terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Céu de Lima - Juan Gómez Bárcena (Resenha)

Sempre sonhei em escrever um livro. Gosto de passar horas imaginando como deve ser o processo de criação de cada personagem. Acho que o autor deve conhecer os detalhes de personalidade das suas criações aos poucos, da mesma maneira com que vamos conhecendo novos amigos e amores, com cada situação inesperada, cada surpresa que o desconhecido nos traz.

Juan Gómez Bárcena, o escritor, também me surpreendeu demais. A história criada, além de extremamente cativante, carrega traços de verossimilhança fortes. Como se não fosse pouco, o autor é um querido que responde todos no twitter, mostrando que genialidade não é uma grandeza oposta à humildade.

Os protagonistas,   José Gálvez e Carlos Rodríguez, são os burgueses perfeitos, fazendo com que nos esqueçamos em muitos momentos que a narrativa ocorre no começo do século XX, no Peru ( me peguei pensando inúmeras vezes que conheço muitos Rodríguez e muitos Gálvez). Cansados do tédio e das obrigações morais que a condição social os impunha, os dois amigos gostavam de manter uma vida boêmia, fugindo das aulas da faculdade de direito e fingindo serem grandes escritores.

Por serem grandes leitores e admiradores de Juan Ramón Jiménez, importante poeta espanhol, os jovens decidem inventar Georgina, uma musa perfeita, e enviam cartas ao escritor em nome dessa mulher fictícia (algo semelhante aos perfis fakes que encontramos nas redes sociais). A primeira abordagem de Georgina ao poeta foi muito simples, chegando a ser tímida, em que a jovem se identifica como leitora assídua do poeta. Ao longo das cartas, entretanto, a amizade entre Georgina e Juan Ramón Jiménez se estreita, com a jovem perdendo a formalidade e revelando segredos de sua vida.
"Mas o amor, onde está? Ainda não está, porque ninguém lhe deu palavras. O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou onde quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou o sentimento..."
Ao mesmo tempo em que Rodríguez e Gálvez escrevem seu romance com a ajuda passiva de Juan Ramón, adentramos na infância, traumas e lembranças dos protagonistas. Rodríguez, filho de um seringueiro que consegue ficar milionário com o ciclo da borracha, tem em suas primeiras lembranças imagens da violência contra os indígenas, resultando em um constante sentimento de repulsa a assumir qualquer tipo de conflito (o personagem nunca consegue impor suas vontades e sentimentos verdadeiros). Gálvez, por outro lado, nasceu em uma família tradicional peruana e durante toda narrativa espera que seus caprichos sejam atendidos por todos.

"O acampamento estava cheio de meninos que não eram meninos propriamente ditos, porque eram filhos dos trabalhadores indígenas e por isso não podia brincar com eles, nem sequer olhá-los de frente. (...) Faz de conta que são invisíveis, advertiu seu pai."

A primeira vista, o enredo parece simples, quase banal. A beleza do Céu de Lima está naquilo que é contado ao mesmo tempo em que toda confusão acontece.  Como se fossem múltiplas estórias em uma. A história do bacharel, que ao ajudar nas cartas de Georgina, ensina tanto sobre o amor. A violência e a maneira com que os indivíduos encontram para enriquecer e se tornarem "homens de bem" são retratadas. O livro também fala de distúrbios psicológicos em uma época cujos sintomas eram tratados como frescuras e ser considerado louco era o pior que podia acontecer a alguém. No meio da narrativa, o leitor também se depara com a prostituta polaca, uma criança de 13 anos e o desespero dela se torna o nosso.

Devido ao desespero de Gálvez que não estava satisfeito com a resistência de Juan Ramón em assumir seu amor, Georgina é criada por diversos homens diferentes. Rodríguez, o bacharel, Gálvez e os boêmios do clube vão moldando aos poucos a personalidade dessa mulher sem rosto. Me peguei por muito tempo refletindo sobre a construção de Georgina e o papel social da mulher. Quantas de nós sentimos que têm homens demais dando pitacos em nossa vida? Homens demais pensando que deveríamos ser mais simpáticas, mais carinhosas, mais aventureiras, mais recatadas, mas desinibidas... Homens demais achando que nossos corpos estão à disposição quando saímos nas ruas e que estamos dispostas a escutar suas opiniões sobre nossos corpos e comportamento. Quantos homens e suas opressões machistas formam uma mulher?

Por fim, O Céu de Lima é um livro sobre todos os sonhos que nunca iremos realizar e como romantizamos memórias que nunca chegaram perto do que lembramos. Senti uma tristeza muito forte ao ler as últimas frases. O mesmo que sinto todas as vezes que chego perto demais daquilo que está para se tornar um clássico de um tempo.



domingo, 28 de agosto de 2016

24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo! Dicas + Compras



Na última sexta, 26/08, começou a 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, nossa grande feira literária e evento mais esperado <3 Essa foi minha quarta Bienal, portanto, consegui identificar algumas diferenças em comparação aos anos anteriores, principalmente no que diz respeito ao tamanho do evento e aos descontos disponibilizados pelas editoras.  Além disso, também mudei ao longo desses dois anos, algo que foi refletido tanto nas minhas compras, quanto no estandes preferidos.

Antes de sair de casa, lancei um desafio na página do blog no Facebook: levei apenas R$72 e mais nada na carteira (nenhum cartão, nadinha!). Em 2014 havia comprado cerca de 20 livros, sendo que a maior parte deles não foi lida (você pode conferir o bookhaul aqui) e, atualmente, avaliando, não fico tão feliz com isso. Busco por livros bons e capazes de serem lidos em breve.

Obviamente, também precisava gastar pouco e percebi que não estava sozinha nessa missão. O número de visitantes era muito menor em relação aos últimos anos e o tamanho do evento, em si, diminuiu. Além de ser um forte reflexo do momento econômico que vivemos, essa mudança reflete o sucesso das livrarias online, as quais arrebentam no desconto, fazendo com que as livrarias físicas percam muitos clientes.

  • Estandes preferidos
Ao contrário dos últimos anos, os estandes que mais me atraíram -e ao público em geral- foram de livrarias como Top Livros, as quais estipulam preços únicos. Era possível encontrar obras diversificadas de editoras como Companhia das Letras, Intrínseca, Zahar, Sextante, entre todas as outras grandes, por preços muito menores do que nos estandes das próprias marcas originais. Boa parte dessas livrarias colocavam preços como R$10, R$20 e R$30, algo que facilitou muito no meu baixo orçamento.

  • Praça de Alimentação
Estou em um momento muito comilão da vida, então amei esse aspecto da Bienal. São duas praças com tudo o que dá vontade de comer na vida. Spoletto, Dominos Pizza, todos os tipos de lanches e doces, tapiocas e salgados! Queria comer tudo <3


Masss, afinal, o que eu comprei com os R$72???


