sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Tudo Sobre Arte (Resenha)

Desde que comecei a estudar História da Arte no Brasil na Pinacoteca do Estado de São Paulo tenho procurado livros que me ajudem um pouquinho a compreender melhor o tema, observando a arte como um conceito geral para poder perceber quais são as influências e referenciais de nossos artistas. No Instagram uma seguidora me sugeriu "Tudo Sobre Arte", um guia incrível da Editora Sextante. Como estou começando na área, gostei muito do livro e resolvi compartilhar um pouquinho com vocês. 

Uma das características que mais me chamaram atenção é que a publicação é um apanhado de tudo que pode ser considerado arte hoje em dia (tudo MESMO!). Ou seja, não é uma boa escolha para quem tem interesse em algo que mostre detalhes mais específicos de um ou outro movimento artístico. Por outro lado, para uma primeira experiência de apresentação, é uma ótima escolha, uma vez que expõe tudo o que já foi produzido pelo homem desde as pinturas rupestres (e em quase todas as culturas). 

O livro é dividido em sessões, desde a pré história até os dias atuais. sendo que essas divisões são recortes temporais de acordo com a quantidade de obras que se foi produzida naquele período do tempo. Por exemplo, a primeira sessão, "Da Pré-História ao século XV" envolve um espaço abrangente, contudo, como é pequeno o número de manifestações artísticas preservadas desse período, dá conta de explicar tudo. Porém, o século XX, com todas as suas vanguardas e inúmeras obras catalogadas foi dividido em duas sessões, para uma melhor compreensão didática dos artistas e de seus movimentos. 

Dentro da divisão temporal, escolheu-se pinturas (e esculturas ou demais intervenções) que melhor caracterizam o período e o movimento em questão. Cada eixo artístico, antes de ter suas obras e responsáveis explicados, conta com uma linha do tempo em que se contextualiza historicamente o que estava acontecendo, além de ter as principais características apontadas. Assim, ao se chegar as obras, o leitor possui uma bagagem maior para avaliar o que está vendo.

Os pintores mais consagrados contam com um breve perfil ao lado do quadro, sendo que as obras possuem seus detalhes isolados e comentados. A edição faz questão de chamar atenção para os pontos que definem a obra dentro do panorama histórico em que está inserida, favorecendo a compreensão por parte do leitor.


Apesar do meu curso ser focado no Brasil, o livro não atende à essa demanda, porque é uma publicação estrangeira e fora daqui a arte latino americana é agrupada como uma coisa só (vocês devem imaginar o quanto isso me irrita e chateia haha). Como disse acima, "Tudo Sobre Arte" é interessantíssimo para quem tem curiosidade em conhecer um pouco sobre história da arte e, quem sabe, no futuro se aprofundar no tema (mesmo para quem não tem pretensões de ser um grande historiador da arte também acho incrível a possibilidade de se adquirir um pouquinho de cultura geral através dessa leitura). As páginas são muito bem ilustradas e há um cuidado por parte da edição de tornar tudo o mais didático possível. Contudo, imagino que não seja tão legal para quem já tenha um conhecimento amplo sobre a área. Estou lendo aos pouquinhos, sem obrigação de terminar e amando. 


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Só por hoje e para sempre - Renato Russo (Resenha)

No final de julho a Companhia das Letras e o MIS (Museu da Imagem e do Som) organizaram uma super festa de lançamento para o livro inédito de Renato Russo. Em abril eu já havia comentado por aqui o quanto estava ansiosa para poder ler a série de diários do líder da Legião Urbana, uma vez que sou muito fã de Renato. No evento, além de muita música, tivemos um bate papo com um amigo do cantor (o Paraná, primeiro guitarrista da Legião), o poeta Tarso de Melo, Vladimir Carvalho, diretor do filme "Rock Brasília - Era de Ouro" e Patrícia Lira, funcionária do MIS, cujo trabalho está focado no apartamento de Renato para montar a exposição que ocorrerá no museu em 2017. A conversa foi incrível e me preparou para leitura, focando meu olhar em detalhes que talvez pudessem passar despercebido, mas que fazem total diferença para compreensão do artista (vou basear minha resenha nesses comentários para que vocês possam participar disso um pouquinho também).
"O relato escrito por Renato Russo entre abril e maio de 1993, expondo sua luta contra a dependência química e pela vida, finalmente está à disposição de seus fãs. Um depoimento íntimo, corajoso e repleto de humanidade. Mais do que os bastidores de uma das maiores bandas da música brasileira, e mais do que a reafirmação da sensibilidade do astro do rock, o que emerge destas páginas é o grande homem por trás do mito, determinado a se erguer das sombras em busca de luz."

