terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Gringo na Laje - Bianca Freire-Medeiros

O livro de hoje, pela primeira vez na história desse blog, não é de literatura, mas uma pesquisa socioetnográfica (o nome é difícil, mas juro que a leitura não é!). Quem me acompanha sabe que no semestre passado desenvolvi na USP uma pesquisa sobre Teatro em Paraisópolis, com orientação de Bianca Freire-Medeiros, a autora de Gringo na Laje. Além de ter sido de longe a minha professora preferida da graduação, Bianca, carioca da gema, é a maior estudiosa de favelas no Brasil, tendo mapeado diversas favelas do Rio de Janeiro e atualmente morando em São Paulo para estudar Paraisópolis. Ela também possui diversos artigos publicados sobre o tema, trabalhou como pesquisadora em novelas da Glória Perez e visitou diversas favelas em torno do mundo, ou seja, sabe muito sobre o assunto!

Gringo na laje é uma pesquisa sobre turismo nas favelas do Rio de Janeiro e que usa como contraponto a visita da pesquisadora a favelas africanas e indianas. Mais de 3 mil turistas fazem mensalmente o passeio na Rocinha (ou seja, mais de 3 mil SÓ na Rocinha, sendo que o fluxo turístico em outras favelas pacificadas também é grande) e esse movimento é amplamente discutido na sociedade, a qual possui opiniões claramente antagônicas: alguns consideram que o turismo é extremamente benéfico pra sociedade, gerando empregos e aumentando a autoestima dos moradores, enquanto outros afirmam que "turismo de pobreza" é uma maneira de exploração da população local.

Ultimamente temos discutido muito sobre lugar de fala na sociedade. Por exemplo, racismo é lugar de fala de negros, portanto, um branco não deve discutir com um negro sobre o que é ou deixa de ser racismo, machismo lugar de fala de mulher, homofobia de LGBTs e por aí vai...  Digo isso pois para se ter uma opinião sobre turismo na favela, antes de mais nada, é importantíssimo ouvir o que os próprios moradores têm a dizer sobre o assunto, algo feito com muito cuidado no livro. Além de todos os dados coletados sobre número e nacionalidade dos turistas, receita gerada, dinheiro revertido para ongs, entre outros, a equipe elaborou um questionário aplicado aleatoriamente entre os moradores locais. 

Dessa maneira, para quem estuda ciências sociais, o livro é incrível por expor as técnicas de pesquisa aplicadas na prática. O leitor comum, por outro lado, não possui nenhum impedimento para a leitura. Gringo na laje foi a primeira pesquisa acadêmica que li sem esforço algum. O tema me interessou demais e a escrita da autora flui tranquilamente, mesmo quando está mobilizando a bibliografia (cujo leque vai desde Marx a especialistas em turismo internacional). O livro nos tira completamente da zona de conforto e permite enxergar a constituição social do Rio de Janeiro de uma forma completamente diferente.

Nessa sexta visitarei o Rio de Janeiro pela primeira vez, uma curtíssima viagem de 4 dias.  Fiz a leitura de Gringo na Laje motivada pela ocasião e, no final das contas, o livro mudou completamente minhas expectativas sobre a cidade maravilhosa. Se conseguir conciliar os horários, quero incluir o passeio da Rocinha no cronograma. A partir do momento em que vemos a proporção de morros na cidade e de moradores nas favelas, torna-se impossível dizer que se conheceu o Rio de Janeiro tendo ficado só no asfalto (a oposição morro x asfalto é amplamente discutida na pesquisa).

Meu objetivo aqui não é fazer uma resenha, porém, apenas dar a dica de uma leitura incrível e completamente diferente do que costumo indicar. Assim como o vasto número de gêneros textuais existentes, o Brasil também é muito plural, cabendo a nós investigarmos e conhecermos um pouco de nossa diversidade. Gringo na laje me trouxe muitas discussões e indagações, algo que sempre é positivo. Espero que vocês aproveitem a dica e usufruam da leitura.




3 comentários:

  1. Oi Natália! Parece interessante! Aproveite sua vinda ao Rio. Para você que gosta de ler, não deixe de visitar as livrarias da Travessa do centro, de Ipanema e Leblon. O CCBB e a Caixa Cultural também valem a pena! Bjs

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    1. Nossa, Andreia, foi tão rápido :/ Queria ter visitado o Real Gabinete Português e não deu tempo também. Só consegui visitar a Travessa do Leblon e já adorei... O bom disso é que tenho motivos de sobra para voltar ao Rio em breve, hehe <3

      Beijos

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