Como vocês podem observar: só gastei R$40 dos R$72! Juro que não foi planejado, meu objetivo era gastar tudo que tinha levado, mas acabei passando mal no meio do evento. Minha pressão caiu e comecei a sentir dores fortes no corpo (tenho trabalhado e estudado muito, não está fácil). Então, acabei indo embora cedo. De toda forma, estou muito satisfeita com minhas compras.

  • Viva o Povo Brasileiro - João Ubaldo Ribeiro (R$9,90 no estande da Companhia das Letras)
  • Mal Estar na Civilização - Freud (R$10,00 em um dos estandes de preço único)
  • Outliers - Malcolm Gladwell (R$15,00 em um dos estandes de preço único)
  • A Fábrica de Sonhos da Pixar - Robert Velarde (R$5 na Universo dos Livros)
Outliers foge um pouco do que costumo ler, uma vez que é um livro sobre grandes líderes e suas características únicas. Não gosto de gastar meu tempo com essas leituras, sendo bem sincera. Mas, estou em um momento em que preciso aprender sobre o mercado e o mundo corporativo. Comecei a estagiar em uma multinacional e quero muito me desenvolver. Então, fiquei feliz em encontrar um bom livro por mais da metade do preço, em comparação ao estande da Sextante.

Sabe, por mais que estejamos sem dinheiro (cansados, desacreditados com a vida, quase que no Teatro dos Vampiros do Legião Urbana), acho muito válido visitar a Bienal. São diversas palestras e é sempre gostoso estar em contato com pessoas que amam as mesmas coisas. Indo com tempo, paciência e disposição, é possível encontrar livros raros e boas ofertas. Durante a semana, o ingresso custa R$20,00, aos fins de semana, R$25 (estudante paga meia <3!)


Se você quiser ver todos os meus posts sobre a Bienal de 2014: http://www.abortoliterario.com/search/label/Bienal%20do%20Livro%202014

Até 2018, Bienal! 

domingo, 3 de julho de 2016

Um amor chamado POEME-SE (cupom de desconto!)

http://www.poemese.com/
http://www.poemese.com/

Sabe quando você gosta tanto de algo que simplesmente ama ver um pouquinho disso em tudo o que faz na vida? Eu sou assim com livros.

Sim, vocês sabem. Eu criei o Aborto Literário com 15 anos para poder falar sobre o que leio, as exposições de arte que frequento, filmes que me fazem pensar... Minhas redes sociais estão lotadas de tudo o que desperta um pouquinho de poesia em mim. Muita gente, que eu nem imagino, me conhece por causa dos livros.

Dessa maneira, eu não poderia ter ficado mais feliz quando fui apresentada à "Poeme-se", a marca de camisetas que mais combina comigo (e com vocês que me leem) da Internet. A proposta da Poeme-se é bem simples: levar a literatura para além das páginas. E, sério, eu me sinto extremamente em casa e confortável quando consigo me expressar através das minhas roupas e acessórios.

O mais legal de tudo isso: leitor do Aborto Literário tem 30% de desconto! É só usar o cupom "ABORTOLITE" na hora de comprar até o dia 31/07 <3 


Vou mostrar algumas das minhas estampas de camisetas preferidas pra vocês:



Máquina de poemas cinza: http://www.poemese.com/bata-maquina-de-poemas-cinza/p
Simone de Beauvoir: http://www.poemese.com/bata-simone-de-beauvoir/p

Óculos (Di) Versos: http://www.poemese.com/oculos-di-versos/p
Poética: http://www.poemese.com/545-t-shirt-helvetica-poetica-preta/p

Vida de Escritor: http://www.poemese.com/t-shirt-vida-de-escritor/p
Amor Segundo Bukowski: http://www.poemese.com/bata-amor-segundo-bukowski/p



A Poeme-se possui dezenas de estampas, sendo possível escolhê-las em 3 modelos de camisetas diferentes: T-shirt, babylook e bata. Você pode pesquisar seus ítens preferidos tanto por tipo (camiseta, caneca, almofada, botom), quanto por poeta. Os tamanhos vão do P ao XG e o frete é gratuito para compras acima de R$100 na região sudeste.

Outros produtos que quero pra já <3 :

Poster Machado de Assis: http://www.poemese.com/171-poster-machado-de-assis/p

Kit porta-copos: http://www.poemese.com/kit-que-o-mundo-poeme-se2/p

Poesia um Santo Remédio: http://www.poemese.com/poesia-um-santo-remedio--para-se-sentir-bem/p
Kit Mestres dos Verso: http://www.poemese.com/kit-mestres-do-verso/p



É muito amor em uma marca só! Aproveitem a oportunidade e comprem com o cupom do blog, "ABORTOLITE" (não esqueçam, o cupom é válido apenas até o dia 31/07!). 30% é um descontão! Eu já quero a loja inteira hahaha... E, antes que eu me esqueça, fiquem de olho aqui no blog, teremos muitas novidades incríveis com a Poeme-se! 

domingo, 26 de junho de 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão - Martha Batalha (Resenha)

Esse é o melhor livro que li e lerei esse ano. Não preciso esperar todos os outros que virão para saber disso. Tenho uma lista curtíssima de livros preferidos, três, para ser mais exata. Dom Casmurro, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Travessuras da Menina Má. Todos com mulheres fortes e homens terrivelmente arruinados nas mãos dessas digníssimas damas. Eurídice Gusmão surgiu tentando empurrar a Menina Má, minha tão querida Chilenita, com todas as forças. Tive que segurá-la firmemente. Tenho essa ranhetice por natureza, odeio livros tão bons. Porque, não sei se vocês concordam, se um é tão incrível, diminuí-se o número de livros incríveis a serem lidos. E continuar é importante. 

Calma, Eurídice, você é a quarta do meu coração e da minha lista tão exigente. Quarta, mas com um carinho diferente que dedico a todas as outras. Eurídice Gusmão, nenhuma outra é tão sincera quanto você. Nenhuma outra é tão mulher. Porque apenas Eurídice, que poderia ser nossa avó, foi criada por uma mulher. Capitu, Flor, Chilenita... Repito, nenhuma é tão mulher como Eurídice Gusmão. Por mais brilhante que um autor seja, ele nunca saberá o peso e a força de ser mulher. Nenhum homem sentiu, nem mesmo por um dia, infelizmente, o que é ser mulher. 

"Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido"

O primeiro romance de Martha Batalha, como a própria orelha do livro diz, surpreende em qualidade e, não à toa, os direitos do livro já foram vendidos ao cinema. A linguagem da autora é direta, ligeira e irônica, como se cada palavra ali escrita tivesse sido cuidadosamente escolhida para atender um fim objetivo. A protagonista, Eurídice Gusmão, representa a típica mulher carioca nascida nos anos 20 e pertencente à classe média. 

