quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Viva a Música! - Andrés Caicedo (Resenha)

Todo ano encontro um livro que não consigo largar, mesmo não conseguindo fazer o tempo render. Um livro cujas páginas se estendem por meses, apesar de poucas. E não sei se amo ou odeio o narrador, os personagens e enredo. Viva a música! foi meu caso de amor e apego em 2015, o qual rendeu uma resenha tardia e inúmeras dúvidas para começar a escrever esse texto.

Solicitei o livro da Rádio Londres já imaginando começar por ele meu projeto Lendo a América Latina. Caicedo, o autor, foi um jovem colombiano e sua obra é considerada por seus conterrâneos um dos livros mais importantes da literatura nacional do século XX, ficando atrás apenas de 100 Anos de Solidão, de Gabriel García Marquéz. Com apelo à subversão, regado a drogas e sexo, Viva a música! remete em muito à vida do próprio escritor que cometeu suicídio após receber o primeiro exemplar do romance, aos 25 anos. 
"Faça da irreflexão e da contradição sua norma de conduta. Deixe de lado as tréguas, fixe sua residência no dano, no excesso e no tremor."
María del Carmen é a narradora desse conturbado romance. Jovem, de classe média alta e loira, descreve-se como alguém muito cativante e comunicativa. Através de suas experiências e interpretações, nos conduz por um universo febril e pulsante, compartilhando com o leitor os gostos, cheiros e possibilitando que a música que corta suas palavras também seja ouvida, ainda que do lado de cá do livro estejamos com o rádio desligado. 

Em minha experiência de leitura, María foi transfigurada como uma personagem que pede socorro. Suas contradições latentes, como drogar-se para sentir a vida dentro de si, demonstram que existe algo que carrega e é incapaz de  lançar para o mundo. Através das músicas, que dão o ritmo da narrativa, expressa suas inconstâncias e desejo de nunca se acomodar (talvez em boa parte pelo exemplo dos pais, tão ausentes e incapazes de notar que ela cheira cocaína em seu quarto, ou dos personagens secundários, carregados de abatimento e morte). As festas, amizades, relacionamentos e músicas todas devem ser vividas no limite.

Entretanto, em que medida essa busca pela liberdade eterna não se torna uma prisão? Apesar de em nenhum momento dizer-se triste e vazia, senti muitas vezes as dores de María. Todos tivemos em algum momento a obrigação de nos colocarmos enquanto sujeitos no mundo e seguirmos padrões sociais. A personagem, entretanto, opta pela fuga para encontrar seu rumo.
"Ouço apenas uma voz que me diz 'Que você curta essa história toda, que não tenha dúvidas', e a noite para mim dura todinha e me dá tanta confiança que eu encaro com olhos vingativos aqueles que vão embora cedo."  (página 108)
Enxerguei em María aquela amiga que tenho dificuldade de aconselhar, a irmã mais nova de um conhecido e eu mesma. Em muitos momentos quis pegá-la no colo, dar um pouco de carinho e dizer que está tudo bem, ainda que não pareça. De alguma forma alguns episódios e inquietações do passado foram trazidos a tona durante a leitura, tornando-a de certa forma intragável e necessária. 

Gostaria que você que me acompanha, meus booktubers e blogueiros preferidos entrassem em contato com essa leitura e com uma narradora tão conturbada. Viva a música! é aquele livro que queremos ouvir ser contado pelo outro, porque NUNCA terá sido a mesma experiência que a nossa. Porém, María del Carmen sempre será uma personagem que vale a pena ser resgatada. 




Um comentário:

  1. Ótima resenha, Natália! Fiquei com vontade de ler o livro. Pena que eu tenha muitos outros na fila rs. Beijos. Andreia www.mardevariedade.com

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