domingo, 16 de abril de 2017

Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos - Zygmunt Bauman (Resenha)

Muitas vezes em minha graduação (ciências sociais - USP) tenho a oportunidade de cruzar elementos acadêmicos com informações e autores que vocês, leitores do blog, possuem muita curiosidade. Nesse semestre estou cursando uma disciplina nomeada Sociologia da Literatura, ministrada por Daniela Guertzenstein, sendo que uma das formas de avaliação foi a produção da resenha do livro Amor Líquido, publicado por Bauman.

Eu, Natália Assarito, particularmente, não acredito muito na sociologia do autor, devido à falta de provas no que é colocado e método adotado na produção. Não consigo identificar quais são as bases teóricas do que ali está escrito, além do empirismo de um homem genial. Defendo a produção de sociologia espontânea, porém não nos moldes de best sellers, em que o autor publica um livro por ano.

Entretanto, compreendo sim a importância da discussão dos temas tratados, principalmente fora do meio acadêmico. Bauman é um excelente escritor e suas reflexões são importantes para repensarmos nossos tempos e modelos de vida. Em muitos momentos, concordo com suas opiniões e enfoques (todavia, não entendo como isso seria sociologia). A seguir, reproduzo a resenha entregue à professora. Espero que vocês gostem e também deixem suas impressões nos comentários!


Nos primeiros meses de 2003, Bauman publicou Amor Líquido, livro que seria amplamente difundido e colocaria em discussão os relacionamentos modernos em uma sociedade dominada por interações via redes. Logo no início de sua obra, o autor ressalta características importantes da atual vida líquida, concretizada pela insegurança, ansiedade e medo (dentre outros fatores, esses sentimentos são gerados pelas instabilidades do mercado de trabalho, tema discutido em seu livro anterior, “Modernidade Líquida”). Levada às relações amorosas, o medo e a insegurança de se relacionarem empurrariam os homens a uma contradição: ao mesmo tempo em que buscam por acolhimento e segurança, almejam relacionamentos cujos vínculos sejam muito estreitos, permitindo-lhes um rápido e indolor término. Dessa maneira, as relações sociais deixam de acontecer pessoalmente, com a presença física do outro, passando a serem mediadas por tecnologias, nas quais a tecla “delete” está sempre presente.

No primeiro capítulo, “Apaixonar-se e desapaixonar-se”, Bauman faz uma série de comparações, por exemplo, entre o amor e a morte, argumentando que ambas são inerentes aos seres e ocorrem em momentos inesperados. Contudo, a relação que mais chama atenção diz respeito às semelhanças entre os relacionamentos e os investimentos econômicos feitos por meio de ações. Em ambos os casos, o indivíduo dispõe de seu tempo e esforços buscando uma resposta lucrativa, algo a ser devolvido em números ou intensidades maiores do que foi aplicado, além da possibilidade de uma fácil dissolução do negócio, caso seja possível observar que ele não encaminhará bem. A resposta esperada em relações amorosas está voltada para a companhia e ajuda em momentos de dificuldade, algo totalmente condizente com a insegurança do mundo líquido.  Entretanto, ao contrário das grandes ações, o autor defende que relacionamentos exigem uma carga de responsabilidade extra, pois as pessoas envolvidas não são capazes de ter informações privilegiadas por meio de especialistas (a não ser que os contrate) e nunca há garantias, seja sobre os sentimentos do outro ou sobre as ações tomadas.

Outro ponto importante, abordado ainda no primeiro capítulo, diz respeito às “relações de bolso”, aquelas de pouco tempo de duração, porém repletas de boas lembranças, uma vez que não exigem nenhum esforço para sua manutenção, sendo instantâneas e disponíveis. O indivíduo ingressa nessas relações sem estar tomado por paixões, totalmente consciente de si, de suas ações e do outro e, desse modo, não se modifica e nem luta para promover mudanças no companheiro, mantendo a harmonia pelo tempo limitado ao que o enlace está fadado a durar.

No segundo capítulo, “Dentro e fora da caixa da sociabilidade”, discute sobre o papel do sexo na vida dos indivíduos pertencentes à modernidade líquida. Segundo ele, em uma sociedade de consumo, para que o tédio não seja gerado, ocorre o aluguel de boa parte dos bens, permitindo uma rápida mudança para os modelos de última geração. Nessa lógica, assim também seria o sexo, adaptando-se a um padrão de compras e locação, uma vez que um encontro profundo de parceiros sexuais gera ansiedade e, acima de tudo, os indivíduos prezam por segurança. Todavia, por mais que tentem alienar esse encontro, essa constante troca faz com que os indivíduos se tornem eternamente insatisfeitos e incompletos.

Ainda nesse capítulo, Bauman chega ao ponto fundamental para se analisar uma sociedade completamente integrada por redes tecnológicas: os relacionamentos humanos mediados por aparelhos celulares. Como pressuposto, entende-se que quanto mais profundo é o vínculo entre os indivíduos, maiores são as chances de sofrimento caso ocorra um rompimento. Assim, os homens buscam terem sempre muitos contatos, muitas relações para as quais pedir refúgio, caso uma investida não tenha o efeito desejado. Para o autor, a rejeição deixa até de se tornar uma grande preocupação, pois sempre haverá outro alguém para se mandar uma mensagem e buscar atenção.

 Como apostar em apenas um relacionamento é arriscado e causa sofrimento, os celulares se tornam grandes refúgios na multidão, permitindo que se esteja sempre em movimento e pronto para uma nova conexão. Forma-se um enxame de pessoas cujas redes são destacadas, gerando, também, um aceite social por parte desses indivíduos. Além disso, como dito anteriormente, os celulares são plenamente capazes de aproximarem os seres humanos e os distanciarem, uma vez que é muito fácil ignorar uma ligação ou mensagem de texto. Dessa maneira, o uso dessas tecnologias atinge o ápice das relações humanas, sendo difícil observar alguma que não tenha sua influência, ainda que parcial.

Utilizando Durkheim como referência, Bauman classifica a virtualidade como um fato social, uma vez que é coercitiva, instituída de fora para dentro, pertence à todos, não depende do julgamento individual e é impossível de ser transgredida sem julgamento.

Nos capítulos seguintes, “Sobre a dificuldade de amar o próximo” e “Convívio destruído”, o autor expõe as conseqüências globais dessa maneira líquida de amar. A principal dessas formas seria o avanço da xenofobia, com a vontade dos Estados- Nação de também deletarem/excluírem uns aos outros, permitindo o avanço dos campos de concentração mantidos por forças de atração e repulsão. Além disso, com o consumo exagerado, a produção de lixo humano atingiu limites impossíveis de serem administrados.

A principal maneira, então, de combater a fragilidade dos laços humanos seria a abertura para a criação de vínculos, entrando em contato com a teoria de Arendt, em que a “abertura para o outro” é a condição primária para a humanidade. O diálogo e o pensamento crítico devem reforçar o poder de escolha dos indivíduos para o mundo que querem viver.

Bibliografia
BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro. Zahar, 2004.


Foto: reprodução



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