Eurídice nos é apresentada como uma mulher extremamente inteligente e brilhante, podendo ter sido engenheira, biomédica, escritora ou qualquer outra coisa que desejasse e lhe permitissem. Contudo, o que lhe foi designado foi o casamento com Antenor, um homem justo e bom que "não sumia na rua em orgias e em casa não levantava a mão. Ganhava bem, reclamava pouco e conversava com as crianças. Ele só não gostava de ser incomodado quando lia seu jornal, quando dormia até tarde e quando descansava depois do almoço, e desde que seus chinelos permanecessem em paralelo ao pé da cama, que seu café fosse servido quase que fervendo, que não houvessem natas no leite, que as crianças não corressem pela casa, que as almofadas permanecessem na diagonal (...) e que os banheiros cheirassem a eucalipto, ele não exigia demais" (p. 33). E, sendo assim, o que Antenor e todos os demais maridos da época esperavam de suas esposas é que elas não dessem muito trabalho, ocupando-se das funções lar, da criação das crianças e das demais atividades pertinentes às mulheres. Eurídice, tão inteligente, logo entendeu que pensar não cabia nas suas tarefas. Então, de acordo com sua educação e pensando no bem da família, desistiu de pensar, mantendo-se o tempo todo ocupada.

Contudo, Eurídice Gusmão não era uma mulher simples e até para encontrar tarefas e se distrair dos pensamentos, pensava demais. Primeiro começou a desenvolver receitas, comprou um caderno para anotá-las, fez criações maravilhosas e intensamente rejeitadas por seu núcleo familiar. Poderia ter publicado seu livro de receitas e se tornado uma chef reconhecida. Mas o caderno, coitado, acabou no lixo junto com as sobras do jantar.

Depois, com os filhos já crescidinhos, situação financeira melhor, empregada em casa e sem tantos afazeres, Eurídice decidiu aprender a costurar. Ganhou uma máquina e começou a fazer suas próprias roupas. Entretanto, costurar apenas suas roupas começou a parecer pouco. Decidiu abrir porta para uma ou outra vizinha, reproduzir os modelos das revistas e quando percebeu, costurava a tarde toda, possuía uma funcionária e boa parte das mulheres do bairro eram suas clientes. Eurídice poderia ter sido uma grande estilista.  Porém, Antenor, ao descobrir, teve a reação que qualquer "bom marido dos anos 50" teria: proibiu-a, afinal, os vizinhos poderiam pensar que estavam passando por uma má situação financeira e que ele não era homem o suficiente para sustentar a casa. 

"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" é uma obra prima contemporânea. Se a leitora não se reconhece na protagonista, consegue avistar traços de seu DNA nas coadjuvantes tão bem construídas. A irmã de Eurídice, Guida, abandonou o destino que lhe era reservado, fugindo com o namorado da adolescência e, posteriormente, tendo que passar boa parte da vida sobrevivendo como uma mãe solteira. A vizinha fofoqueira, Zélia, nasceu em uma família totalmente desestruturada e teve seu talento de jornalista morto junto com o pai, passando, então, a forjar infelicidade em todos que conhecia, algo que lhe dava muito prazer. Maria das Dores, a empregada doméstica, por outro lado, não possui muita história a ser contada, em uma crítica feroz de Martha Batalha, afinal, em um mundo em que mulher nenhuma tem voz, a pobre e periférica tem menos ainda. 

Durante muitos momentos da narrativa tive vontade de abraçar todas essas mulheres. Elas são minhas avós, mas também são eu, nesse país ainda tão barroco, machista e atrasado. Da mesma forma que existe "A Parte Eurídice que Não Queria que Eurídice Fosse Eurídice", dentro de mim carrego uma parte "Natália que Não Quer que Natália Seja Natália", a qual grita que eu preciso aprender a ter humildade e apreciar o meu lugar, que ainda sou muito pouco, que preciso tomar cuidado com a roupa que uso na rua, que chamar atenção demais é um pecado, mas chamar atenção de menos também é, que meu cabelo precisa estar hidratado, que não passo credibilidade quando não estou maquiada, que minha ambição é condenável e que meus sonhos são excêntricos (palavra criada para mulheres se sentirem esquisitas fazendo coisas que homens fazem com naturalidade).

Entretanto, da mesma forma que o livro não é a história de "Das Dores", não é a de Natália Assarito. Martha Batalha fez nascer um pequeno gigante de 188 páginas. Eu poderia ter escrito aqui sobre desigualdade social, machismo, sexismo e como a ascensão econômica permite que categorias oprimidas respirem aliviadas. Quem sabe um dia ainda volte aqui para discutir outros tantos temas desse romance. 

Por hora, muito obrigada, Eurídice Gusmão, por ter me feito entender que minha realidade é um desenrolar da vida das minhas avós. Sinto muito por nós ainda sermos tantas vezes iguais a você e precisarmos demonstrar coragens absurdas para sermos respeitadas (sabe, quando tentamos impor respeito nos chamam de histéricas, mandonas e péssimas líderes). Mas eu te juro, estamos lutando muito. Nossa liberdade não demora a chegar. A cada dia que passa estamos mais perto de sermos a mulher que podemos ser. 



terça-feira, 24 de maio de 2016

TAG: By the Book



Do fundo do meu coração: amo publicações e vídeos sobre TAGs! <3 Acho muito incrível poder acompanhar as respostas dos seus blogueiros preferidos e saber se elas batem ou não com a suas. Sempre que entro em contato com uma fico mentalmente tentando responder e imaginando se vocês curtiriam ou não minhas respostas. Por isso, hoje vim responder a TAG "By the Book!", traduzida pela Tati Feltrin (o vídeo dela tá aqui). Espero que vocês gostem.


1. Qual livro está na sua cabeceira?
É muito difícil que eu leia apenas um livro por vez, sempre faço várias leituras ao mesmo tempo e emendo um no outro. Porém, o que mais está me chamando atenção é A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Esse é o romance de estreia da autora, Martha Batalha, e já tem os direitos vendidos pro cinema. Na história, a escritora narra a vida das nossas avós e os tantos sonhos frustrados devido aos papéis de gênero do século passado. A leitura está mexendo muito comigo, as palavras da autora são de uma delicadeza e expressividade sem igual. De verdade, vai entrar facilmente para minha lista de livros preferidos da vida.




2. Qual foi o último livro realmente bom que você leu?
A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Esse é um daqueles livros soco no estômago total. Vamos dizer que nem é o meu melhor momento para realizar esse tipo de leitura, mas Tolstói sempre vale a pena. Nele, Ivan Ilitch é um burocrata bem sucedido que acaba morrendo após pegar uma doença misteriosa. O autor, então, passa a narrar os momentos de convalescença do protagonista, o qual rememora ao longo das páginas seus momentos de glória e de como viveu a melhor vida que alguém poderia ter vivido. Assim, somos fisgados pela narrativa e levados a refletir se os padrões e imposições sociais são realmente tudo aquilo que precisamos para ter felicidade.




