domingo, 2 de abril de 2017

Os Meninos da Rua Paulo - Ferenc Molnár

Quando eu era pequena, em todas as férias de julho as professoras se despediam dos alunos entregando um singelo pacote de "lição de férias". Nele, tínhamos exercícios de matemática e interpretação de texto, decorrente de alguma leitura indicada para o período. Sabe memória afetiva? Quando você tem uma lembrança tão forte que sente o cheiro, a textura e a temperatura de um dia? No momento em que comecei a ler Os Meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, me transportei automaticamente para as minhas férias de julho, quando eu ficava deitadinha lendo, desenhando com giz de cera e sonhando sobre como deveria ser o mundo lá fora.

"Este foi o único livro que ganhei do meu pai. Em geral, quem me presenteava com livros era minha mãe, ela sim uma grande leitora. (...) Talvez por isso, Os Meninos da Rua Paulo seja tão importante pra mim, a ponto de fazer com que eu assine essa orelha, mesmo sendo contra editores aparecerem em livros de publicação própria." - Luiz Schwarcz

Publicado em 1906, como todo livro voltado para crianças, a obra conta com um enredo simples, porém repleto de poesia e sentimentos capazes de acordar qualquer adulto. Um grupo de amigos funda a Sociedade do Betume, onde se reúnem todas as tardes para brincarem e discutirem sobre seus dias. Assim como os demais clubes infantis, dentro da Sociedade há uma hierarquia muito bem definida, centralizada no líder Boka e acompanhada de tenentes, alferes, capitães e um soldado raso, Nemecsek, aparentemente o menino mais frágil da estrutura.

Entretanto, um grupo rival, formado pelos camisas vermelhas, meninos pertencentes a outra escola, decide reivindicar para si o grund (território) da Sociedade do Betume, declarando guerra. Dessa maneira, Boka e seus companheiros precisam se unir e traçar estratégias para defender aquele espaço representante de um  universo de felicidade e fuga. Nesse momento, temos contato com um sentimento de real heroísmo, um companheirismo cuja existência nos esquecemos, algo que só o infantil é capaz de nos despertar.

Particularmente, não acredito totalmente em um ideal de bondade na infância, uma vez que por se tratarem de seres em socialização, crianças são capazes de adquirirem algumas "crueldades" dos adultos muito rapidamente e, justamente por serem crianças, não possuem discernimento para expressar isso. No livro, Nemecsek é constantemente ultrajado por seus colegas, os quais fazem questão de realçar durante todo tempo sua inferioridade dentro da Sociedade. Porém, esse mesmo personagem nos mostra que apesar desse lado difícil dos nossos primeiros anos, ainda é nesse momento que somos puros o suficiente para lutarmos por aquilo que amamos, sem nos importar com valores ou consequências.

Eu gostaria de ter lido Os Meninos da Rua Paulo na minha infância porque não me lembro de ter entrado em contato com algo que contém mais sonhos em estado puro. O livro é algo para ser desbravado, deliciado aos poucos. O duro golpe do final nos lembra que somos adultos e que nossas realidades nunca mais poderão ser tão coloridas assim. Mas, como coração não é essa coisa toda exata, manterei essas páginas pertinho de O Gênio do Crime, um clássico da nossa literatura, para que meus filhos, ou os filhos de meus amigos, nunca percam essa imensa oportunidade de serem felizes.

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