Uma das primeiras falas no bate papo foi relacionado com o fato de Renato Russo ser um visionário. Os comentadores prometiam que os leitores levariam um grande susto ao perceber que Renato tinha escritos muito bem planejados para serem publicados e lidos no futuro. Um plano ou uma meta para tempos dos quais ele infelizmente não participaria. Essa foi uma grande verdade, porém bem assombrosa. É impressionante o quanto o diário é atual. Poderia estar sendo escrito exatamente nesse instante. Renato e suas vontades são tão atuais que nos esquecemos que já se passaram 22 anos desde que ele encostou a caneta no papel e pensou naquelas palavras.

Algo que sempre senti em relação ao cantor e que foi confirmado no livro é que, apesar de toda sua genialidade, ele era muito "gente como a gente". São as mesmas angústias, as mesmas dores de amor, os mesmos cansaços, as mesmas frustrações com os amigos. Quem nunca se pegou decepcionado por achar que faz muito por aqueles que ama e recebe pouco em troca? A grande diferença é que como era poeta, sentia tudo isso muito a flor da pele e não conseguia encarar tão bem como a maior parte das pessoas. Renato não se conformava e não aceitava a mediocridade das relações, seja com namorados, amigos ou família -o que o torna uma pessoa incrível, afinal, ninguém aplaude gente média.

Apesar desses escritos pro futuro, em uma mesma folha de papel Renato poderia marcar letras de músicas a serem gravadas, confissões dos seus dias ou roteiros para falar nas terapias de grupo. Ou seja, ao mesmo tempo em que o livro publica exatamente aquilo que ele queria publicar, expõe aquilo que talvez ele não desejasse que todos soubessem, o que me causa grande angústia. Pode parecer uma grande contradição, mas as poucas entrevistas e aparições públicas demonstram o quanto Renato fazia de tudo para não aparecer e preservar sua identidade. Provavelmente ele se reviraria no túmulo se pudesse ver todos os seus rascunhos na lista de mais vendidos por semanas consecutivas.

Entretanto, reclamar da publicação de "Só por hoje e para sempre" seria uma grande hipocrisia minha. Amei ler todas as feridas abertas de Renato. Só quem é realmente fã pode entender o prazer e a alegria de ter certeza das suas semelhanças com seu ídolo. Eu ainda sorrio e morro de raiva quando lembro que um dos maiores sonhos de Renato Russo era dirigir um filme sobre "Capitães da Areia" (Renato Russo + Jorge Amado = Natália mortinha de tanto amor).

Uma das minhas maiores crenças é que tudo acontece por um motivo específico e sou muito grata pelo Renato Russo ter vivido. Ele muda minha vida todos os dias e a de milhares de outras pessoas, conectadas pelo amor a 3 acordes e uma boa poesia. Só por hoje e para sempre: comprem, leiam e guardem no melhor lugar da estante. Nós somos a Legião, nós merecemos <3


Na festa e nas livrarias estão disponíveis alguns carimbos para "autografar" o livro com a assinatura do Renato



PS: ultimamente tenho usado bastante o Snapchat! No dia da festa mostrei tudo o que estava acontecendo por lá. Meu usuário é: nataliaassarito. Me sigam! <3


domingo, 16 de agosto de 2015

Filosofia - Ascenso Ferreira

Theodore Frank

(A José Pereira de Araújo - "Doutorzinho de Escada")

Hora de comer - comer!
                            Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!