3. Se você pudesse encontrar qualquer escritor/a, vivo/a ou morto/a, quem seria? E o que gostaria de perguntar a ele/ela?
Essa é em um milhão de anos a pergunta mais difícil da TAG. Se eu tivesse que escolher apenas um autor, teria que ser Machado de Assis. Cá entre nós, eu queria muito saber se ele realmente quis criar o mistério eterno de "Capitu traiu ou não Bentinho", porque sempre tive a impressão que a genialidade foi por acidente. Sei lá, fico imaginando que na cabeça dele estava bem claro se ela traiu ou não, mas isso não foi passado pro papel por algum motivo. Porém, se eu pudesse roubar um pouquinho, com certeza encontraria também o Jorge Amado e perguntaria qual o segredo para encontrar e viver um amor de uma vida toda, tão bonito, como o dele e o da Zélia Gattai (já escrevi sobre as cartas deles nesse post aqui). 



4. Um livro que ficaríamos surpresos de encontrar na sua estante?
Marley & Eu, do John Grogan. Gente, fazer o quê se o Marley é um lindo?! Se não me engano, já expliquei em alguma TAG que esse livro foi muito importante na minha adolescência. Li quando tinha 13 anos e além de reforçar meu amor pelos animais, o autor me fez querer MUITO ser jornalista. Eu amava os acontecimentos da vida dele e ficava sonhando poder viver situações parecidas quando fosse adulta. Como a vida é uma rasteira sem fim, não fiz jornalismo, mas pelo menos entendi que o meu caminho era humanas e nunca parei de escrever <3 Por falta de um, tenho dois Marley & Eu na estante, hehe.




5. Como você organiza sua biblioteca pessoal?
Então, logo que ganhei essa estante, todos os meus livros cabiam perfeitamente e a organização era maravilhosa. Na primeira fileira ficavam os livros da faculdade, na segunda, os poetas e todos os meus livros de literatura nacional, na terceira e quarta, literatura estrangeira e, na última, minhas coleções de arte. Porém, esse passado está bem distante da minha realidade atual, haha. Só os livros da faculdade já tomam praticamente a primeira e segunda fileiras inteiras e apenas faço questão de deixar eles todos juntos. Assim, todos os outros gêneros viraram uma mistureba. Além disso, meu número de volumes triplicou. então tenho livros colocados em todo e qualquer espaço que abra na minha casa #realidades.




6. Qual livro você já deveria ter lido?
Os Miseráveis, de Victor Hugo. Li as primeiras 300 páginas desse livro e simplesmente amei. Falando sério, vocês não fazem ideia de como esse clássico merece tudo de incrível e extraordinário que falam sobre ele! Me emocionei muito apenas assistindo o filme musical. Contudo, está quase impossível, na minha realidade, conseguir ler algo com mais de 1000 páginas. Esse ano meu transtorno de ansiedade está pior do que nunca, o que, acrescido da faculdade, sugam 100% do meu tempo (e semana que vem eu começo a trabalhar também!). Ou seja, me cobro muito de retomar a leitura, mas sei que infelizmente não será agora.



7. Um livro que o/a desapontou, superestimado, nada bom?
As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Não apenas esse livro específico, como "O Incêndio de Tróia", ou seja, tudo o que eu tentei ler da autora, me desapontaram. É um pouco chato admitir isso, porque os temas adotados pela escritora são muito do meu interesse (ela recria mitos e histórias famosas a partir do ponto de vista das personagens mulheres), mas não casei com a escrita dela. Todos os blogueiros elogiam e, sinceramente, acho que todo mundo deveria tentar ler, porque é muito interessante. Contudo, euzinha, infelizmente, sempre largo por não conseguir absorver nada além de tédio.




8. Que tipos de histórias chamam a sua atenção? De quais tipo de histórias você mantém distância?
Vocês sabem que esse ano tenho dois grandes projetos no blog: Lendo a América Latina e Lendo Mulheres. Tive essa ideia motivada pelo livro Travessuras da Menina Má, do Mario Vargas Llosa. Gosto muito de romances com abstrações mais adultas e com a América Latina como cenário (e esse é o livro perfeito para aproveitar isso). Me sinto muito feliz em aprender um pouco mais sobre o passado e costumes dos diferentes povos do nosso continente através da literatura. Por outro lado, estou bem distanciada de "romances YA", ou livros com pegada mais jovem. Eu amo de paixão assistir filmes baseados em livros YA, não nego e nem tenho vergonha, mas não tenho muita paciência para as leituras.



9. Se você pudesse indicar um livro para o/a presidente, qual seria?
Não gosto de falar sobre política nesse espaço do blog especificamente, porque acredito que a minha função aqui é estimular a leitura em um país que tão pouco lê, sendo que no momento em que estamos, política divide e cria ódio. Mass, já que a pergunta está feita e levando em consideração que nosso presidente em exercício é o Michel Temer, indicaria o 18 de Brumário de Luís Bonaparte, brilhantemente escrito por Karl Marx. Até agora na minha graduação precisei ler o livro todo 3 vezes, de tão importante para ciência política. Além disso, pensar em Temer é lembrar a frase de abertura do livro: "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa". Deixando aqui minha humilde opinião, Michel Temer não representa absolutamente nada além de uma grande farsa.



10. Quais livros você pretende ler em breve?
Minha lista de leituras em andamento é imensa, mas vou tentar listar alguns aqui: "Rock and Roll é o nosso trabalho. A Legião Urbana do underground ao mainstream", da Érica Ribeiro Magi, "O Essencial da Década de 1970", de Caio Fernando Abreu"Correspondência: 1928-1940", de Theodor Adorno e Walter Benjamin e "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", de Clarice Lispector. (Coloquei uma foto de Dom Casmurro para ilustrar porque uma vez por ano faço questão de parar tudo e ler esse que é meu livro preferido).




*Era isso! O que vocês acharam das respostas? Mudariam algo ou querem ver algo resenhado em breve? Não briguem comigo por causa de política, hein, a gente deixa esse micão pro Facebook <3


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Para Poder Viver - Yeonmi Park (Resenha!)

Meu primeiro livro escolhido enquanto parceira da Companhia das Letras foi o lançamento "Para Poder Viver", de Yeonmi Park. Confesso que queria algo que fugisse totalmente da minha zona de conforto, ao mesmo tempo em que não me deixasse totalmente perdida. Assim, o primeiro livro lançado sobre uma desertora da Coreia da Norte me pareceu tentador, uma vez que não costumo ler muitas biografias e enquanto estudante de ciências sociais me interesso muito por geopolítica e culturas diferentes da nossa.

