedade entre os indivíduos (muito amor, né?)  <3 

  • A Vida em Espiral - Abasse Ndione
  • Reflexões sobre a revolução na França - Burke
  • Da Divisão do Trabalho Social - É. Durkheim
  • As Regras do Método Sociológio - É. Durkheim (releitura)

Sei que já fiz resenha, mas queria deixar outra vez registrado como gostei de A Vida em Espiral. 2015 está sendo um ano para conhecer diversas culturas através da literatura.






Leituras em andamento


Preciso confessar que não foram só as provas e a correria de abril que me fizeram ler pouco. Estou tão apaixonada por Travessuras da Menina Má de Mario Vargas Llosa que economizo demais a leitura. Simplesmente não quero que acabe! Sou suspeita para falar de América Latina, uma vez que tudo que aborda o termo me encanta. Mas, a verdade é que já era louca para ler algo com a assinatura de Vargas Llosa e não podia ter escolhido livro melhor para começar. A trama tem como pano de fundo a ditadura e luta contra as repressões no Peru, o que engloba um período em que todo nosso continente vivia sob regimes militares. Além disso, o livro tem um "quê" muito grande de erotismo. Ou seja, américa latina + revolução + história + erotismo + Nobel de Literatura = POR QUE EU NÃO LI ISSO ANTES?! hahaha Não preciso nem chegar ao final para saber que já roubou o lugar de meu segundo livro preferido da vida! <3







Compras e Presentes


As publicações mais visitadas aqui no Aborto Literário sempre são relacionadas com promoções, sebos e livros comprados na máquinas do metrô de São Paulo! Fico super feliz com isso porque reflete exatamente meu perfil de leitora, gosto de pagar pouco e defendo com todas as forças que a leitura deve ser inclusiva. Em abril a livraria da minha faculdade, a FFLCH-USP, fez uma promoção da Editora Humanitas (a qual publica teses de mestrandos e doutorandos da USP) e os livros estavam a partir de R$3 (parece piada, mas é seríssimo!). As máquinas do metrô também foram reabastecidas e as edições estavam incríveis, foi um sacrifício comprar apenas um (estou novamente ficando sem espaço :/). Além disso, peguei algumas promoções na banquinha de livros usados que frequento e o resultado foi esse: 7 livros por R$34!

  • Tieta do Agreste - Jorge Amado (R$5 na banquinha de usados! PS: o livro estava no plástico e nunca foi lido \o/)
  • Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa (R$15 na banquinha de usados)
  • Quatro Novelas Exemplares - Miguel de Cervantes (R$2 na máquina do metrô)
  • A imagem da linguagem na obra de Graciliano Ramos - Maria Celina Novaes Marinho (R$3 na Editora Humanitas)
  • Traduzindo o Brazil: O País Mestiço de Jorge Amado - Marly D. B. Tooge (R$3 na Editora Humanitas)
  • A Constelação do Sonho em Walter Benjamin - Aléxia Bretas (R$3 na Editora Humanitas)
  • Luzes e Estrelas : Adorno e a Astrologia - Vani Rezende (R$3 na Editora Humanitas)


Também comprei o Jardim Secreto, mas ele não entrou na lista oficial por motivos óbvios


*Me contem aqui nos comentários tudo o que vocês leram e compraram em abril! Também não esqueçam de deixar registrado se já leram alguns dos livros da minha lista. Esse mês infelizmente não consegui gravar as comprinhas em vídeo, mas no mês que vem vou tentar. Espero que maio esteja sendo lindo pra vocês <3