Hora de trabalhar?
-Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Ascenso Ferreira

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Toda Saudade do Mundo: A correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai (resenha)

Hoje é dia de Jorge. Em 10 de agosto de 1912 nascia, em Itabuna, Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e meu autor preferido da vida toda <3 Vocês sabem o quanto me faz feliz ler seus livros, ao meu ver não há quem produza linhas e palavras mais brasileiras. Ao mesmo tempo em que foi capaz de elaborar romances de denúncia, expondo as mazelas sociais dos indivíduos do seu tempo, era capaz de produzir narrativas gostosas, divertidas e repletas de personagens cômicos, os quais podiam muito bem ser nossos vizinhos ou algum conhecido de nosso cotidiano.

Como tenho muito interesse pelo seu trabalho literário, desenvolvi também gosto e curiosidade sobre sua vida (já falei um pouquinho sobre sua biografia nesse post aqui). Penso que entre todos os leitores de Jorge -ao menos entre os românticos- haja uma uma espécie de adoração pelo relacionamento dele com Zélia Gattai, sua segunda esposa e companheira até os últimos dias. Desde que se conheceram, todas as dedicatórias dos livros de Jorge Amado envolvem Zélia, sendo pequenas lembranças e pedaços de fragmentos que contam suas histórias. Por exemplo, na dedicatória de "Gabriela, Cravo e Canela" está escrita uma pequena estrofe, "Para Zélia seus ciúmes/ seus cantares, suas penas/ o luar de Gabriela/ e a cruz do meu amor"; enquanto que em "Tieta do Agreste", a dedicatória é "Para Zélia rodeada de netos", marcando a passagem do tempo e da vida do casal.

Preciso confessar que não tinha conhecimento da coletânea de correspondência do casal de escritores, elaborada pela Companhia das Letras, ou seja, quando ganhei de presente de dia dos namorados, fiquei radiante de felicidade. Essa é uma daquelas edições que sou muito grata por alguém ter pensado em fazer, uma vez que, além de proporcionar aos fãs conhecer um pouco mais sobre a vida íntima de Jorge e Zélia, possibilita acompanhar a história do mundo de 1948 à 1967 narrada por nada menos do que essas figuras incríveis. Outro componente incrível são as fotografias das cartas originais e cartões postais, selecionados com muito cuidado e carinho com os leitores.

Não é segredo para ninguém que Jorge Amado era comunista: seus romances possuíam grandes críticas diretas ou indiretas ao governo Vargas, o qual respondeu com represálias, obrigando o autor a ir viver na Europa. Grande parte das cartas compreendem esse período em que viveu inicialmente na França e Zélia no Brasil (porque tinha grandes dificuldades em relação ao visto de emigração e ao fato do filho mais velho do casal, João Jorge Amado, ser muito novo para uma viagem transatlântica). Nunca imaginei que o casal passou tanto tempo separado, pois, além do exílio, Jorge era muito famoso, tendo diversos compromissos literários e políticos. Contudo, as cartas revelam uma grande sintonia e companheirismo entre os dois, apesar dos ciúmes de Zélia gerados pelas prováveis escapadas do marido (em diversos trechos Jorge se explica e a tranquiliza sobre questionamentos acerca de suas secretárias, editoras, tradutoras e professoras de idiomas).

Apesar de amar o casal e ficar encantada com a narração de momentos históricos, como a morte de Gandhi, por exemplo, o que mais me encantou foi observar o processo criativo e nascimento de personagens muito importantes para a literatura e cultura nacional, como Dona Flor, Vadinho e Theodoro, do romance "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Jorge muitas vezes ficava recluso para a produção de seu trabalho, trocando cartas com a amada em que descreve a quantas andava seu processo criativo.

"Dona Flor: essa senhora vai indo. As últimas duas cenas da quarta parte saíram logo, a primeira facilmente, num dia, a segunda custando-me quatro dias: também era a chegada de Vadinho. Comecei a quinta parte, estou fazendo hoje a primeira cena, está escrita em bruto, faltando reescrever. Mas agora estou nos problemas dessa quinta parte que é fogo. Enfim, vamos ver se tenho -como é meu desideratum- o livro pronto e entregue antes de viajar." 