Me causa muito estranhismo imaginar que em pleno 2016, com as redes sociais bombando, ainda existam países tão inacessíveis ao nosso conhecimento. A Coreia do Norte talvez seja o principal desses países, afinal, até Cuba tem aberto suas relações com o capitalismo.

Yeonmi Park tem 22 anos e ficou famosa ao contar sua história em um discurso do One Young World (você pode ver aqui)- o vídeo original possui mais de 2 milhões de visualizações. No livro, decidiu escrever fatos inéditos sobre sua trajetória, os quais envolvem suas memórias de infância, a fuga para a China, seu envolvimento com o tráfico de pessoas e tudo que aconteceu em sua vida até tornar-se uma ativista dos direitos humanos reconhecida mundialmente. 

Para Poder Viver é um livro extremamente surreal, Park descreve particularidades que nos parecem completamente absurdas, tornando-se difícil, em diversos momentos, acreditar na autora (o que me levou a pesquisar bastante). Em diversas passagens tive a impressão de ler George Orwell ou Huxley, inclusive citados várias vezes durante a narrativa. 

Temos amplo conhecimento sobre ditaduras, uma vez que até mesmo o Brasil viveu longos anos em um regime militar. Talvez por isso não seja tão difícil crer quando Yeonmi conta que pessoas morrem na Coreia do Norte por contestarem o governo ou fazerem ligações internacionais não autorizadas. Contudo, é difícil compreender que seus compatriotas acreditam que seu líder é imortal ou possui capacidade de ler suas mentes (e, por incrível que pareça, isso é verdade).

Outra passagem absurda é quando Park narra que viveu em uma cidade fronteiriça com o interior da China e seu sonho era poder cruzar a fronteira para usufruir do conforto que seus vizinhos possuíam. Não havia eletricidade ou uma quantidade de comida diária razoável em sua cidade. Nós sabemos sobre fome, trabalho escravo e feminicídio na China. Que tipo de vida pode ser tão cruel a ponto de tornar a China um sonho luxuoso?

É essa a vida narrada pela autora. Um lugar em que corpos ficam estendidos nas ruas, pais morrem de câncer sem nunca terem um diagnóstico, famílias inteiras pagam por um erro de um parente distante, relações amorosas não existem e a única crença permitida envolve a família do ditador. Porém, isso engloba apenas metade das 308 páginas.

O conto de terror piora quando Park consegue chegar à China e é traficada, separada da família, vendida por poucos dólares e estuprada por anos. Foi muito duro ler essas páginas. A violência contra mulher ainda é muito forte em todo mundo e precisa ser combatida. É inaceitável que meninas não tenham o direito de trilhar o próprio caminho e escolher viver como desejam.

Contudo, é muito bonito observar como cada um carrega um instinto de sobrevivência e forças dignas de super heróis dentro de si. Park cruzou o deserto somente guiada pelas estrelas em busca de uma vida melhor. Quando conseguiu, estudou e lutou ainda mais para poder se integrar em uma sociedade totalmente alheia à sua existência.

"Aprendi outra coisa naquele dia: todos temos nossos próprios desertos. Podem não ser iguais ao meu deserto, mas sempre teremos de atravessá-los para encontrar propósito na vida e para sermos livres."

Por mais contraditórias que algumas passagens pareçam, Para Poder Viver cumpre um papel importantíssimo: disseminar informações. O que ali está escrito não pode ser contestado, porque ninguém na Coreia do Norte pode escrever livremente sobre sua realidade (e isso, por si só já é problemático). Yeonmi Park é uma mulher que lutou por cada dia de sua liberdade e hoje vive em função de libertar seu povo. O livro me fez dar valor às pequenas e grandes coisas do meu dia-a-dia. Todos deveriam ler.




quarta-feira, 27 de abril de 2016

Wishlist: Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura

Reprodução
Instalou-se a histeria entre os blogueiros de literatura logo após a Folha anunciar sua nova coleção de livros. Eram muitos snaps e posts no Instagram especulando quais seriam os títulos e o preço a ser cobrado em cada volume. Cá entre nós, isso de influenciar o surgimento de cada vez mais leitores acaba aumentando também nossa lista de desejos e nos tornando os maiores consumidores das editoras (eu ainda vou falir, juro! hahah). Brincadeiras a parte, toda essa expectativa se deve ao fato da Folha saber, mais do que ninguém, como lançar coleções de qualidade em edições lindas. 

Os "Grandes Nomes da Literatura" são realmente autores pesadíssimos: Proust, Fitzgerald, Tolstói, Sylvia Plath, Machado de Assis... E, além desses, a coleção surpreende por trazer escritores não tão comuns e livros praticamente fora de catálogo, como "O Marido Dela", de Luigi Pirandello, "O Compromisso", de Herta Müller e "O crime do padre Amaro", de Eça de Queirós (mal posso esperar por esse <3).  Fica fácil perceber que a escolha dos títulos foi feita com bastante cuidado e atenção para realmente compilar todos esses gênios da literatura. 

Como já adquiri 3 livros, observei que a Folha comprou os direitos para publicação das melhores editoras que possuem os títulos no mercado. Por exemplo, A Fugitiva, de Proust, é o MESMO livro da Globo Livros, sendo que a diferença está na capa (todos os livros possuem capas duras com pinturas de Weberson Santiago), na diagramação e, principalmente, no preço. Cada volume custa R$19,90 (o valor pode variar em algumas localidades). 

Deem uma olhada nos títulos (vou opinar no que der, hehe):
  1.  A Fugitiva - Proust
  2.  O curioso caso de Benjamin Button - F. Scott Fitzgerald
  3.  Admirável mundo novo - Aldous Huxley (tenho e é ótimo)
  4.  A morte de Ivan Ilitch - Tolstói
  5.  Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector   (acho que já li e gostei muito!)
  6.  O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde    (tenho)
  7.  Memórias do subsolo - Dostoiévski
  8.  Retrato do artista quando jovem - James Joyce
  9.  O marido dela - Luigi Piradello
  10.  Mrs. Dalloway - Virginia Woolf      (tenho!)
  11.  Assassinatos na rua Morgue e outras histórias - Edgar Allan Poe
  12.  A obscena senhora D - Hilda Hilst      (quero mais que a vida!)
  13.  A metamorfose - Franz Kafka             (já li, não gosto de Kafka, sou a diferentona)
  14.  O compromisso - Herta Müller
  15.  Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe
  16.  Malone morre - Samuel Beckett
  17.  Férias de Natal - W. Somerset Maugham
  18.  Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis   (tenho, livro lindo, LEIAM!)
  19.  O coração das trevas - Joseph Conrad
  20.  A invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares
  21.  O pai Goriot - Balzac
  22.  A redoma de vidro - Sylvia Plath           (quero mais que a vida 2!)
  23.  Fahrenheit 451 - Ray Bradbury             (essa história é demais, sério!)
  24.  Livro do desassossego - Fernando Pessoa
  25.  O americano tranquilo - Graham Greene
  26.  A cartuxa de Parma - Stendhal
  27.  Ódio, amizade, namoro, amor, casamento - Alice Munro
  28.  O crime do padre Amaro - Eça de Queirós      (quero mais que a vida 3!)

