terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Céu de Lima - Juan Gómez Bárcena (Resenha)

Sempre sonhei em escrever um livro. Gosto de passar horas imaginando como deve ser o processo de criação de cada personagem. Acho que o autor deve conhecer os detalhes de personalidade das suas criações aos poucos, da mesma maneira com que vamos conhecendo novos amigos e amores, com cada situação inesperada, cada surpresa que o desconhecido nos traz.

Juan Gómez Bárcena, o escritor, também me surpreendeu demais. A história criada, além de extremamente cativante, carrega traços de verossimilhança fortes. Como se não fosse pouco, o autor é um querido que responde todos no twitter, mostrando que genialidade não é uma grandeza oposta à humildade.

Os protagonistas,   José Gálvez e Carlos Rodríguez, são os burgueses perfeitos, fazendo com que nos esqueçamos em muitos momentos que a narrativa ocorre no começo do século XX, no Peru ( me peguei pensando inúmeras vezes que conheço muitos Rodríguez e muitos Gálvez). Cansados do tédio e das obrigações morais que a condição social os impunha, os dois amigos gostavam de manter uma vida boêmia, fugindo das aulas da faculdade de direito e fingindo serem grandes escritores.

Por serem grandes leitores e admiradores de Juan Ramón Jiménez, importante poeta espanhol, os jovens decidem inventar Georgina, uma musa perfeita, e enviam cartas ao escritor em nome dessa mulher fictícia (algo semelhante aos perfis fakes que encontramos nas redes sociais). A primeira abordagem de Georgina ao poeta foi muito simples, chegando a ser tímida, em que a jovem se identifica como leitora assídua do poeta. Ao longo das cartas, entretanto, a amizade entre Georgina e Juan Ramón Jiménez se estreita, com a jovem perdendo a formalidade e revelando segredos de sua vida.
"Mas o amor, onde está? Ainda não está, porque ninguém lhe deu palavras. O amor é um discurso, meu amigo, é um folhetim, um romance, e se não for escrito na cabeça, ou no papel, ou onde quer que seja, não existe, fica pela metade; não passa de uma sensação que imaginou o sentimento..."
Ao mesmo tempo em que Rodríguez e Gálvez escrevem seu romance com a ajuda passiva de Juan Ramón, adentramos na infância, traumas e lembranças dos protagonistas. Rodríguez, filho de um seringueiro que consegue ficar milionário com o ciclo da borracha, tem em suas primeiras lembranças imagens da violência contra os indígenas, resultando em um constante sentimento de repulsa a assumir qualquer tipo de conflito (o personagem nunca consegue impor suas vontades e sentimentos verdadeiros). Gálvez, por outro lado, nasceu em uma família tradicional peruana e durante toda narrativa espera que seus caprichos sejam atendidos por todos.

"O acampamento estava cheio de meninos que não eram meninos propriamente ditos, porque eram filhos dos trabalhadores indígenas e por isso não podia brincar com eles, nem sequer olhá-los de frente. (...) Faz de conta que são invisíveis, advertiu seu pai."

A primeira vista, o enredo parece simples, quase banal. A beleza do Céu de Lima está naquilo que é contado ao mesmo tempo em que toda confusão acontece.  Como se fossem múltiplas estórias em uma. A história do bacharel, que ao ajudar nas cartas de Georgina, ensina tanto sobre o amor. A violência e a maneira com que os indivíduos encontram para enriquecer e se tornarem "homens de bem" são retratadas. O livro também fala de distúrbios psicológicos em uma época cujos sintomas eram tratados como frescuras e ser considerado louco era o pior que podia acontecer a alguém. No meio da narrativa, o leitor também se depara com a prostituta polaca, uma criança de 13 anos e o desespero dela se torna o nosso.

Devido ao desespero de Gálvez que não estava satisfeito com a resistência de Juan Ramón em assumir seu amor, Georgina é criada por diversos homens diferentes. Rodríguez, o bacharel, Gálvez e os boêmios do clube vão moldando aos poucos a personalidade dessa mulher sem rosto. Me peguei por muito tempo refletindo sobre a construção de Georgina e o papel social da mulher. Quantas de nós sentimos que têm homens demais dando pitacos em nossa vida? Homens demais pensando que deveríamos ser mais simpáticas, mais carinhosas, mais aventureiras, mais recatadas, mas desinibidas... Homens demais achando que nossos corpos estão à disposição quando saímos nas ruas e que estamos dispostas a escutar suas opiniões sobre nossos corpos e comportamento. Quantos homens e suas opressões machistas formam uma mulher?

Por fim, O Céu de Lima é um livro sobre todos os sonhos que nunca iremos realizar e como romantizamos memórias que nunca chegaram perto do que lembramos. Senti uma tristeza muito forte ao ler as últimas frases. O mesmo que sinto todas as vezes que chego perto demais daquilo que está para se tornar um clássico de um tempo.



Um comentário:

  1. Oi, Natalia. Gostei da sua resenha. Difícil falar sobre O Céu de Lima, qnd ele fala de tanta coisa ao msm tempo, né? Essa questão da mulher então, me peguei várias tbm pensando sobre a criação de uma figura feminina, o que ela devia ser, o que ela não devia ser, as inspirações... E as figuras das putas, a história de uma delas. Meio que se escancara essas realidades. O livro faz isso de inúmeras maneiras. Foi mto engenhoso como o autor deu voz a tantas histórias "numa só".

    Abs,
    Kleris

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