Imagino que entre os admiradores de Jorge Amado e Zélia Gattai não seja difícil despertar o interesse na leitura de "Toda Saudade do Mundo". A começar pelo título maravilhoso, não há maneira melhor de se conhecer uma pessoa do que uma biografia contada em detalhes corriqueiros pelo próprio indivíduo. Saber que Zélia tinha ciúmes e que Jorge tinha medo de avião me fez sentir um pouquinho próxima a eles e não há nada mais divertido do que descobrir semelhanças com seus ídolos. Jorge e Zélia tinham um amor sólido, um carinho construídos aos pouquinhos, durante todos os seus dias juntos, independentemente de que lugar do mundo estavam no momento. Dessa forma, o livro é um presente por nos permitir ser testemunhas de uma história tão bonita. 







Outras resenhas de livros do Jorge Amado:


domingo, 9 de agosto de 2015

O Poeta Come Amendoim - Mário de Andrade e o Modernismo

"Retrato de Mário de Andrade" - Tarsila do Amaral (1922)

Mastigado na gostosura quente de amendoim
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem nascidas
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
Mario de Andrade




"Retrato de Mario de Andrade" - Cândido Portinari (1935)
* Minha nossa, Nat, Mário de Andrade de novo?! Sim, porque não canso de amar esse escritor incrível que por uma benção dos céus voltou à moda por ter sido o homenageado da Flip desse ano e pelo lançamento de um livro inédito, intitulado "Café" (sempre fico imaginando editores e editoras "cavocando" tudo o que for possível até encontrar um romance inédito de alguém morto há 70 anos). Não apenas pelas palavras e escritos amo Mario, mas pela sua personalidade como um todo, ou melhor, pelo pouco que nos deixam conhecer dela.

Semana passada tive em meu curso da Pinacoteca uma aula cujo título era "Os Modernistas", nome usualmente dado para os artistas que trouxeram arte de vanguarda para o Brasil, principalmente os que participaram da Semana de 22. Dentre os modernistas mais famosos, havia o "clube dos cinco", formado por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, amigos inseparáveis que viveram a São Paulo do começo do século XX. Não tão rico como os companheiros, mas não tão pobre como a maioria dos paulistanos da época, enquanto os outros membros do "clube dos cinco" executavam a chamada arte moderna, Mario pensava e teorizava o movimento que revolucionou a expressão artística no país - meu professor chegou a brincar que nenhuma outra personalidade possui tantos retratos, pois era próximo e querido por muitos pintores, sendo que através desses retratos podemos notar o estilo de cada artista e, consequentemente, as variações modernistas.

"Retrato de Mário de Andrade" - Lasar Segall (1927)
Durante a aula muitos pontos da vida e dos ideais de Mário me chamaram atenção. O primeiro deles é como sua homossexualidade é tratada como tabu até hoje. A Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, possui todo o acervo de cartas trocadas entre o autor e Manuel Bandeira, contudo, apenas uma estava inacessível ao público: a que Mário cita de maneira discreta e elegante sua orientação sexual. Na briga judicial para liberar a carta, a Casa alegou defender a privacidade e intimidade do escritor. Porém, o que acho engraçado é ninguém se importar em defender a intimidade do mesmo ao publicar um livro que ele mesmo não quis publicado (afinal, esse é o caso de 90% das obras póstumas) ou de não tomarem todos esses cuidados ao exporem a vida de qualquer outro heterossexual, como Oswald de Andrade, por exemplo. Acredito que seja muito importante para compreensão do trabalho de todos os artistas conhecer sua biografia.

O outro aspecto que me encantou em Mário de Andrade é o fato dele nunca ter saído do Brasil, mesmo com todas as possibilidades. O autor gostava de ser brasileiro e viajou pelo país inteiro, conhecendo cada canto e cada particularidade. Sempre me entristece observar a síndrome de vira-lata constante entre nossos conterrâneos. Assim como Mário, acredito que não existe nesse mundo lugar para mim que não o Brasil. E, por amar literatura nacional, não há outro escritor mais brasileiro do que aquele que escolheu nunca sair daqui nem para dar um passeio. <3