domingo, 9 de agosto de 2015

O Poeta Come Amendoim - Mário de Andrade e o Modernismo

"Retrato de Mário de Andrade" - Tarsila do Amaral (1922)

Mastigado na gostosura quente de amendoim
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo melado melancólico
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois remurmuram sem malícia as rezas bem nascidas
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
Mario de Andrade




"Retrato de Mario de Andrade" - Cândido Portinari (1935)
* Minha nossa, Nat, Mário de Andrade de novo?! Sim, porque não canso de amar esse escritor incrível que por uma benção dos céus voltou à moda por ter sido o homenageado da Flip desse ano e pelo lançamento de um livro inédito, intitulado "Café" (sempre fico imaginando editores e editoras "cavocando" tudo o que for possível até encontrar um romance inédito de alguém morto há 70 anos). Não apenas pelas palavras e escritos amo Mario, mas pela sua personalidade como um todo, ou melhor, pelo pouco que nos deixam conhecer dela.

Semana passada tive em meu curso da Pinacoteca uma aula cujo título era "Os Modernistas", nome usualmente dado para os artistas que trouxeram arte de vanguarda para o Brasil, principalmente os que participaram da Semana de 22. Dentre os modernistas mais famosos, havia o "clube dos cinco", formado por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, amigos inseparáveis que viveram a São Paulo do começo do século XX. Não tão rico como os companheiros, mas não tão pobre como a maioria dos paulistanos da época, enquanto os outros membros do "clube dos cinco" executavam a chamada arte moderna, Mario pensava e teorizava o movimento que revolucionou a expressão artística no país - meu professor chegou a brincar que nenhuma outra personalidade possui tantos retratos, pois era próximo e querido por muitos pintores, sendo que através desses retratos podemos notar o estilo de cada artista e, consequentemente, as variações modernistas.

"Retrato de Mário de Andrade" - Lasar Segall (1927)
Durante a aula muitos pontos da vida e dos ideais de Mário me chamaram atenção. O primeiro deles é como sua homossexualidade é tratada como tabu até hoje. A Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, possui todo o acervo de cartas trocadas entre o autor e Manuel Bandeira, contudo, apenas uma estava inacessível ao público: a que Mário cita de maneira discreta e elegante sua orientação sexual. Na briga judicial para liberar a carta, a Casa alegou defender a privacidade e intimidade do escritor. Porém, o que acho engraçado é ninguém se importar em defender a intimidade do mesmo ao publicar um livro que ele mesmo não quis publicado (afinal, esse é o caso de 90% das obras póstumas) ou de não tomarem todos esses cuidados ao exporem a vida de qualquer outro heterossexual, como Oswald de Andrade, por exemplo. Acredito que seja muito importante para compreensão do trabalho de todos os artistas conhecer sua biografia.

O outro aspecto que me encantou em Mário de Andrade é o fato dele nunca ter saído do Brasil, mesmo com todas as possibilidades. O autor gostava de ser brasileiro e viajou pelo país inteiro, conhecendo cada canto e cada particularidade. Sempre me entristece observar a síndrome de vira-lata constante entre nossos conterrâneos. Assim como Mário, acredito que não existe nesse mundo lugar para mim que não o Brasil. E, por amar literatura nacional, não há outro escritor mais brasileiro do que aquele que escolheu nunca sair daqui nem para dar um passeio. <3

2 comentários:

  1. Natália, adorei saber mais sobre Mário de Andrade! Beijos www.mardevariedade.com

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    1. Fico feliz que você tenha gostado, Andreia!

      Beijos

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