O que eu acho mais incrível dessas coleções é poder conhecer novos e excelente autores pagando pouco (nunca li nada da maioria e não tenho problema nenhum com isso, afinal, estamos na vida para aprender!). Cada domingo um volume é lançado nas bancas e dá pra comprar a coleção completa, lotes ou livros individuais pelo site da Folha (link aqui). Sinceramente, como já tenho alguns em meu acervo, acho besteira comprar a coleção completa, vou adquirir apenas os que ainda não possuo. Além disso, amo ir na banca toda semana e comprar um por vez, assim, quando o livro é pequeno consigo ler na própria semana enquanto o outro não sai (é um estímulo muito bom para lermos mais)! Contudo, é óbvio que nem todo mundo mora em cidade grande e algumas pessoas estão tendo dificuldades para encontrar os livros, então vale super a pena comprar pela internet.

A equação é simples, não tem nada melhor que livro bom, barato e bonito, hehe! 

*Vocês estão gostando da coleção, pretendem completá-la? Me digam aqui embaixo!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Galileu Galilei - Teatro


Reprodução
Nesse mês tive a oportunidade de assistir a última apresentação de "Galileu Galilei" no Teatro Tuca em São Paulo, peça de Brecht com direção de Cibele Forjaz e atores consagrados como Denise Fraga e Ary França. Ao final da encenação, Denise pediu aos expectadores que continuassem com o "boca-a-boca", ou seja, fizessem sua propaganda da peça, pois é isso que atrai público e mantém tudo vivo. Como amei e sempre compartilho com vocês o que acho incrível, quebrei meu jejum de posts para falar sobre esse espetáculo que não abandona meus pensamentos.

"Infeliz a terra que precisa de heróis." A famosa citação de Brecht é carro-chefe do enredo da peça, cuja temática deixa de exaltar a figura de Galileu como herói e o caracteriza de maneira humana, repleto de defeitos e fraquezas. O cientista, famoso por afirmar que, ao contrário do que a Igreja Católica proclamava, a Terra não era o centro do universo e girava em torno do Sol, precisou abdicar de suas descobertas para não ser condenado pela Inquisição. Dessa maneira, o espetáculo traz para debate os limites da ciência, os quais envolvem a moral, a política e a economia. 

Por mais estranho que pareça, até hoje Galileu é considerado covarde por alguns. Entretanto, sua biografia comprova o quanto foi um homem a frente de seu tempo. Quando jovem, largou a Universidade e voltou depois de adulto como professor. Viveu em diversos locais da Itália em busca de mecenas, nunca abrindo mão de seus projetos. Justamente por isso, para não precisar poupar a humanidade de seus trabalhos, desistiu de combater a Igreja e pode, em sigilo, terminar um dos livros mais revolucionários da ciência, I DISCORSI.

Antes de Galileu, alguns cientistas haviam afirmado que a Terra girava em torno do Sol, sendo rapidamente condenados à fogueira. O processo de Galileu, contudo, durou mais de 10 anos, uma vez que ele havia "inventado" o telescópio e podia comprovar o que dizia... Bastava olhar através do aparelho e todas as respostas seriam exibidas. Porém, as pessoas se negavam a chegar perto do telescópio, em uma tentativa de não questionar o que já era dado pela moral. 

Esse é o momento mais bonito de todo o texto, na minha humilde opinião. Fiquei muito tempo pensando o quanto essa atitude arcaica se mantém ao longo dos séculos. Os indivíduos acreditam em ideias fixas e não ousam questioná-las. As verdades sempre são muito inabaláveis. Divaguei sobre a situação política do Brasil e como alguns setores preferem tapar os ouvidos para aqueles que gritam o óbvio. Senti tristeza e felicidade, tudo ao mesmo tempo. Até agora me arrepio relembrando. 

Galileu Galilei saiu de cartaz em São Paulo para ganhar o Brasil. Entre os dias 29/04 e 01/05 ficará em curtíssima temporada no teatro Unip, em Brasília. Deixarei todas as datas aqui embaixo. Não deixem de conferir! Juro que não fui só eu que amei, a peça fez o maior sucesso no Tuca e todos meus amigos e conhecidos que admiro intelectualmente foram. Façam esse favor a vocês mesmos e não deixem de conferir, hehe <3



Reprodução

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Gringo na Laje - Bianca Freire-Medeiros

O livro de hoje, pela primeira vez na história desse blog, não é de literatura, mas uma pesquisa socioetnográfica (o nome é difícil, mas juro que a leitura não é!). Quem me acompanha sabe que no semestre passado desenvolvi na USP uma pesquisa sobre Teatro em Paraisópolis, com orientação de Bianca Freire-Medeiros, a autora de Gringo na Laje. Além de ter sido de longe a minha professora preferida da graduação, Bianca, carioca da gema, é a maior estudiosa de favelas no Brasil, tendo mapeado diversas favelas do Rio de Janeiro e atualmente morando em São Paulo para estudar Paraisópolis. Ela também possui diversos artigos publicados sobre o tema, trabalhou como pesquisadora em novelas da Glória Perez e visitou diversas favelas em torno do mundo, ou seja, sabe muito sobre o assunto!

Gringo na laje é uma pesquisa sobre turismo nas favelas do Rio de Janeiro e que usa como contraponto a visita da pesquisadora a favelas africanas e indianas. Mais de 3 mil turistas fazem mensalmente o passeio na Rocinha (ou seja, mais de 3 mil SÓ na Rocinha, sendo que o fluxo turístico em outras favelas pacificadas também é grande) e esse movimento é amplamente discutido na sociedade, a qual possui opiniões claramente antagônicas: alguns consideram que o turismo é extremamente benéfico pra sociedade, gerando empregos e aumentando a autoestima dos moradores, enquanto outros afirmam que "turismo de pobreza" é uma maneira de exploração da população local.

Ultimamente temos discutido muito sobre lugar de fala na sociedade. Por exemplo, racismo é lugar de fala de negros, portanto, um branco não deve discutir com um negro sobre o que é ou deixa de ser racismo, machismo lugar de fala de mulher, homofobia de LGBTs e por aí vai...  Digo isso pois para se ter uma opinião sobre turismo na favela, antes de mais nada, é importantíssimo ouvir o que os próprios moradores têm a dizer sobre o assunto, algo feito com muito cuidado no livro. Além de todos os dados coletados sobre número e nacionalidade dos turistas, receita gerada, dinheiro revertido para ongs, entre outros, a equipe elaborou um questionário aplicado aleatoriamente entre os moradores locais. 

