segunda-feira, 20 de julho de 2015

Estação Atocha - Ben Lerner (Resenha)

Minha segunda entrega da Rádio Londres começou incrível desde a capa até a última página. Estação Atocha era um livro que estava ansiosíssima para resenhar e ler, sendo a minha primeira solicitação da editora. O enredo gira em torno de Adam, um bolsista americano que vai para Espanha escrever poesia sobre a guerra civil, mas que durante toda narração apresenta dúvidas existenciais e desacredita na sua própria capacidade de produzir algo relevante artisticamente. 
"Um anti-herói que me entreteve e me deixou horrorizado ao mesmo tempo." David Nicholls

Adam Gordon é o protagonista e narrador do romance de estreia de Ben Lerner, autor de livros de poesia premiados (e que também viveu um tempo na Espanha como bolsista, ou seja, há possibilidades de grande parte das questões evocadas pelo personagem serem derivadas doa experiência do autor no país). A obra é dividida em 5 partes bem características; em cada uma podemos observar uma etapa da produção intelectual de Adam, a qual está intrinsecamente ligada aos acontecimentos cotidianos de sua vida e de sua incansável busca por uma transgressão que nunca chega.

O protagonista inicia a narrativa questionando se é possível que alguma forma de arte tenha relevância a ponto de modificar a vida de alguém e, além disso, se ele mesmo poderia escrever algo que honrasse a bolsa que ganhou e as expectativas da instituição que o bancava em Madri. Sempre com um ar entendiado, Adam, uma das personagens mais contraditórias de toda literatura, tenta convencer constantemente o leitor que acredita em certos aspectos que na verdade refuta. Por exemplo, em um dos primeiros pontos do romance explica que nunca escreveria prosa, contudo, em um olhar atento, o leitor percebe que ele nada faz além de tentar criar em torno de si uma lenda de "anti-herói" despatriado, sempre querendo chamar atenção e despertar sentimentos ambivalentes. 

Apesar de ser um poeta, são poucas as passagens em que comenta ter tido inspiração ou escrito algo, justamente porque defende que grandes inspirações não passam de farsa e tentativas frustradas por parte dos autores. Essa sinceridade crítica acaba em muitos aspectos prejudicando sua produção, cuja genialidade é confirmada por alguns outros personagens durante o desenrolar das páginas. 

Adam também pode ser considerado um "anti-herói" não só por tentar convencer o leitor de sua mediocridade, mas pelo seu desinteresse por questões relevantes dentro do contexto histórico em que vivemos. Além disso, durante grande parte da narrativa está drogado após ter feito uso de haxixe ou de calmantes e tem uma relação amorosa repleta de conflitos com duas mulheres simultaneamente, Isabel e Tereza.

Fiquei encantada pelo protagonista de Ben Lerner não só pelo seu esforço de prender o leitor, porém pelo fato dessa personagem tão conflituosa ser um grande retrato da juventude "intelectual" contemporânea. O não pertencimento, o deslocamento dentro de grupos sociais e a angústia por escrever algo que faça sentido e seja importante na vida do outro, quando não se consegue entender ainda o que seria relevante na própria vida, não são características solitárias desse personagem. Estação Atocha, apesar da linguagem tranquila, não é uma leitura simples, despertando indagações que muitas vezes, assim como Adam, custamos em deixar para lá. 




A capa e o marcador mais bonitos da minha estante <3


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