domingo, 26 de junho de 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão - Martha Batalha (Resenha)

Esse é o melhor livro que li e lerei esse ano. Não preciso esperar todos os outros que virão para saber disso. Tenho uma lista curtíssima de livros preferidos, três, para ser mais exata. Dom Casmurro, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Travessuras da Menina Má. Todos com mulheres fortes e homens terrivelmente arruinados nas mãos dessas digníssimas damas. Eurídice Gusmão surgiu tentando empurrar a Menina Má, minha tão querida Chilenita, com todas as forças. Tive que segurá-la firmemente. Tenho essa ranhetice por natureza, odeio livros tão bons. Porque, não sei se vocês concordam, se um é tão incrível, diminuí-se o número de livros incríveis a serem lidos. E continuar é importante. 

Calma, Eurídice, você é a quarta do meu coração e da minha lista tão exigente. Quarta, mas com um carinho diferente que dedico a todas as outras. Eurídice Gusmão, nenhuma outra é tão sincera quanto você. Nenhuma outra é tão mulher. Porque apenas Eurídice, que poderia ser nossa avó, foi criada por uma mulher. Capitu, Flor, Chilenita... Repito, nenhuma é tão mulher como Eurídice Gusmão. Por mais brilhante que um autor seja, ele nunca saberá o peso e a força de ser mulher. Nenhum homem sentiu, nem mesmo por um dia, infelizmente, o que é ser mulher. 

"Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido"

O primeiro romance de Martha Batalha, como a própria orelha do livro diz, surpreende em qualidade e, não à toa, os direitos do livro já foram vendidos ao cinema. A linguagem da autora é direta, ligeira e irônica, como se cada palavra ali escrita tivesse sido cuidadosamente escolhida para atender um fim objetivo. A protagonista, Eurídice Gusmão, representa a típica mulher carioca nascida nos anos 20 e pertencente à classe média. 

Eurídice nos é apresentada como uma mulher extremamente inteligente e brilhante, podendo ter sido engenheira, biomédica, escritora ou qualquer outra coisa que desejasse e lhe permitissem. Contudo, o que lhe foi designado foi o casamento com Antenor, um homem justo e bom que "não sumia na rua em orgias e em casa não levantava a mão. Ganhava bem, reclamava pouco e conversava com as crianças. Ele só não gostava de ser incomodado quando lia seu jornal, quando dormia até tarde e quando descansava depois do almoço, e desde que seus chinelos permanecessem em paralelo ao pé da cama, que seu café fosse servido quase que fervendo, que não houvessem natas no leite, que as crianças não corressem pela casa, que as almofadas permanecessem na diagonal (...) e que os banheiros cheirassem a eucalipto, ele não exigia demais" (p. 33). E, sendo assim, o que Antenor e todos os demais maridos da época esperavam de suas esposas é que elas não dessem muito trabalho, ocupando-se das funções lar, da criação das crianças e das demais atividades pertinentes às mulheres. Eurídice, tão inteligente, logo entendeu que pensar não cabia nas suas tarefas. Então, de acordo com sua educação e pensando no bem da família, desistiu de pensar, mantendo-se o tempo todo ocupada.

Contudo, Eurídice Gusmão não era uma mulher simples e até para encontrar tarefas e se distrair dos pensamentos, pensava demais. Primeiro começou a desenvolver receitas, comprou um caderno para anotá-las, fez criações maravilhosas e intensamente rejeitadas por seu núcleo familiar. Poderia ter publicado seu livro de receitas e se tornado uma chef reconhecida. Mas o caderno, coitado, acabou no lixo junto com as sobras do jantar.

Depois, com os filhos já crescidinhos, situação financeira melhor, empregada em casa e sem tantos afazeres, Eurídice decidiu aprender a costurar. Ganhou uma máquina e começou a fazer suas próprias roupas. Entretanto, costurar apenas suas roupas começou a parecer pouco. Decidiu abrir porta para uma ou outra vizinha, reproduzir os modelos das revistas e quando percebeu, costurava a tarde toda, possuía uma funcionária e boa parte das mulheres do bairro eram suas clientes. Eurídice poderia ter sido uma grande estilista.  Porém, Antenor, ao descobrir, teve a reação que qualquer "bom marido dos anos 50" teria: proibiu-a, afinal, os vizinhos poderiam pensar que estavam passando por uma má situação financeira e que ele não era homem o suficiente para sustentar a casa. 

"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" é uma obra prima contemporânea. Se a leitora não se reconhece na protagonista, consegue avistar traços de seu DNA nas coadjuvantes tão bem construídas. A irmã de Eurídice, Guida, abandonou o destino que lhe era reservado, fugindo com o namorado da adolescência e, posteriormente, tendo que passar boa parte da vida sobrevivendo como uma mãe solteira. A vizinha fofoqueira, Zélia, nasceu em uma família totalmente desestruturada e teve seu talento de jornalista morto junto com o pai, passando, então, a forjar infelicidade em todos que conhecia, algo que lhe dava muito prazer. Maria das Dores, a empregada doméstica, por outro lado, não possui muita história a ser contada, em uma crítica feroz de Martha Batalha, afinal, em um mundo em que mulher nenhuma tem voz, a pobre e periférica tem menos ainda. 

Durante muitos momentos da narrativa tive vontade de abraçar todas essas mulheres. Elas são minhas avós, mas também são eu, nesse país ainda tão barroco, machista e atrasado. Da mesma forma que existe "A Parte Eurídice que Não Queria que Eurídice Fosse Eurídice", dentro de mim carrego uma parte "Natália que Não Quer que Natália Seja Natália", a qual grita que eu preciso aprender a ter humildade e apreciar o meu lugar, que ainda sou muito pouco, que preciso tomar cuidado com a roupa que uso na rua, que chamar atenção demais é um pecado, mas chamar atenção de menos também é, que meu cabelo precisa estar hidratado, que não passo credibilidade quando não estou maquiada, que minha ambição é condenável e que meus sonhos são excêntricos (palavra criada para mulheres se sentirem esquisitas fazendo coisas que homens fazem com naturalidade).

Entretanto, da mesma forma que o livro não é a história de "Das Dores", não é a de Natália Assarito. Martha Batalha fez nascer um pequeno gigante de 188 páginas. Eu poderia ter escrito aqui sobre desigualdade social, machismo, sexismo e como a ascensão econômica permite que categorias oprimidas respirem aliviadas. Quem sabe um dia ainda volte aqui para discutir outros tantos temas desse romance. 

Por hora, muito obrigada, Eurídice Gusmão, por ter me feito entender que minha realidade é um desenrolar da vida das minhas avós. Sinto muito por nós ainda sermos tantas vezes iguais a você e precisarmos demonstrar coragens absurdas para sermos respeitadas (sabe, quando tentamos impor respeito nos chamam de histéricas, mandonas e péssimas líderes). Mas eu te juro, estamos lutando muito. Nossa liberdade não demora a chegar. A cada dia que passa estamos mais perto de sermos a mulher que podemos ser. 



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