Dessa maneira, para quem estuda ciências sociais, o livro é incrível por expor as técnicas de pesquisa aplicadas na prática. O leitor comum, por outro lado, não possui nenhum impedimento para a leitura. Gringo na laje foi a primeira pesquisa acadêmica que li sem esforço algum. O tema me interessou demais e a escrita da autora flui tranquilamente, mesmo quando está mobilizando a bibliografia (cujo leque vai desde Marx a especialistas em turismo internacional). O livro nos tira completamente da zona de conforto e permite enxergar a constituição social do Rio de Janeiro de uma forma completamente diferente.

Nessa sexta visitarei o Rio de Janeiro pela primeira vez, uma curtíssima viagem de 4 dias.  Fiz a leitura de Gringo na Laje motivada pela ocasião e, no final das contas, o livro mudou completamente minhas expectativas sobre a cidade maravilhosa. Se conseguir conciliar os horários, quero incluir o passeio da Rocinha no cronograma. A partir do momento em que vemos a proporção de morros na cidade e de moradores nas favelas, torna-se impossível dizer que se conheceu o Rio de Janeiro tendo ficado só no asfalto (a oposição morro x asfalto é amplamente discutida na pesquisa).

Meu objetivo aqui não é fazer uma resenha, porém, apenas dar a dica de uma leitura incrível e completamente diferente do que costumo indicar. Assim como o vasto número de gêneros textuais existentes, o Brasil também é muito plural, cabendo a nós investigarmos e conhecermos um pouco de nossa diversidade. Gringo na laje me trouxe muitas discussões e indagações, algo que sempre é positivo. Espero que vocês aproveitem a dica e usufruam da leitura.




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Viva a Música! - Andrés Caicedo (Resenha)

Todo ano encontro um livro que não consigo largar, mesmo não conseguindo fazer o tempo render. Um livro cujas páginas se estendem por meses, apesar de poucas. E não sei se amo ou odeio o narrador, os personagens e enredo. Viva a música! foi meu caso de amor e apego em 2015, o qual rendeu uma resenha tardia e inúmeras dúvidas para começar a escrever esse texto.

Solicitei o livro da Rádio Londres já imaginando começar por ele meu projeto Lendo a América Latina. Caicedo, o autor, foi um jovem colombiano e sua obra é considerada por seus conterrâneos um dos livros mais importantes da literatura nacional do século XX, ficando atrás apenas de 100 Anos de Solidão, de Gabriel García Marquéz. Com apelo à subversão, regado a drogas e sexo, Viva a música! remete em muito à vida do próprio escritor que cometeu suicídio após receber o primeiro exemplar do romance, aos 25 anos. 
"Faça da irreflexão e da contradição sua norma de conduta. Deixe de lado as tréguas, fixe sua residência no dano, no excesso e no tremor."
María del Carmen é a narradora desse conturbado romance. Jovem, de classe média alta e loira, descreve-se como alguém muito cativante e comunicativa. Através de suas experiências e interpretações, nos conduz por um universo febril e pulsante, compartilhando com o leitor os gostos, cheiros e possibilitando que a música que corta suas palavras também seja ouvida, ainda que do lado de cá do livro estejamos com o rádio desligado. 

Em minha experiência de leitura, María foi transfigurada como uma personagem que pede socorro. Suas contradições latentes, como drogar-se para sentir a vida dentro de si, demonstram que existe algo que carrega e é incapaz de  lançar para o mundo. Através das músicas, que dão o ritmo da narrativa, expressa suas inconstâncias e desejo de nunca se acomodar (talvez em boa parte pelo exemplo dos pais, tão ausentes e incapazes de notar que ela cheira cocaína em seu quarto, ou dos personagens secundários, carregados de abatimento e morte). As festas, amizades, relacionamentos e músicas todas devem ser vividas no limite.

Entretanto, em que medida essa busca pela liberdade eterna não se torna uma prisão? Apesar de em nenhum momento dizer-se triste e vazia, senti muitas vezes as dores de María. Todos tivemos em algum momento a obrigação de nos colocarmos enquanto sujeitos no mundo e seguirmos padrões sociais. A personagem, entretanto, opta pela fuga para encontrar seu rumo.
"Ouço apenas uma voz que me diz 'Que você curta essa história toda, que não tenha dúvidas', e a noite para mim dura todinha e me dá tanta confiança que eu encaro com olhos vingativos aqueles que vão embora cedo."  (página 108)
Enxerguei em María aquela amiga que tenho dificuldade de aconselhar, a irmã mais nova de um conhecido e eu mesma. Em muitos momentos quis pegá-la no colo, dar um pouco de carinho e dizer que está tudo bem, ainda que não pareça. De alguma forma alguns episódios e inquietações do passado foram trazidos a tona durante a leitura, tornando-a de certa forma intragável e necessária. 

Gostaria que você que me acompanha, meus booktubers e blogueiros preferidos entrassem em contato com essa leitura e com uma narradora tão conturbada. Viva a música! é aquele livro que queremos ouvir ser contado pelo outro, porque NUNCA terá sido a mesma experiência que a nossa. Porém, María del Carmen sempre será uma personagem que vale a pena ser resgatada. 




quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Projetos Literários para 2016!



Vocês sabem que não curto planejar muito minhas leituras, prefiro ir lendo aleatoriamente o que me dá vontade ou o que a faculdade me exige. Sinto que nunca consigo cumprir exatamente o que tinha elaborado porque provavelmente em maio já não estarei com a mesma vontade de ler determinados livros que estou agora em janeiro. Por isso, minhas Metas de Leitura de 2015 foram um grande fracasso, hehe! Delas só consegui ler os primeiros três volumes de Harry Potter, ou seja, falhei totalmente. Assim, resolvi organizar minhas leituras de 2016 em dois grandes projetos, sendo que NÃO lerei apenas livros que se enquadrem nele, porém, priorizarei por acreditar que precisamos conhecer mais esses autores e universos.


Lendo Mulheres

Em 2015, tardiamente aliás, muitos blogs e perfis literários debateram a literatura feminina e o seu baixo protagonismo em relação à fama e visibilidade que homens obtém nesse meio. Nunca tinha parado para pensar nisso e olhando minha estante constatei que o número de autoras não chega à 10% em relação aos autores.  Sendo assim, resolvi me obrigar a ler  o que mulheres incríveis e talentosíssimas escreveram. Pensei em começar terminando os volumes de Harry Potter, lendo a biografia de Clarice (ainda que escrita por um homem) e priorizando etnografias feitas por mulheres nas minhas pesquisas da faculdade. Para nos auxiliar, indico um perfil muito legal no Instagram, O Leia Mais Mulheres. Buscarei muitas sugestões e inspirações por lá e também quero sempre a ajuda de vocês, uma vez que, infelizmente, não conheço tantas autoras.




