segunda-feira, 16 de maio de 2016

Para Poder Viver - Yeonmi Park (Resenha!)

Meu primeiro livro escolhido enquanto parceira da Companhia das Letras foi o lançamento "Para Poder Viver", de Yeonmi Park. Confesso que queria algo que fugisse totalmente da minha zona de conforto, ao mesmo tempo em que não me deixasse totalmente perdida. Assim, o primeiro livro lançado sobre uma desertora da Coreia da Norte me pareceu tentador, uma vez que não costumo ler muitas biografias e enquanto estudante de ciências sociais me interesso muito por geopolítica e culturas diferentes da nossa.

Me causa muito estranhismo imaginar que em pleno 2016, com as redes sociais bombando, ainda existam países tão inacessíveis ao nosso conhecimento. A Coreia do Norte talvez seja o principal desses países, afinal, até Cuba tem aberto suas relações com o capitalismo.

Yeonmi Park tem 22 anos e ficou famosa ao contar sua história em um discurso do One Young World (você pode ver aqui)- o vídeo original possui mais de 2 milhões de visualizações. No livro, decidiu escrever fatos inéditos sobre sua trajetória, os quais envolvem suas memórias de infância, a fuga para a China, seu envolvimento com o tráfico de pessoas e tudo que aconteceu em sua vida até tornar-se uma ativista dos direitos humanos reconhecida mundialmente. 

Para Poder Viver é um livro extremamente surreal, Park descreve particularidades que nos parecem completamente absurdas, tornando-se difícil, em diversos momentos, acreditar na autora (o que me levou a pesquisar bastante). Em diversas passagens tive a impressão de ler George Orwell ou Huxley, inclusive citados várias vezes durante a narrativa. 

Temos amplo conhecimento sobre ditaduras, uma vez que até mesmo o Brasil viveu longos anos em um regime militar. Talvez por isso não seja tão difícil crer quando Yeonmi conta que pessoas morrem na Coreia do Norte por contestarem o governo ou fazerem ligações internacionais não autorizadas. Contudo, é difícil compreender que seus compatriotas acreditam que seu líder é imortal ou possui capacidade de ler suas mentes (e, por incrível que pareça, isso é verdade).

Outra passagem absurda é quando Park narra que viveu em uma cidade fronteiriça com o interior da China e seu sonho era poder cruzar a fronteira para usufruir do conforto que seus vizinhos possuíam. Não havia eletricidade ou uma quantidade de comida diária razoável em sua cidade. Nós sabemos sobre fome, trabalho escravo e feminicídio na China. Que tipo de vida pode ser tão cruel a ponto de tornar a China um sonho luxuoso?

É essa a vida narrada pela autora. Um lugar em que corpos ficam estendidos nas ruas, pais morrem de câncer sem nunca terem um diagnóstico, famílias inteiras pagam por um erro de um parente distante, relações amorosas não existem e a única crença permitida envolve a família do ditador. Porém, isso engloba apenas metade das 308 páginas.

O conto de terror piora quando Park consegue chegar à China e é traficada, separada da família, vendida por poucos dólares e estuprada por anos. Foi muito duro ler essas páginas. A violência contra mulher ainda é muito forte em todo mundo e precisa ser combatida. É inaceitável que meninas não tenham o direito de trilhar o próprio caminho e escolher viver como desejam.

Contudo, é muito bonito observar como cada um carrega um instinto de sobrevivência e forças dignas de super heróis dentro de si. Park cruzou o deserto somente guiada pelas estrelas em busca de uma vida melhor. Quando conseguiu, estudou e lutou ainda mais para poder se integrar em uma sociedade totalmente alheia à sua existência.

"Aprendi outra coisa naquele dia: todos temos nossos próprios desertos. Podem não ser iguais ao meu deserto, mas sempre teremos de atravessá-los para encontrar propósito na vida e para sermos livres."

Por mais contraditórias que algumas passagens pareçam, Para Poder Viver cumpre um papel importantíssimo: disseminar informações. O que ali está escrito não pode ser contestado, porque ninguém na Coreia do Norte pode escrever livremente sobre sua realidade (e isso, por si só já é problemático). Yeonmi Park é uma mulher que lutou por cada dia de sua liberdade e hoje vive em função de libertar seu povo. O livro me fez dar valor às pequenas e grandes coisas do meu dia-a-dia. Todos deveriam ler.




2 comentários:

  1. Oi Natália! Em Niterói estou participando do clube Leia Mulheres e gostando muito! Tenho adorado ler mais autoras e esse livro vai para minha lista. Bjs Andreia www.mardevariedade.com

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    1. Oi, Andreia! Pode colocar na lista, tenho certeza que você irá amar.

      Beijos

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