terça-feira, 26 de maio de 2015

Carcereiros - Drauzio Varella (Resenha)

Terminei 2014 com a leitura incrível de Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, e comecei 2015 fazendo uma resenha detalhada do livro e de todas as conexões que consegui fazer através dele. Não é exagero dizer que os relatos mexeram verdadeiramente comigo. Imagino que com vocês também seja um pouco assim, mas,quando leio uma história que gosto, demoro um tempo a mais do que a última página para desapegar. São diversos os motivos que me atraem: a proximidade da antiga Casa de Detenção com a minha própria casa, a curiosidade sobre vidas e caminhos tão diferentes dos meus, a discussão acerca da maioridade penal...

Dr. Drauzio inicia a narrativa de "Carcereiros" descrevendo justamente sua atração pelo mundo do crime desde pequeno. Como expõe durante o livro, apesar dos presídios, assim como o Carandiru, muitas vezes se localizarem fisicamente no centro das grandes cidades brasileiras, a distância entre o que acontece dentro de suas muralhas, seus "moradores" e leis, é imensa em relação ao resto da sociedade. Ninguém sabe ao certo o que acontece dentro de uma penitenciária...  As pessoas não se interessam,os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e o não se interessa, os governantes não buscam dar explicações e a mídia não noticia.

Apesar de todos os aspectos negativos, esse distanciamento muitas vezes gera uma curiosidade natural acerca do modo de vida daqueles que estão judicialmente reclusos. Essa regra se aplicou a Varella e a maior parte dos homens cujas memórias de trabalho compuseram a narrativa de "Carcereiros". Ao contrário de "Carandiru", o livro recentemente escrito, anos depois da implosão da Casa de Detenção, aborda o ponto de vista dos indivíduos que prestavam serviços na penitenciária, convivendo diariamente com os presos. O ambiente de estresse, o álcool como escapatória, a origem humilde e as desavenças familiares levam o leitor, após ler "Carandiru", a se questionar o quão diferentes dos próprios detentos são esses indivíduos.

Todos possuem origem humilde e a maioria carrega consigo a descrença com o futuro. Sendo assim, o que torna um carcereiro e outro preso? Comparando as duas obras, pude perceber que fator condicionante é a família durante a juventude. Boa parte dos carcereiros entraram nessa profissão justamente como uma medida última de pais desiludidos e presentes. Raramente se lê em "Carandiru" a presença ativa dos pais na educação dos infratores (por diversos motivos, como por exemplo o abandono dos pais que obrigava as mães desses indivíduos a trabalharem o dobro do que normalmente trabalhariam).

Muito do que é descrito em "Carcereiros" já foi exposto no volume anterior, o que permite ver os "dois lados da mesma história" -como o bandido vê determinado acontecimento desastroso e como o carcereiro observa o mesmo fato. A possibilidade desse viés diverso é um dos fatores que torna o livro incrível e a leitura extremamente agradável.

Além disso, "Carcereiros" coloca em reflexão uma questão atual. Nos últimos capítulos, Drauzio Varella faz uma conta básica para demonstrar como o sistema carcerário brasileiro é, antes de tudo, falido. Hoje discutimos se diminuímos a maioridade penal para os 16 anos, colocando jovens infratores nas mesmas prisões que adultos criminosos. Porém, em um momento anterior à esse debate, em 2012, quando o livro foi escrito, o autor provou que seria impossível construir presídios suficientes apenas para os adultos que já viviam em penitenciárias naquele ano.

O médico deixa claro que a questão discutida não deveria girar em torno de prender mais pessoas, mas, sim, prender melhor e garantir educação para que cada vez menos sejam necessárias penitenciárias e Casas de Detenção. Hoje quem comete um crime é enjaulado em celas insalubres, não aprende de modo algum um ofício dentro das detenções e vive dentro de uma escola do crime. Amanhã, ao final da pena, esse indivíduo será solto e retornará ao convívio social, com as mesmas carências de quando entrou, mais dificuldades para encontrar um emprego (por ser ex presidiário) e pós doutor em tudo o que é ilegal. O nosso erro (meu, seu, da sociedade, dos empresários, da economia) está em desprezar essas pessoas desde o berço e esperar que cresçam e se regenerem sozinhas. 

No geral, "Carcereiros" é uma narrativa mais leve e breve do que "Carandiru". Os fatos narrados não são totalmente explorados, por se tratarem de amigos pessoais do autor, contudo, não diminui a qualidade do livro. Uma das sensações mais fantásticas da vida é poder sair um pouco de si e adentrar o olhar do outro. Minha indicação é quase um apelo: leiam Carcereiros e Carandiru. Apenas através da pesquisa, da leitura e dos estudos podemos entender o momento histórico importante que estamos vivendo. E a única coisa mais digna  que ser um homem e uma mulher do seu tempo é ser um homem e uma mulher à frente do seu tempo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário