segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Toda Saudade do Mundo: A correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai (resenha)

Hoje é dia de Jorge. Em 10 de agosto de 1912 nascia, em Itabuna, Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e meu autor preferido da vida toda <3 Vocês sabem o quanto me faz feliz ler seus livros, ao meu ver não há quem produza linhas e palavras mais brasileiras. Ao mesmo tempo em que foi capaz de elaborar romances de denúncia, expondo as mazelas sociais dos indivíduos do seu tempo, era capaz de produzir narrativas gostosas, divertidas e repletas de personagens cômicos, os quais podiam muito bem ser nossos vizinhos ou algum conhecido de nosso cotidiano.

Como tenho muito interesse pelo seu trabalho literário, desenvolvi também gosto e curiosidade sobre sua vida (já falei um pouquinho sobre sua biografia nesse post aqui). Penso que entre todos os leitores de Jorge -ao menos entre os românticos- haja uma uma espécie de adoração pelo relacionamento dele com Zélia Gattai, sua segunda esposa e companheira até os últimos dias. Desde que se conheceram, todas as dedicatórias dos livros de Jorge Amado envolvem Zélia, sendo pequenas lembranças e pedaços de fragmentos que contam suas histórias. Por exemplo, na dedicatória de "Gabriela, Cravo e Canela" está escrita uma pequena estrofe, "Para Zélia seus ciúmes/ seus cantares, suas penas/ o luar de Gabriela/ e a cruz do meu amor"; enquanto que em "Tieta do Agreste", a dedicatória é "Para Zélia rodeada de netos", marcando a passagem do tempo e da vida do casal.

Preciso confessar que não tinha conhecimento da coletânea de correspondência do casal de escritores, elaborada pela Companhia das Letras, ou seja, quando ganhei de presente de dia dos namorados, fiquei radiante de felicidade. Essa é uma daquelas edições que sou muito grata por alguém ter pensado em fazer, uma vez que, além de proporcionar aos fãs conhecer um pouco mais sobre a vida íntima de Jorge e Zélia, possibilita acompanhar a história do mundo de 1948 à 1967 narrada por nada menos do que essas figuras incríveis. Outro componente incrível são as fotografias das cartas originais e cartões postais, selecionados com muito cuidado e carinho com os leitores.

Não é segredo para ninguém que Jorge Amado era comunista: seus romances possuíam grandes críticas diretas ou indiretas ao governo Vargas, o qual respondeu com represálias, obrigando o autor a ir viver na Europa. Grande parte das cartas compreendem esse período em que viveu inicialmente na França e Zélia no Brasil (porque tinha grandes dificuldades em relação ao visto de emigração e ao fato do filho mais velho do casal, João Jorge Amado, ser muito novo para uma viagem transatlântica). Nunca imaginei que o casal passou tanto tempo separado, pois, além do exílio, Jorge era muito famoso, tendo diversos compromissos literários e políticos. Contudo, as cartas revelam uma grande sintonia e companheirismo entre os dois, apesar dos ciúmes de Zélia gerados pelas prováveis escapadas do marido (em diversos trechos Jorge se explica e a tranquiliza sobre questionamentos acerca de suas secretárias, editoras, tradutoras e professoras de idiomas).

Apesar de amar o casal e ficar encantada com a narração de momentos históricos, como a morte de Gandhi, por exemplo, o que mais me encantou foi observar o processo criativo e nascimento de personagens muito importantes para a literatura e cultura nacional, como Dona Flor, Vadinho e Theodoro, do romance "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Jorge muitas vezes ficava recluso para a produção de seu trabalho, trocando cartas com a amada em que descreve a quantas andava seu processo criativo.

"Dona Flor: essa senhora vai indo. As últimas duas cenas da quarta parte saíram logo, a primeira facilmente, num dia, a segunda custando-me quatro dias: também era a chegada de Vadinho. Comecei a quinta parte, estou fazendo hoje a primeira cena, está escrita em bruto, faltando reescrever. Mas agora estou nos problemas dessa quinta parte que é fogo. Enfim, vamos ver se tenho -como é meu desideratum- o livro pronto e entregue antes de viajar." 

Imagino que entre os admiradores de Jorge Amado e Zélia Gattai não seja difícil despertar o interesse na leitura de "Toda Saudade do Mundo". A começar pelo título maravilhoso, não há maneira melhor de se conhecer uma pessoa do que uma biografia contada em detalhes corriqueiros pelo próprio indivíduo. Saber que Zélia tinha ciúmes e que Jorge tinha medo de avião me fez sentir um pouquinho próxima a eles e não há nada mais divertido do que descobrir semelhanças com seus ídolos. Jorge e Zélia tinham um amor sólido, um carinho construídos aos pouquinhos, durante todos os seus dias juntos, independentemente de que lugar do mundo estavam no momento. Dessa forma, o livro é um presente por nos permitir ser testemunhas de uma história tão bonita. 







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4 comentários:

  1. Oi Natália! Me deu muita vontade de ler esse livro. Também gosto muito de Jorge Amado. Adquiri uma coletânea de livros dele em uma promoção de banca de jornal há alguns anos. Ainda não li todos. Admirava muito esse casal também. Bjs www.mardevariedade.com

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    1. Leia, você irá adorar, pode ter certeza!

      Beijos

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  2. AMEI! <3
    Já preciso.
    Beijos
    www.subindonotelhado.com.br

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    1. Se você ler, volte aqui e me conta o que achou!

      Beijos

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