Lendo a América Latina

Vocês sabem como sou completamente apaixonada pela literatura brasileira. Amo livros, palavras e versos que conversem com nossas inquietações e não me contenho de alegria quando encontro personagens que nos representem tão bem. Dessa maneira, em 2016 quero ampliar meus horizontes e buscar compreender nosso lugar enquanto latino-americanos. Temos autores premiados, uma diversidade cultural muito grande e a obrigação de conhecer nossos vizinhos. Adoro ler em espanhol e vou priorizar o que encontrar em língua nativa. 


Criei esses dois selos para organizar as postagens, ou seja, eles aparecerão no final de todas as publicações referentes e terão seções específicas nas Categorias, assim quem tiver curiosidade pode ver tudo. Como disse, o mais incrível desses projetos é que não conheço muitos autores que caibam nesses espaços, fazendo com que troquemos sugestões durante todo tempo. Será uma grande corrente... Espero que vocês topem esse desafio comigo! 


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"A União Soviética Através da Câmera" - Exposição no Memorial da América Latina


Nesse final de semana tive a oportunidade de visitar a exposição "A União Soviética Através da Câmera", exibida no Memorial da América Latina em São Paulo. Com curadoria de Luiz Gustavo Carvalho e Maria Vragova, a mostra reúne fotografias de Viktor Akhlomov, Yuri Krivonossov, Antanas Sutkus, Vladimir Lagrange, Leonid Lazarev e Vladimir Bogdanov, cujas imagens retratam o período posterior ao Stalinismo e reproduzem de maneira tocante o modo de vida soviético. Apesar do contexto de Guerra Fria, das inúmeras privações que parte da população sofria e das constantes ocupações de território, é possível observar como os indivíduos conseguiam manter uma rotina e serem felizes. 

"Paz é vida" - Vladimir Lagrange
A União Soviética enquanto líder do socialismo e um dos grandes pólos da Guerra Fria foi um país de contrastes extremos, tendo o desenvolvimento tecnológico e a corrida espacial como um dos nortes, enquanto que boa parte da população apresentava condições de vida miseráveis, com cargas de trabalho exaustivas e alimentação insuficiente. Contudo, a exposição surpreende por nos apresentar um lado do país que não conhecíamos: a riqueza cultural e o patrimônio humano. Desde brincadeiras infantis, fotografias de festas populares e retratos de grandes cientistas e intelectuais, temos a oportunidade de conhecer todas as facetas de um país ainda de difícil acesso para nós, brasileiros. 

Tendo a ser muito desconfiada quanto as informações que temos dos países que compunham o bloco socialista. Como fazíamos parte dos aliados dos EUA, sempre nos foi apresentado muito pouco, sendo que boa parte do que chegou ao nosso conhecimento foi distorcido (não, isso não é mais uma teoria da conspiração e pode ser comprovado em qualquer pesquisa rápida). Entretanto, ao observar as imagens temos certeza da imensidão que fomos privados.  

Retratos de Simone e Beauvoir e Sartre em visita à Lituânia
Como a União Soviética era um território composto por diversos países antes independentes, há uma diversidade populacional muito grande. Além disso, como um dos fotógrafos afirma no vídeo exibido, o objetivo daqueles profissionais não era retratar a fome, guerra ou sofrimento, mas, antes de tudo, a diversidade e expressões felizes do cotidiano. De alguma forma o observador se sente parte íntima daquele todo, afinal, não importa onde e em qual época se esteja, criança sempre gostará de brincar na rua, feriados sempre serão um motivo para serem comemorados e premiações sempre nos darão um motivo para torcer. 
Foi minha primeira exposição do ano e não vejo como poderia ter sido melhor. Indico a todos apaixonados pelo universo russo, socialista ou a qualquer pessoa que queira ampliar seus horizontes e conhecer uma nova cultura. 



Memorial da América Latina

Data: 5 de janeiro à 15 de fevereiro de 2016

Endereço: Av. Auro Soares de Andrade, 664 - Metrô Barra Funda, São Paulo (SP)

Ingresso: Grátis

Mais Informações: http://www.memorial.org.br

PS: tentem pegar o encarte da exposição e a revista América, ambos são incríveis!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Leituras de 2015! (Lista Completa)



Estou desacreditando que 2015 já acabou! Imagino que tenha sido um período difícil para todos, mas, antes de qualquer coisa, esse ano me trouxe muito aprendizado, amigos e experiências positivas. Só tenho motivos para agradecer e torcer para 2016 ser incrível também! Como vocês notaram, acabei dando uma sumida por aqui nos últimos meses. Do fundo do meu coração: foi muita correria. Precisei terminar meu relatório sobre Paraisópolis, fazer as provas finais, alguns processos seletivos de estágio e ainda me enrolei em uma matéria, ou seja, meu primeiro dia de férias foi ontem, dia 07/01!

Porém, agora tudo está mais calmo, voltei com muitas ideias de posts e querendo, mais do que nunca, dividir minhas leituras! Vocês sabem que janeiro é o mês das listas. Gosto de listar todos os livros que li no ano anterior,  escrever sobre os melhores, compartilhar metas de leituras e minha wishlist de aniversário... Enfim, todos aqueles adendos que nos ajudam a organizar melhor o próximo ano. Hoje trarei a lista completa de leituras realizadas em 2015 e deixarei todos os links de resenhas por aqui, assim vocês podem acessar o que interessar <3

Livros lidos em 2015 (na ordem em que as leituras foram realizadas)



Foram 41 leituras, o que considero bastante segundo meu ritmo de vida e compromissos diários. Vejo algumas pessoas que leram mais de 100 livros e sinto um pouquinho de vontade de fazer igual, mas sei que está fora de minhas possibilidades, então não entro nessa neura. Considero realmente importante SEMPRE estar lendo algo e não me preocupo com a velocidade que a leitura flui. Principalmente se tratando de livros, a pressa é inimiga da perfeição.

Como vocês puderam perceber, grande parte dos títulos estavam relacionados com esse prédio da imagem acima, o departamento de Ciências Sociais da FFLCH-USP. Me dediquei muito às matérias do curso (principalmente política e sociologia, porque né <3) e, mesmo assim, em alguns momentos, não tive o aproveitamento necessário. Por conta de tantas obras acadêmicas, diminui o número de resenhas em relação ao que foi marcado na lista de 2014. Prometo tentar melhorar em 2016 e prometo aparecer mais por aqui! 

Me digam o que acharam das minhas leituras, das resenhas, sugiram algum título que queiram um post mais completo, enfim, deixem todo e qualquer tipo de comentário!

Para garantir que vocês não fiquem mais tanto tempo longe de mim, vou deixar todas as minhas redes sociais aqui embaixo. Sigam e aproveitem:

Snapchat: nataliaassarito

<3